Publicada em 31/01/2019 às 13h03. Atualizada em 31/01/2019 às 13h48

Aspectos psicossociais no adolescente depressivo

Aspectos psicossociais e intervenções realizadas com o adolescente depressivo.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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A adolescência é um período de grande importância para a construção do indivíduo, no qual há diversas mudanças, sejam elas orgânicas, físicas, mentais e comportamentais.  A depressão na adolescência somente foi considerada uma doença para essa idade na década de 1970, pois, até o momento, acreditava-se que jovens nessa fase não desenvolviam a depressão ou, ainda, o transtorno era confundido apenas com uma fase do processo do desenvolvimento pelo qual o adolescente passava.  No entanto, pesquisadores e estudiosos afirmaram que o transtorno depressivo pode estar presente em todas as faixas etárias.

Os sintomas comumente apresentados nos adolescentes depressivos são:  humor deprimido, desinteresse, oscilações de emoções e alguns sinais de angústia e ansiedade; os sintomas cognitivos, como a diminuição de energia e falhas na memória e na concentração, também são critérios de avaliação e se apresentam como danos causados pela doença.  Além disso, o uso de determinadas substâncias, como o tabaco, a maconha e o álcool, ainda esteve diretamente ligado com a sintomatologia depressiva.

O transtorno depressivo igualmente está associado às dificuldades e obstáculos socioeconômicos, podendo desencadear desequilíbrio familiar, assim, as consequências dessas oscilações são: separação dos pais, falta de comunicação intrapessoal, violência doméstica entre outras. Situações como essas, de desarmonia familiar, geram elementos que devem ser analisados, visto que são fontes significativas e propulsoras do transtorno depressivo nos adolescentes. Ainda, há estudos indicando que a depressão na fase adulta pode ter tido o seu início na adolescência.

 A discussão do gênero foi alvo de estudo retrospectivo realizado com crianças e adolescentes por alguns autores que observaram a prevalência do sexo masculino relacionado à síndrome depressiva.

Convém referenciar que a busca do atendimento especializado evidenciou que as figuras parentais bem como os cuidadores responsáveis pelo adolescente são essências para um diagnóstico precoce, pois a percepção deles possui um caráter interventivo frente ao tratamento. 

Considera-se que a depressão desenvolvida no adolescente por si só ocasiona danos considerados de alta complexidade à vida desse sujeito, prejuízos que não necessariamente estão relacionados ou associados a outras doenças e comorbidades. 

Fatores emocionais e psicossociais de adolescentes depressivos

A adolescência é um período de mudanças e peculiaridades, intrínseco ao processo de formação do indivíduo.  É denominado, também, um estágio que engloba o desenvolvimento do autoconceito, autoestima e opiniões mais complexas, além das mudanças hormonais, físicas (como o crescimento dos seios e do pênis) e psíquicas (como pensamentos abstratos). Além do adolescente se deparar com novas e estressantes situações, como o aumento de responsabilidades, as exigências e modificações tanto sociais quanto familiares, e o desenvolvimento da autonomia e independência, há a necessidade de se adaptar a novas propostas, nas quais os acontecimentos são frenéticos, efetivos e as diversidades dos modos de viver a vida são muitas. A entrada no universo adulto, muitas vezes, causa dúvida, inquietações, incertezas, inseguranças e mudanças de comportamento com os pares sociais; isto pode desencadear outras comorbidades, como fobia, stress, alterações no sono e bulimia.

"Com o final da infância e a chegada da vida adulta, o adolescente se depara com um território completamente novo, ao mesmo tempo em que é forçado a deixar o conforto de sua vida infantil."

Com o final da infância e a chegada da vida adulta, o adolescente se depara com um território completamente novo, ao mesmo tempo em que é forçado a deixar o conforto de sua vida infantil. Por ser uma fase conturbada, há fatores que influenciam a sua manifestação, esses fatores estão facilmente interligados com o meio social em que o adolescente coabita e as adversidades apresentadas nessa esfera, todavia, o meio não está totalmente conectado com os fatores psicossocial. 

Em pesquisa realizada por Monteiro e Lage (2007), os autores afirmam que a depressão também é uma resposta a uma desorganização orgânica, onde o adolescente se encontra desamparado, por isso, os sintomas físicos ficam evidenciados. Atualmente, tem-se o conhecimento das causas e efeitos da depressão, especificamente, quando os sintomas são exibidos durante a adolescência.

Em 2016, pesquisadores corroboraram em uma pesquisa que aponta que os sintomas depressivos são, normalmente, apresentados entre os 10 e 13 anos de idade. Contudo, os comportamentos negativos nas relações sociais, perturbações do tipo externalizante e internalizante, principalmente depressão, ansiedade e agressividade, costumam ficar evidenciados em torno dos 11 aos 16 anos de idade.

Pode-se observar que a estrutura emocional foi também critério de avaliação, encontrado nos estudos realizados com os jovens de escolas públicas e privadas de uma cidade do interior do estado do Rio de Janeiro. Os resultados revelaram a baixa autoestima, a não autodeterminação, não resiliência, a falta de confiança em si e a insatisfação com a vida.

Quanto à prevalência dos sintomas depressivos entre os gêneros, a pesquisa realizada por Crivelatti, Durman e Hofstatter (2007) identificou no sexo feminino porcentagens superiores a indivíduos do sexo masculino, sobretudo quando feita a comparação com pessoas de idade adulta e, principalmente com o crescente número de indivíduos que apresentam depressão. Tal fenômeno se deve ao fato de as adolescentes evidenciarem vulnerabilidade e passarem por problemas psicológicos e sociais ainda na infância, visto que se preocupam com a aparência e sofrem com a exigência dos padrões estabelecidos pela sociedade.  Da mesma forma, Ferreira, Farias, & Silvares (2010) pontuam que existem padrões definidos previamente, condizentes e relacionados à hierarquia social, que pressupõem que o indivíduo do sexo feminino teria menos oportunidades para o seu desenvolvimento profissional e individual, além de estar biologicamente destinado a enfrentar processos hormonais de forma mais intensificada.

Pesquisas mostram ainda a diferença dos sintomas manifestados em mulheres: sentimentos de insignificância, tédio, irritabilidade, impaciência, inquietação, baixa autoestima e preocupação com a imagem que se é passada. Enquanto os homens apresentam repulsa, provocação, arrogância e problemas de comportamento, como: não comparecimento às aulas, atos violentos e agressivos, furtos e abuso de substâncias psicoativas.

Assim, é necessário diferenciar os sintomas do transtorno depressivo de uma tristeza; por esse motivo, torna-se difícil a identificação da depressão no adolescente. Os pesquisadores Melo e Moreira (2008), em suas descrições, enfatizaram algumas manifestações peculiares observadas no adolescente deprimido, como a exaustão, a linguagem arrastada, a locomoção lenta, os pensamentos de lamentação e a ineficácia, além de visões pessimistas quanto ao futuro, pensamentos ou atos suicidas,  automutilação,  sono  perturbado,  diminuição de apetite, humor irritado, abuso de álcool, comportamentos de medo ou acentuado incômodo quando não obtém a atenção que deseja.

"As experiências emocionais apresentadas pelos adolescentes, como o choro frequente e a diminuição não só do interesse em atividades que antes eram prazerosas como da energia física e mental também se fazem presentes nos quadros depressivos."

As experiências emocionais apresentadas pelos adolescentes, como o choro frequente e a diminuição não só do interesse em atividades que antes eram prazerosas como da energia física e mental também se fazem presentes nos quadros depressivos. Diante disso, percebe-se que a perda da vida infantil, a insegurança sobre o futuro e a não definição do seu papel na sociedade são fatores que fazem com que o jovem se retraia.  A falta de conhecimento da população sobre problemas mentais abre caminho para o surgimento de mitos e controvérsias que dão origem ao preconceito com tais doenças. De acordo com pesquisas, esse fator é apontado como uma das barreiras na procura de tratamento médico, que, ocasionalmente, resultam em um agravamento do estado clínico do paciente.

Além das características emocionais, também foram apresentadas características psicossociais, essas são separadas em fatores familiares e demográficos: falta de interação com os pais ou irmãos, problemas financeiros, problemas com álcool e drogas em geral, divórcio dos pais ou novos casamentos instituídos pelos genitores, violência com o adolescente ou entre os próprios pais, em alguns casos, além da agressão física, há a agressão sexual. Além de trazer consigo a fome, a falta de dinheiro e o acesso à educação, os indivíduos são levados a enfrentar problemas desde a tenra infância, em casa.

A pesquisa realizada por Melo e Moreira (2008) aponta que os principais fatores que podem desencadear a síndrome depressiva em adolescentes são os conflitos familiares, a situação social, o padrão de beleza e o uso de substâncias psicoativas, contextos que delimitam as extremidades socioeconômicas e culturais, que os expõem às alternativas e aos limites de sua realidade. Observa-se que a família é o centro de investigação para identificar possíveis relações dos vínculos instituídos entre pais e filhos, tais como a afetividade e o conflito familiar, com a depressão de crianças e adolescentes. Os resultados da pesquisa sugerem que há associação.

Leia também:

Depressão na adolescência: intervenção e tratamento

Veja a versão do artigo científico na íntegra:

Referências:

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    Os sintomas comumente apresentados nos adolescentes depressivos são: humor deprimido, desinteresse, oscilações de emoções e alguns sinais de angústia e ansiedade; os sintomas cognitivos, como a diminuição de energia e falhas na memória e na concentração, também são critérios de avaliação e se apresentam como danos causados pela doença. Além disso, o uso de determinadas substâncias, como o tabaco, a maconha e o álcool, ainda esteve diretamente ligado com a sintomatologia depressiva.

     

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