Publicada em 04/12/2018 às 10h23. Atualizada em 04/12/2018 às 15h00

A função materna na constituição do sujeito

O papel da mãe na formação do indivíduo, a partir de reflexões de Julieta Jerusalinsky e Donald Woods Winnicott.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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Após contemplar recortes de alguns conceitos da psicanálise, vamos pensar a respeito da constituição do sujeito e sobre como as fases de desenvolvimento citadas anteriormente vão se ligando formando uma cadeia de significantes.  E para essa compreensão segue-se nesse estudo, a reflexão sobre a função materna e sobre como ela desempenha papel fundamental para a constituição do sujeito. Para essa explanação, parte-se do pensamento de dois autores, Julieta Jerusalinsky e Donald Woods Winnicott, dois importantes expoentes da psicanálise, sendo um clássico e o outro mais contemporâneo.

Pediatra por formação, Donald W. Winnicott, ao longo de sua trajetória, trouxe muitas contribuições a respeito da psicoterapia com crianças, sendo influenciado principalmente pelos pressupostos teóricos de Melanie Klein, no qual fundou sua própria teoria a partir de suas experiências com crianças. Sua proposição tem sido disseminada ao longo dos anos e tem se tornado ferramenta de grande valia na clínica infantil.

De igual forma, Julieta Jerusalinsky, numa visão mais contemporânea, apoiada pela teoria de Jacques-Marie Émile Lacan, outro importante psicanalista, tem contribuído com a sua experiência na clínica infantil, especialmente no trabalho com transtornos mentais graves. Seus escritos e cursos têm sido instrumento de ampla ajuda aos psicólogos e educadores no trabalho com crianças.

Mesmo sendo influenciados por diversas visões teóricas da psicanálise, os referidos autores descrevem pontos importantes que podem ser convergidos no que tange à constituição do sujeito, destacando a importância da função materna que evidenciam em seus relatos, pressupostos diferentes, mas que possuem a mesma finalidade, a saber: o desenvolvimento saudável do ego.

"Nos pressupostos teóricos de Jeruzalinsky, ao falar de constituição subjetiva em Psicanálise, torna-se necessário explicitar que um bebê já nasce com uma história lhe esperando."

Nos pressupostos teóricos de Jeruzalinsky, ao falar de constituição subjetiva em Psicanálise, torna-se necessário explicitar que um bebê já nasce com uma história lhe esperando. A fantasmática parental já preparou desde muito antes de seu nascimento um lugar para que essa criança venha ocupar.  E isso depende de toda história dos pais, de uma estrutura simbólica que antecede seu nascimento, mas que não é suficiente para determiná-la, pois é necessário que, para um bebê vir a ser um sujeito, um outro exerça a função materna, função que não se pode considerar natural, como é do ponto de vista do senso comum.  A ideia de função materna, na Psicanálise, é aquela que, por meio dos cuidados envolvidos pelo desejo, instaura, nesse corpo, uma subjetividade.

A princípio, um bebê não sabe o que lhe acomete o corpo, não sabe quando tem fome, quando tem frio, e se essa pequena criança é deixada, não há um saber de como sobreviver. Há uma prematuridade para isso, portanto, cabe a quem desempenhará essa função de maternagem fazer contornos que dizem a essa criança quem ela é, o que quer, o que pode e não pode. Jerusalinsky diz que se ocupar dessa função deve favorecer um gozo pela passividade da criança em relação a essa mãe, ou seja, que essa total dependência do bebê, precisa gerar um prazer, ainda que custem muitos esforços, pois isso, favorece que a mãe se ocupe do que se passa com o seu bebê, numa identificação e possa lhe devolver, em forma de significantes.

Para que isso ocorra, não existe uma forma pronta de como é ser mãe, cada família irá, por si mesma, diante de todas as suas experiências, encontrar meios de exercer suas funções.  Porém, existem condições para que esse bebê possa constituir-se como sujeito e isso se dá por esse laço precoce com o seu cuidador. Por exemplo, no começo de sua vida, um bebê comporta-se com agitações motoras reflexas que são tomadas por um adulto que se ocupa dessa função materna como uma resposta, que por meio do seu saber inconsciente diz a criança “Olha! Você está feliz em ver a mamãe”. Sabe-se que esse pequeno ser ainda não é capaz de fazer essa associação, mas essa mãe é capaz de já supor algum desejo, sentimento nesse filho, porque aposta/sugere que ali há um sujeito em desenvolvimento.  Em outro momento, o bebê começa a emitir sons vocais, mais uma vez essa mãe lhe supõe uma conversa, ora fala por ele, ora fala com ele, mas ainda lhe dá um espaço para responder, convocando-o para um diálogo. Diante disso, a mãe sustenta um lugar para essa criança, um lugar de sujeito.

Ainda sobre isso, Jerusalinsky diz que, por meio dessas trocas, o bebê passa a ser “pulsionalizado, erotizado e, simultaneamente tomado no funcionamento da linguagem”, isso o inscreve no circuito pulsional.  Para os psicanalistas, há quatro eixos que se tornam imprescindíveis voltar à atenção na clínica de bebês, já que a intervenção é na relação da criança com seus pais.

As operações que serão observadas são: suposição de sujeito, estabelecimento de demanda, alternância presença e ausência, e alterização. Esses eixos são condições para que haja instauração de um sujeito do próprio desejo e dependem de que um outro o faça. Por exemplo, na suposição de um sujeito, a mãe toma as produções do bebê, ainda que sejam automáticas, como sendo produzidas por um desejo. Ao estabelecer uma demanda, a função materna começa a diferenciar essas produções, Jerusalinsky aponta que é comparável a uma interpretação e tradução do que ocorre com o bebê, ou seja, por meio do choro, da vocalização, do tônus, a mãe compreende o que se passa com o seu filho  e  pode, então,  dizer  a  ele.  Enquanto isso, a pessoa encarnada na função materna, introduz uma alternância entre a presença e a ausência, isso quer dizer que, através dessas demandas do bebê, ela não responde unicamente com presença ou ausência, mas pode alternar em boa medida. Convém frisar que não se trata apenas de uma questão física, já que:

A presença e a ausência são tomadas aqui numa dimensão psíquica que não a física. Uma mãe pode estar fisicamente presente, prestar mecanicamente os cuidados básicos ao seu bebê e, entretanto, não estar ali com o seu desejo, seu investimento, a sua atenção voltados para o bebê, por exemplo. Ou, ao contrário, a mãe pode ausentar-se fisicamente e toma tantas precauções para que nenhuma diferença compareça que o bebê pode não registrar sua saída (Jerusalinsky, 2012 p. 251). 

 O último eixo é a alterização, que consiste em inserir o bebê numa ordem de restrição, interdição e lei social. Julieta Jerusalinsky descreve, em seu livro, “Enquanto o futuro não vem”, seguindo uma linha da constituição subjetiva, no qual a criança vive um momento de confusão entre seu corpo e o corpo materno, onde está alienada a um desejo que é do outro, para que depois um terceiro, possa fazer uma intervenção que chamamos de função paterna. Claro que, a função paterna já vem sendo exercida, ora como um terceiro já se introduzindo nessa relação, ora como a própria inscrição da função paterna na mãe, que a possibilita alternar a ausência e a presença, que funda o superego.

Donnald Woods Winnicott escreve sobre como acontece esse desenvolvimento e, especialmente, a relação mãe e bebê.  Ele relata que no desenvolvimento emocional da criança há uma disposição inata que corresponde ao crescimento do corpo e ao desenvolvimento de algumas funções. Exemplificando, assim como comumente o bebê senta por volta dos cinco meses, dá seus primeiros passos por volta dos 12 meses, igualmente há um processo evolutivo emocional. Contudo, tal desenvolvimento não pode ser constatado na presença e/ou ausência de condições satisfatórias, e é esse aspecto que torna difícil estabelecer quais condições são favoráveis e/ou não favoráveis para esse desenvolvimento.

No princípio, há a dependência absoluta em relação aos aspectos ambientais e emocionais, porém no percurso do desenvolvimento, a depender de como se dá a relação da criança com a mãe, alguns percalços podem contribuir para afetar a constituição psíquica.

Para Winnicott, a mãe tem papel fundamental no desenvolvimento da criança, pois é ela que provê as necessidades de seu bebê. Esse cuidado e atenção se denomina “holding”, caracterizando a função materna. As consequências desse cuidado serão determinantes para a constituição da personalidade da criança, a qual será evidenciada nas futuras relações do indivíduo com o seu círculo social. A criança se desenvolve a partir do olhar da mãe, o qual funciona como espelho para a criança, propiciando a ela condições necessárias para o seu desenvolvimento.

O prazer com que a mãe realiza suas tarefas logo dá a perceber ao bebê que existe um ser humano por trás de tudo o que é feito. Mas o que finalmente leva o bebê a sentir uma pessoa na mãe é, talvez, a capacidade especial da mãe para colocar-se no lugar da criança e, assim entender o que ela sente. Não há regras nem livros que possam suprir essa intuição que a mãe tem das necessidades do bebê, a qual lhe permite realizar, algumas vezes, uma adaptação quase exata a essas necessidades.

A função paterna

"...a primeira apresentação da função paterna é garantir que a mãe vivencie essa etapa inicial de maneira tranquila, com segurança."

Quanto ao pai, o autor diz que, nesse primeiro momento, a função paterna está ligada a prover subsídio para a mãe, a fim de que ela possa realizar sua função materna de forma que seja satisfatória para este vínculo mãe e bebê. Só depois é que o pai entra na relação, completando essa tríade familiar, desde que a mãe insira o pai nessa relação. O papel do pai na visão winnicottiana é aquele que dá o suporte para a mãe executar sua função junto a seu bebê. Então, a primeira apresentação da função paterna é garantir que a mãe vivencie essa etapa inicial de maneira tranquila, com segurança.

Nesse ponto, o pai pode ajudar. Pode ajudar a criar um espaço em que a mãe circule à vontade. Adequadamente, protegida pelo seu homem, à mãe é poupado o trabalho de ter de ocupar-se das coisas externas que acontecem à sua volta, numa época em que ela tanto precisa concentrar-se, quando tanto anseia por preocupar-se com o interior do círculo formado pelos seus próprios braços e no centro do qual está o bebê. 

Nesse sentido, o relacionamento inicial do bebê com os seus cuidadores é crucial para o seu desenvolvimento e constituição subjetiva.  Nessa relação, é preciso diferenciar o que pertence à mãe daquilo que pertence ao bebê, havendo dois tipos diferentes de identificação: “a identificação da mãe com seu filho e o estado de identificação do filho com a mãe”.

Portanto, é a mãe que insere no contexto uma capacidade amadurecida, pois é a partir dela que a criança vai adquirindo sua percepção de realidade. A identificação da mãe com o bebê, geralmente começa na gestação e, ao longo desse processo, tende a ser cada vez mais intensa, por esse ângulo, constata-se a identificação da mãe cada vez maior com seu bebê, nesse aspecto a criança é associada pela mãe a um objeto interno.  “O bebê tem outros significados na fantasia inconsciente da mãe, mas é possível que o traço predominante nesta, seja uma vontade e uma capacidade de desviar o interesse do seu próprio self para o bebê” (WINNICOTT, p. 15, 2005).

Diante desses recortes teóricos sobre a constituição psíquica do indivíduo, constata-se que as relações parentais têm papel fundamental na constituição do sujeito.  E as dificuldades encontradas por mães e bebês são analisadas durante o processo terapêutico.

Se durante esse processo de subjetivação ocorre algum impasse ou se há impedimentos no laço entre a criança e o seu cuidador, há o risco de que essas fases não se completem ou, até mesmo, não se iniciem, abrindo a possibilidade para futuras psicopatologias. Cada fase tem papel fundamental para o desenvolvimento, uma vez que sinaliza a construção de um ego saudável. E é neste momento que o papel do psicanalista é de extrema importância, onde será um suporte das funções parentais a partir da transferência estabelecida, possibilitando um lugar onde possa haver esse retorno às fases não satisfeitas no campo do desejo (JERUSALINSKY, 2012).

Confira a versão do artigo científico na íntegra

Leia a primeira parte do artigo: O que você entende sobre Id, Ego e Superego?

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