Publicada em 13/03/2019 às 12h31. Atualizada em 13/03/2019 às 14h53

Alimentação adequada diminui os riscos de doenças

Alimentação de boa qualidade não se resume a dietas. Entenda como hábitos alimentares saudáveis previnem e tratam doenças.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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Somos o que comemos? Qual é a influência da alimentação na nossa saúde? Para entender de que forma a alimentação pode ser uma aliada no tratamento e prevenção de doenças, o iSaúde Brasil conversou com a doutora em obesidade e doenças cardiometabólicas pela Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública, Izabela Ferraz. Neste bate-papo, ela desmitifica a alimentação saudável “cara” e destaca que é possível, sim, se alimentar bem sem pagar caro. 

iSaúde Brasil – Por que é necessário ter uma alimentação saudável?

Izabela Ferraz – A nossa alimentação deve ser saudável porque os micro e macronutrientes, (carboidratos, vitaminas, minerais, lipídios e proteínas) são combustíveis que as nossas células utilizam para realizar todas as funções. A partir do momento que temos uma alimentação adequada, o que significa comer alimentos de boa qualidade e procedência, associada à boa mastigação e absorção, nossas células serão nutridas adequadamente.

iSaúde Brasil – É possível manter uma alimentação saudável e acessível?

Izabela Ferraz – Sim. É comprovado, através de estudos científicos, que quanto mais natural for a alimentação, mais benefícios ela irá trazer. Frutas, verduras, raízes, tubérculos, leguminosas e alimentos mais naturais possuem um preço mais acessível. Muitos desses alimentos também são sazonais, então é possível consumi-los por um preço mais em conta a partir de escolhas que levem em consideração a época de maior oferta desses alimentos. Assim é possível realizar uma alimentação saudável sem precisar utilizar alimentos que estão “na moda” e são, na maioria das vezes, mais caros. O ideal é utilizar alimentos que são comuns na alimentação do brasileiro, como arroz, feijão, raízes etc.

iSaúde Brasil – Como a alimentação atua na prevenção de doenças?

Izabela Ferraz – Quando consumimos alimentos saudáveis, as nossas células ficam mais fortificadas para desenvolver todas as suas atividades. Os nutrientes fortalecem nosso intestino para proliferar boas bactérias e melhorar o nosso sistema imunológico, diminuindo os riscos de doenças.

iSaúde Brasil – Como a má alimentação contribui para o aumento do risco de doenças?

Izabela Ferraz – Os alimentos industrializados, não só os que contêm mais açúcares, gorduras e sódio, mas também os que têm muitos aditivos químicos, como os conservantes e os saborizantes, são desenvolvidos em laboratórios, ou seja, não são naturais e não possuem componentes benéficos, por isso, deixam as nossas células carentes. Ao invés de o indivíduo comer uma fruta, ele opta por consumir um biscoito de pacote, por exemplo, e o biscoito não é uma boa opção, por ser industrializado e ter excesso desses ingredientes citados. Se essa pessoa faz isso constantemente, acaba deixando as células do corpo cada vez mais desnutridas e fragilizadas, assim, o organismo fica mais susceptível a desenvolver doenças. 

"Os alimentos industrializados (...) não possuem componentes benéficos, por isso, deixam as nossas células carentes." 

Com isso, se pode pensar: quando isso acontece, o indivíduo não adquire a característica de desnutrido?

A resposta é não, pois essa característica de desnutrição só é possível observar depois de um longo período de inanição, ou seja, falta dos nutrientes. Contudo, sintomas corriqueiros podem ser apresentados, como queda de cabelo, dificuldade de dormir, intestino “preguiçoso”, unha quebradiça, irritabilidade em excesso, boca muito seca, secura na pele, entre outros. Então, muitos sinais estão relacionados à alimentação deficiente, mas o indivíduo ainda não consegue associar, pois o pensamento do senso comum é de que quem precisa de um acompanhamento nutricional é uma pessoa acima do peso ou abaixo do peso. Porém, todas os sintomas relacionados a doenças, em geral, podem ser amenizados ou melhorados com a alimentação de qualidade. 

"Não só no Brasil como no mundo todo, a doença que está em maior evidência é a obesidade. A complicação acomete muitas pessoas de diferentes idades."

iSaúde Brasil – Quais doenças mais comuns nos brasileiros são provenientes da alimentação inadequada?

Izabela Ferraz – Não só no Brasil como no mundo todo, a doença que está em maior evidência é a obesidade. A complicação acomete muitas pessoas de diferentes idades. No Brasil, o que se observa é que a obesidade tem aumentado nas pessoas com o poder aquisitivo menor, sendo afetadas, principalmente, as mulheres de baixa renda. Embora seja um problema multifatorial, a alimentação ainda é fator preponderante para o desenvolvimento dessa enfermidade. O que ocorre é um ciclo vicioso, pois, o sujeito consome alimentos que não possuem nutrientes, deixando as células cada vez mais desnutridas, causando maior número de bactérias ruins no intestino, resultado da baixa absorção de nutrientes. O intestino com mais bactérias ruins faz com que a pessoa absorva mais calorias dessas bactérias. Por isso, mesmo com uma alimentação pouco calórica, o excesso de peso pode se manter por conta da deficiência nutricional dos alimentos consumidos. Esse fator associado a pouca ou nenhuma atividade física aumenta o risco de obesidade. No âmbito ambulatorial do SUS, a obesidade, em seguida, a hipertensão e o diabetes são as doenças mais frequentes nos atendimentos. Essas doenças são provenientes de uma alimentação inadequada. Há diversos casos, por exemplo, de pacientes que desenvolveram diabetes tipo II por não ter uma alimentação rica em nutrientes ao longo da vida. Portanto, as doenças relacionadas à má alimentação não surgem de um dia para o outro. São escolhas sucessivas que não são benéficas para a saúde e isso prejudica o organismo.

iSaúde Brasil – O que priorizar e o que evitar na alimentação?

Izabela Ferraz – Priorizar sempre os alimentos que sejam naturais, pois as frutas, verduras, raízes e leguminosas, por exemplo, são ricas em nutrientes. Evitar sempre os industrializados. Quanto maior for a vida do alimento na prateleira pior é a qualidade. Por exemplo, se pensarmos nas frutas, que têm uma durabilidade pequena, e compararmos com os biscoitos ou lasanhas prontas, percebemos que a lasanha, que possui massa, que é carboidrato, o recheio, que é proteína todos esses ingredientes para conseguirem ficar muito tempo em freezers ou geladeiras precisam de muitos conservantes que podem fazer mal ao nosso corpo. Além disso, os refinados também não são boas opções e mesmo os pães integrais devem ter os rótulos analisados com atenção, pois, muitos deles possuem como primeiro ingrediente a farinha de trigo branca. Também há outros alimentos que possuem na embalagem a sinalização “sem açúcar”, mas, na realidade, só houve a troca do nome “açúcar” por outros termos na composição como “maltodextrina”.

iSaúde Brasil – A partir de qual idade se pode ir ao nutricionista?

Izabela Ferraz – Todas as idades precisam ser orientadas nutricionalmente. A alimentação é importante desde antes da concepção, pois a mãe irá transmitir ao bebê as vitaminas e minerais que ajudam na formação da criança durante toda a vida humana. A nutrição tem evoluído muito, assim como todas as ciências, e, hoje em dia, é possível adequar a alimentação de acordo com as necessidades individuais e de uma forma sustentável, levando em conta o contexto de cada um.

iSaúde Brasil – Por que as necessidades nutricionais variam de pessoa para pessoa e a depender da idade?

Izabela Ferraz – Cada pessoa possui necessidades nutricionais diferentes, porque possuímos uma composição bioquímica única e ritmos de vida distintos. Mesmo as pessoas com DNAs parecidos possuem a bioquímica das células diferente, por isso, a alimentação precisa ser individualizada. Há uma certa padronização no que tange a idade e condição do indivíduo (criança, adolescente, adulto, gestante...), mas isso não tira o mérito de uma consulta individual que é recomendada a todos, uma vez que a quantidade e absorção de vitaminas e minerais varia de pessoa para pessoa. Até a mastigação, composição dentária e doenças bucais devem ser levadas em conta.

iSaúde Brasil – Qual é a importância de uma boa alimentação na infância?

Izabela Ferraz – Os alimentos funcionam como combustíveis para as nossas células. Se uma pessoa consome alimentos de má qualidade desde a infância, ela carrega a deficiência de nutrientes para a adolescência e fase adulta. Esse fator, ao longo do tempo, aumenta o risco de doenças. A princípio, a deficiência na nutrição faz com que a criança apresente uma irritabilidade maior, déficit de atenção, de memória e de aprendizado. Esses sintomas podem ser amenizados ou solucionados através da alimentação de qualidade, muitas vezes, associada a outras terapias.  Mas a alimentação é fundamental para o desenvolvimento da criança, sobretudo, em idade escolar. Uma criança bem nutrida tem menos chances de adquirir obesidade, hipertensão ou diabetes, mesmo que tenha predisposição genética.

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