Publicada em 04/12/2018 às 15h03. Atualizada em 04/12/2018 às 15h16

A relação terapêutica, a Transferência e a Contratransferência no vínculo materno para a formação do sujeito

Confira a terceira e última parte do artigo.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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A função materna na constituição do sujeito

No processo analítico o sujeito reproduz as cenas das fases infantis onde é possível ao analista distinguir onde houve conflitos. O processo analítico se constitui por meio de dois integrantes: analista e paciente. Além desses, o setting e o enquadre também servem como composição importante da cena analítica, pois revelam as características tanto do terapeuta quanto do paciente. Por meio da transferência, é que esse fenômeno acontece na relação vincular paciente/terapeuta, onde o desejo do paciente se apresenta como uma reprodução de suas lembranças da infância, cujas imagens parentais e seus substitutos são projetados no analista e, desse modo, os sentimentos, desejos, impressões dos primeiros vínculos afetivos são revividos na época presente.

Dentro desse aspecto, podem ser citados dois termos psicanalíticos importantes que cooperam para a compreensão do vínculo terapêutico que se estabelece na clínica, e como se relacionam as fases de desenvolvimento. Esses termos são: “Fixação” e “Regressão”, descritos por  Zimerman,  no qual  relata  que  a  noção  de  fixação  geralmente está  ligada  à  regressão,  significando  que  quando um indivíduo não conseguiu de maneira satisfatória evoluir nas fases de desenvolvimento passando de uma  para  outra,  significa  que  ainda  não  teve  sua satisfação libidinal, e caso surja uma angústia muito forte num dado momento da evolução, como resultado do temor de se ligar a um objeto, cria-se um ponto de fixação.  Assim, a fixação é um momento no qual se interrompe o processo evolutivo, devido à impossibilidade de satisfação de um desejo, resultando na constituição de um ego mais frágil. Esta interrupção gera angústia e, como consequência, ocorre a regressão, com o objetivo de repetir a situação traumática a fim de se elaborar a situação dolorosa.

Setting – Tradução portuguesa do termo psicanalítico “setting”, em cujo verbete especifica está descrita sua importância na técnica e na prática analítica (Zimmermann, 2001).

Enquadre – Comumente traduzido como enquadre, o setting pode ser conceituado como a soma de todos os procedimentos que organizam, normatizam e possibilitam o processo psicanalítico (Zimmermann, 2001)

Fixação – O fato de a libido se ligar a pessoas ou imagos, de reproduzir determinado modo de satisfação e permanecer organizada segundo a estrutura característica de uma de suas fases evolutivas. A fixação pode ser manifesta e real ou contribuir com uma virtualidade prevalecente que abre ao sujeito o caminho de uma regressão (Laplanche e Pontalis, 2016).

Regressão – Retorno a formas anteriores ao desenvolvimento dos pensamentos das relações de objeto e da estruturação do comportamento (Laplanche e Pontalis, 2016).

Esses conteúdos apontam para outro conceito, que Freud denominou “transferência”, tornando-se um constructo teórico fundamental, permitindo a articulação da teoria com a clínica psicanalítica. A transferência se estabelece a partir da realidade psíquica do analisando, por meio da expressão dos seus desejos, sentimentos e outros aspectos da sua subjetividade.  No texto “Recordar, Repetir e Elaborar”, Freud (1914) explica que a transferência propicia um lugar que faz a mediação entre a patologia e a vida real, por meio do qual o trajeto de uma para a outra é realizado, ou seja, em análise, o sujeito recorda o que esqueceu e foi reprimido, fala sobre essas questões esquecidas acreditando que tinha conhecimento delas, mas não pensava sobre. Também pode acontecer, em certos casos, que ao invés de o paciente recordar desses conteúdos reprimidos ele o expresse em forma de atuação com o analista. As atuações nem sempre são recordações, pois isso não são conscientes, geralmente o paciente não sabe que está repetindo.  O paciente recorda-se dos conflitos traumáticos, revivendo-os com o terapeuta até o momento em que esses são elaborados.

Segundo Laplanche e Pontalis “Transferência designa em psicanálise o processo pelo qual os desejos do inconsciente se atualizam sobre determinados objetos no quadro de certo tipo de relação estabelecida entre eles e, eminentemente, no quadro da relação analítica”. O manejo da transferência é um componente importante da técnica de análise, além de ser também um fenômeno universal das relações humanas, pois define o êxito das relações de cada indivíduo no seu ambiente familiar e social.

Outro conceito que também faz ligação a essa dinâmica das relações vinculares no setting terapêutico é a contratransferência, conforme definem os referidos autores, com o “conjunto das reações inconscientes do analista à pessoa do analisando e, mais particularmente, à transferência deste”.

São poucos os escritos de Freud a esse respeito, porém a primeira menção explícita sobre contratransferência foi citada em 1910, no congresso de psicanálise de Nuremberg, no qual alguns autores traduziram do alemão como transferência recíproca. Nessa época, Freud usou o termo para fazer referência à resistência inconsciente do terapeuta ao processo analítico.  Nesse sentido, Zimerman (1999), referindo Freud (1914), descreve a constratransferência como sendo a influência do analisando sobre os sentimentos inconscientes do analista, mencionando que nenhum analista vai além do que seus próprios complexos e resistências internas toleram, alegando a  necessidade  da  análise  pessoal. Ela pode surgir como atitude espontânea do analista e pode ser usada para facilitar o tratamento, mas também pode dificultar se ele não conseguir discriminar o sentimento envolvido nessa interação.

Dessa forma, a relação terapêutica em todas as idades (crianças, adolescentes, adultos) possibilita ao sujeito rememorar elaborar seus traumas, pois, é por meio da interação com o outro que ele se constitui enquanto sujeito, e essa constituição nunca acaba já que está em constante transformação, e como pontuamos anteriormente está diretamente ligada à sua energia psíquica.

Diante disso, é possível testificar que esse vínculo terapêutico reproduz as primeiras relações objetais do sujeito nos seus processos de desenvolvimento, no qual não puderam satisfazer o desejo, e, dessa forma, possibilita compreender a dinâmica intrapsíquica na vida do sujeito, evoluindo para um processo terapêutico significativo. 

Considerações finais

A partir das leituras dos autores mencionados, foi possível atestar como o conhecimento desses processos promove o trabalho na clínica psicanalítica.  O terapeuta, tendo ciência de como isso ocorre na vida do sujeito, oferece ao seu paciente um lugar onde ele possa ir de encontro ao seu conflito e/ou trauma, abrindo caminho para a elaboração.

"É no setting terapêutico que o terapeuta se configura como objeto, a fim de que o paciente possa projetar a figura do seu trauma (mãe, pai, ou outra pessoa) e possa reviver com o analista a situação traumática, possibilitando a descarga da energia, visando a uma saída para o trauma, ou seja, a elaboração do conflito."

É no setting terapêutico que o terapeuta se configura como objeto, a fim de que o paciente possa projetar a figura do seu trauma (mãe, pai, ou outra pessoa) e possa reviver com o analista a situação traumática, possibilitando a descarga da energia, visando a uma saída para o trauma, ou seja, a elaboração do conflito.

Esse vínculo do par analítico possibilita ao paciente rememorar seus conflitos, evocar seus desejos e elaborar o conflito existente.

Versando sobre essas relações que o indivíduo vai construindo ao longo de sua vida, podemos dizer que o vínculo de maior prerrogativa é o vínculo mãe e bebê, que começa numa relação de extrema dependência e vai se tornando independente.

Na perspectiva de Jerusalinsky, compreende-se uma ideia de função materna que é aquela que, por meio dos cuidados envolvidos pelo desejo, instaura no corpo (bebê) uma subjetividade.  A autora nos faz refletir que a história de uma criança não começa no parto, mas bem antes disso. Ela tem início nas expectativas e no desejo dos pais de constituir uma família.  A pré-história de um bebê se inicia com a história dos pais, das memórias de sua própria infância, de sua relação com seus pais, suas experiências boas ou ruins, tudo isso induzindo a um desejo, no qual é transferido para o bebê, que se torna esse gozo dos pais, nesse aspecto, o gozo da mãe.

Na visão de Winnicott, ele enfatiza como essa relação mãe e bebê tem papel fundamental no desenvolvimento da criança, sendo a mãe a provedora principal de todas as necessidades do bebê inicialmente. Segundo o autor, a mãe precisa estar disponível para atender a todas as demandas desse bebê, a falta desse suporte pode trazer consequências importantes na constituição do sujeito. A criança se desenvolve a partir do olhar da mãe, o qual funciona como espelho para a criança, propiciando a ela condições necessárias para o seu desenvolvimento.

Constatamos, dessa forma, nos relatos de Winnicott como essa relação tem valor estruturante na vida do sujeito e que, a partir dele, é que se pode pensar como este se relacionará com os seus pares. Igualmente, Julieta Jerusalinsky, com uma linguagem distinta de Winnicott, também relata a importância da função materna no processo evolutivo do sujeito e como essa função tem papel fundamental na inscrição do sujeito no campo da linguagem.

A constituição do sujeito está inteiramente ligada às relações parentais. Desse modo, a partir desse destaque, a atuação do terapeuta na clínica é a escuta dos significantes que constituíram esse bebê no universo de seus pais, possibilitando um lugar de ressignificação de seus conflitos.

Assim, o acolhimento psíquico da figura materna para com seu bebê é de suma importância para a constituição do eu, sendo a base principal para todos demais relacionamentos do bebê no mundo externo. O que leva a pensar que, no setting terapêutico, a função do analista é se colocar nesse lugar, a fim de que o paciente elabore seus conflitos ligados à sua constituição. Evidenciando que cada fase do processo evolutivo é de extrema importância e que cabe ao terapeuta, na evolução do trabalho psicanalítico, perceber em que momento surgiu o conflito, ou seja, onde o desejo da criança não pode ser satisfeito e, assim proporcionar esse lugar para que o paciente possa reviver e, consequentemente, promover a elaboração do conflito. O relacionamento saudável mãe-bebê representa, desse modo, proteção e segurança para a criança, contribuindo, essencialmente, para o desenvolvimento do psiquismo do sujeito, apontando que, na clínica psicanalítica, o terapeuta se coloca nessa função.

O analista deve propiciar um ambiente suficientemente bom, no qual o paciente possa retomar o seu próprio processo de constituição de si mesmo, cujo objetivo é acompanhar o paciente passo a passo e juntos construir, por meio do vínculo terapêutico, as fases de sua constituição, da qual a direção do tratamento vai ao sentido de possibilitar ao paciente a ressignificação de seus conflitos.

Confira a versão do artigo científico na íntegra

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