Publicada em 06/12/2011 às 19h26. Atualizada em 24/02/2012 às 17h00

Alcoolismo: uma doença devastadora

Nem só de embriaguez vive o alcoolista. Os efeitos das bebedeiras vão muito além. Fique atento para essa doença que não tem cura.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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Muitas pessoas gostam de beber uma cerveja com os amigos, no final de semana, ou de desfrutar um bom vinho durante o jantar. Alguns indivíduos, no entanto, bebem de forma abusiva, o que representa um fator de vulnerabilidade para o alcoolismo. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS, 2007), não há níveis seguros para o consumo dessa substância psicoativa lícita, mas em função da quantidade ingerida, os usuários são classificados como de risco baixo, médio ou perigoso. Esses valores são estimados, pois os efeitos do álcool variam a depender de cada pessoa.

"De fato, não é possível afirmar com exatidão quem se tornará dependente e quem não terá problemas com o álcool". 



De fato, não é possível afirmar com exatidão quem se tornará dependente e quem não terá problemas com o álcool. As motivações variam, para cada sujeito, embora o modo de lidar com os próprios limites, perdas e faltas, seja pela via do excesso, associada a um gozo mortífero, ou pela capacidade de suportar as adversidades e realizar desejos, constitua um índice decisivo para manter o uso social ou resultar no consumo indevido. Apesar disso, existem alguns fatores de risco que influenciam o tipo de relação que uma pessoa estabelece com a bebida alcoólica, em determinado momento de sua vida e em circunstâncias específicas. 

Despedida em Las Vegas (1995)


 

De acordo com a Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (SENAD, 2006), a dificuldade de socialização, autoestima baixa, propensão à ansiedade e à depressão, falta de autocontrole, desinteresse pelos estudos, por atividades laborais e recreativas estão entre os problemas que favorecem o uso nocivo de álcool. O problema é agravado pela desestruturação familiar, configurada, entre outras questões, por psicopatologias e/ou uso de álcool e outras drogas por parte dos pais e parentes próximos, presença de conflitos e falta de diálogo entre os membros de uma família. 

Além disso, a convivência com amigos que valorizam o uso de bebida alcoólica, a falta de oportunidades socioeconômicas para a construção de um projeto de vida, facilidade de acesso na aquisição de bebidas alcoólicas e negligência no cumprimento das leis que regulamentam o consumo de álcool estimulam o uso indevido. Sobretudo para aqueles que esperam aliviar problemas pessoais, motivados pela expectativa de “afogar as mágoas” para escapar de uma situação ou estado de humor desagradável.

"A dependência de álcool consiste em um conjunto de fenômenos biopsicossociais que podem desenvolver-se após o uso repetido e prolongado de bebida alcoólica".

A dependência de álcool consiste em um conjunto de fenômenos biopsicossociais que podem desenvolver-se após o uso repetido e prolongado de bebida alcoólica. Essas pessoas são dominadas pela vontade de beber, com prejuízo do controle sobre o próprio consumo, apesar das consequências prejudiciais para si e seus familiares. Também apresentam aumento da tolerância, pois necessitam ingerir doses mais elevadas para alcançar os efeitos provocados, de início, por doses mais baixas e reações de privação quando o uso é interrompido, características da síndrome de abstinência. O fato de concederem prioridade à bebida alcoólica, em detrimento de suas ocupações e responsabilidades, deteriora os laços sociais e reduz a capacidade produtiva. A presença de pelo menos três dos critérios especificados, no prazo de um ano, determina o diagnóstico de dependência ao álcool (SENAD, 2010). 

O álcool reduz a censura, o que favorece o envolvimento em situações de risco, a exemplo de diferentes tipos de acidentes, exposição à violência, doenças sexualmente transmissíveis e gravidez não planejada. Com frequência, a bebida alcoólica funciona como porta de entrada para o uso de outras drogas, como cocaína/crack e maconha. Entre as doenças relacionadas ao consumo indevido estão aquelas que atingem o aparelho digestivo e cardiovascular, diversos tipos de câncer, cirrose, deficiências nutricionais, danos cerebrais, desencadeamento e/ou agravamento de transtornos mentais, doenças do feto e de recém-nascidos de mãe alcoolista. Por fim, a intoxicação pelo álcool pode resultar em envenenamento e até mesmo na morte. 


O alcoolismo é uma questão de saúde pública e a Lei Federal 10.216 é o instrumento legal que orienta, no Brasil, a política de atenção aos usuários de álcool e outras drogas. Em sintonia com as propostas da Organização Mundial da Saúde (OMS), a assistência é norteada pelos princípios de redução de danos, que visam “a execução de ações para a prevenção das consequências danosas à saúde que decorrem do uso de drogas, sem necessariamente interferir na oferta ou no consumo” (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2001, p. 11). A abstinência não é, portanto, o objetivo principal das práticas de redução de danos, que tomam o sujeito como o principal protagonista de seu tratamento.

O diagnóstico e o tratamento precoce têm papel decisivo no prognóstico desse transtorno.  A oferta preventiva, terapêutica e reabilitadora deve ser oferecida em todos os níveis de atenção à saúde, particularmente no dispositivo extra-hospitalar conhecido como Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Outras Drogas (CAPS ad), que possui equipe formada por profissionais de saúde e de outras áreas, para atuar de modo interdisciplinar, na elaboração de um Projeto Terapêutico Individualizado. Nesse sentido, as estratégias de tratamento e promoção integral à saúde devem ser construídas com cada sujeito, de acordo com seus interesses e motivações. 

O estado clínico, físico e mental, deve ser avaliado, no intuito de identificar a presença de comorbidades, dimensionar a necessidade de hospitalização ou encaminhamento para outros serviços da rede de saúde. Para isso, é necessário conhecer as características e demandas de cada um, bem como de seus familiares. 

Em termos psicanalíticos, o tratamento não visa o alcoolismo, mas as questões do sujeito. O álcool pode funcionar como um instrumento de camuflagem para as dores da existência, capaz de promover um gozo, do qual o paciente não abrirá mão facilmente. Por isso, de início, o paciente pede para tratar uma automedicação que deixou de cumprir sua função na economia psíquica, enquanto o analista o interroga sobre a transmutação de sua atuação em palavras. 

As entrevistas preliminares constituem um tempo para delimitar a queixa - problemas de saúde, familiares, jurídicos, financeiros - e a demanda para interromper ou reduzir o consumo de álcool, sendo esta por vezes motivada em atenção ao pedido de um familiar ou pessoa querida. Em qualquer caso, a demanda deve ser interrogada para que o paciente possa saber das razões que o levam a fazer aquilo que o prejudica e modulada sob a forma de uma demanda de tratamento, dirigida àquele analista, a quem o paciente deve supor um saber sobre seu mal-estar. É necessário levar o paciente a implicar-se com suas questões para que ele saia do lugar daquele que atribui seu sofrimento a algo ou a alguém, para aquele que se pergunta sobre sua participação naquilo de que se queixa, em busca de respostas para as razões que o levam a beber. Trata-se, portanto, de relançar o discurso, por meio da constituição de um espaço de desdobramento da palavra, para quem estava acostumado a atuar bebendo, numa tentativa frustrada de livrar-se dos seus problemas. Desse modo, mesmo quando o uso continua, durante o tratamento abre-se uma possibilidade de conferir novos sentidos ao consumo. 

"É necessário levar o paciente a implicar-se com suas questões para que ele saia do lugar daquele que atribui seu sofrimento a algo ou a alguém, para aquele que se pergunta sobre sua participação naquilo de que se queixa, em busca de respostas para as razões que o levam a beber".

O analista deve ainda precaver-se para não ocupar uma posição imperativa de cura, com exigências de abstinência, nem de impotência, quando o tratamento não vai bem. Essa medida visa evitar a irrupção do que está camuflado pelo uso da bebida, como os casos de psicose, que asseguram um mínimo de equilíbrio, mesmo que imaginário, com o auxilio do álcool. Portanto, não importa o que o álcool faz com o sujeito, mas o que o sujeito faz com a bebida alcoólica, a partir da ancoragem subjetiva elaborada ao longo do tratamento. Assim, a prática analítica torna possível promover certo descolamento com relação ao álcool, que se desloca do lugar de objeto de gozo para o campo da palavra e, portanto, do desejo. Nessa perspectiva, um sujeito, com sinais anteriores de dependência, pode decidir evitar o uso nocivo e passar a beber moderadamente, ou optar pela abstinência, quando não está seguro do seu autocontrole. 

De outra parte, o atendimento em grupo permite a troca de experiências entre sujeitos que apresentam problemas similares, acrescida de esclarecimentos e informações científicas sobre o consumo de álcool. A abordagem de temas, sinalizados pelos participantes, e a utilização de recursos diversificados - como o uso de filmes, matérias de revistas,  jornais e textos literários - favorecem as discussões, a emergência de opiniões pessoais, e o esboço de um novo projeto de vida. Com isso, espera-se aliviar os sentimentos de culpa e solidão, minimizar os danos biopsicossociais, assim como motivar os integrantes a identificar as razões que orientam o uso indevido. O engajamento em oficinas, que promovem a criação de um produto, pode favorecer o deslizamento do objeto, utilizado para embriagar e intoxicar o corpo, para a condição de um objeto destacado do corpo. São formas de socialização que, apesar de passar pelo discurso sobre o álcool, não envolvem o uso, o que possibilita certo descolamento da relação com a bebida alcoólica. 


Por se tratar de um problema que apresenta interfaces com outras áreas, como justiça, direitos humanos, educação, e desenvolvimento social, sua abordagem envolve diferentes saberes e práticas. No campo acadêmico, o Ministério da Saúde, em parceria com o Ministério da Educação, tem estimulado a atualização dos currículos dos cursos de graduação da área de saúde, para contemplar a atenção aos usuários de álcool e outras drogas. 

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Palavras Chave:

alcoolismo álcool psicologia
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