Publicada em 14/07/2017 às 09h55. Atualizada em 17/07/2017 às 08h55

A (De)pressão e a Contemporaneidade: notas sobre o sintoma social

Com altos números de casos de depressão, a escuta psicanalítica surge como uma alternativa à medicalização. Conheça mais o assunto neste artigo.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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"A contemporaneidade caracteriza-se por uma sociedade espetacular e narcísica, produtora de (de)pressões e solicitações por uma busca de satisfações sem limites e a todo custo..."

Na contemporaneidade, o predomínio de determinadas sintomatologias e formas de subjetivação podem estar intrinsecamente relacionadas com as características da cultura atual. A contemporaneidade caracteriza-se por uma sociedade espetacular e narcísica, produtora de (de)pressões e solicitações por uma busca de satisfações sem limites e a todo custo, o que tem-se tornado árduo demais para os sujeitos. 

Nesse contexto, a depressão surge como um mal-estar que expressa o desacordo e o vazio de não corresponder aos ideais da cultura atual. O termo depressão tem sido usado como um significante para nomear diversos sentimentos, a exemplo da tristeza que tem sido aventada como sinônimo de depressão. Ao lado disso, a maioria dos casos diagnosticados como “depressão” nos dispositivos de saúde mental são tratados pela via da medicalização que, por vezes, considera prioritariamente o sintoma em detrimento do sujeito. Nesse contexto, a escuta clínica, especificamente a psicanalítica, surge como uma alternativa à medicalização, a singularidade do sujeito no lugar do enfoque na patologia.

Dessa forma, torna-se de suma importância discutir a depressão enquanto mal-estar que ocupa lugar de destaque na mídia, nas redes sociais, nos espaços acadêmicos e, principalmente, no contexto da saúde pública. Vale observar a depressão como sintoma social a partir de algumas características da contemporaneidade que podem ser disparadoras ou potencializadoras de mal-estar.

Em vista disso, pode-se compreender que o sujeito, na contemporaneidade, apresenta diversos modos de se posicionar no mundo diante das exigências da cultura da sua época, produzindo, por vezes, sintomas – a exemplo da depressão.

A cultura configura-se, então, como condição sine qua non na constituição do psiquismo humano, sendo inegável sua relação com as sintomatologias que surgem em cada período. Em decorrência disso, algumas características fundamentais da contemporaneidade podem estar relacionadas ao surgimento de formas de mal-estares como a depressão, quais sejam: a liquidez nas ações, a desconfiança nos discursos, a fragmentação e o desamparo, entre outros.

As características da cultura contemporânea atual ganham contornos na esfera do consumo de imagens-objetos produzidos pela indústria e, por sua vez, o espetáculo surge como a principal produção da sociedade atual.  Por esse caminho e valendo-se de forma metafórica dos termos (Modernidade Sólida e Modernidade Líquida), pode-se depreender as mudanças ocorridas na modernidade como uma produção histórica, social e cultural que têm impactado na sociedade atual e que podem ser produtoras e potencializadoras de fenômenos modificadores das formas de constituição das subjetividades.

Assim, a depressão e suas variadas formas de classificação destacam-se enquanto fenômeno na atualidade, tendo em vista que ela se tornou um dos mitos em saúde mental na contemporaneidade. Nesse mesmo sentido, esse mal-estar contemporâneo poderia estar relacionado a uma pluralidade  de fatores característicos da cultura atual que determinam e perpetuam a depressão como uma das grandes modalidades de mal-estar na contemporaneidade.

Segundo dados da OMS (Organização Mundial de Saúde) publicados no Relatório Mundial da Saúde – Saúde mental: nova concepção, nova esperança - a depressão, nos próximos 20 anos, poderia vir a ser a segunda das principais causas de doenças em todo o mundo, como também uma das principais causas para o afastamento dos sujeitos de toda natureza de atividades laborais, contribuindo para impossibilitá-los de vivenciarem sua existência nas dimensões sociais e coletivas.

Nesse contexto, o estudo da depressão parte de uma inquietação sobre a sua presença em nosso meio e chama a atenção o fato de existir uma preocupação crescente como estudo dessa temática, mobilizando o desenvolvimento de pesquisas a partir da sua compreensão como um sintoma do mal-estar na sociedade contemporânea.

Vale destacar que o conceito de sintoma social utilizado aqui não se define em função da grande incidência ou relevância estatística da depressão como patologia, haja vista que não se almeje aqui priorizar esse aspecto. A ideia de sintoma social aqui utilizada seria a inscrição específica da articulação discursiva própria a tal sintoma (depressão) no discurso social, considerando que o significante em questão é usado na atualidade como rótulo para identificar e etiquetar as mais variadas formas de mal-estar.

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