Publicada em 31/01/2019 às 14h27. Atualizada em 06/02/2019 às 14h53

Como entender o luto?

A perda é parte da vida, mas, muitas vezes, não sabemos lidar com esse sentimento. Confira a entrevista com a psicóloga Charbeu Libório.

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Segundo a psicóloga Charbeu Libório, o luto é o processo associado após uma perda significativa. Ele pode se apresentar de forma patológica, “uma resposta disruptiva, desencadeando uma série de patologias, considerando-se aqui, o quão intensa se faz a angústia da perda, a exemplo de depressões”. Nesse bate-papo com o iSaúde Brasil, ela também fala sobre o papel da mídia em desmitificar o tabu da morte e a importância dos cuidados paliativos.

iSaúde Brasil – O que é o luto?

Charbeu Libório – O luto pode ser compreendido em diferentes percepções, mas, de modo geral, pode-se pensar o luto como um processo associado à condição posterior a uma perda; seja ela real ou imaginária.

O luto também pode estar associado a uma sensação de perder algo da ordem do irreversível; do inevitável; do que não pode ser modificado.

A partir dessa perda, cabe ao sujeito o doloroso processo de “ter que” redirecionar o seu investimento afetivo, frente ao que “não pode ser recuperado”.

Esse processo pode demandar tempo e suporte em diferentes segmentos.

Vale considerar que, as religiões também podem impingir ressignificações nesse processo, tornando a elaboração do luto mais ou menos sofrida. Para algumas religiões no universo oriental, o morrer assumiria o significado da transformação com proposta de evolução espiritual, fazendo do momento de enlutamento, uma experiência pautada na aceitação da perda.

Na prática clínica em psicologia, é possível encontrarmos pessoas em sofrimento intenso e vivenciando o que chamamos de luto patológico, onde essa perda tem uma resposta disruptiva, desencadeando uma série de patologias, considerando-se aqui, o quão intensa se faz a angústia da perda, a exemplo de depressões. 

iSaúde Brasil – Falar sobre a morte ainda é um grade tabu em nossa sociedade. Por quê?

Charbeu Libório – Parece-me que as redes sociais, enquanto veículos de comunicação e possibilidade de facilitar o falar, têm contribuído para minimizar o impacto associado a falar sobre a morte e/ou o morrer. A mídia tem trazido esse tema com frequência e, as pessoas já se autorizam poder abordar esse tema com relativa familiaridade.

iSaúde Brasil – A morte é uma certeza, mas nunca estamos preparados para ela. Há como se preparar para a morte? E a morte de parentes e pessoas próximas, há como se preparar para vivenciar esse momento de uma forma menos dolorosa?

Charbeu Libório – Apesar de muito repetida a expressão “a morte é uma certeza”, o fato do morrer necessariamente implica em uma ressignificação do viver, a partir da perda. Parece-me que o que está sendo posto em questão é “Como, a partir dessa perda, conviver com uma realidade onde a falta é algo concreto e que implica em ‘ter que’ reaprender novas formas de viver? ”

iSaúde Brasil – O que podemos entender por cuidados paliativos?

Charbeu Libório – A expressão “cuidados paliativos” vem sendo utilizada como uma proposta de conferir dignidade, além da minimização de sofrimento e dor direcionados ao sujeito que se encontra no estado pré-morte. Esse conceito também engloba o poder falar sobre a morte, rompendo tabus e abrindo um diálogo entre a equipe de cuidados e o familiar daquele que se encontra em perspectiva de partida.

iSaúde Brasil – Esses cuidados são indicados apenas para pacientes com prognóstico de morte iminente?

Charbeu Libório – Parece que existe um movimento em ampliar esse “tempo” do morrer. Embora seja relativamente nova, essa especialidade desponta numa proposta de humanização, conferindo “vida” àquele que se direciona para o morrer, e de possibilitar aos familiares a reelaboração e simbolização da perda.

iSaúde Brasil – Na realidade do Brasil, os médicos não são muito acostumados a indicar o paciente para que seja acompanhado com cuidados paliativos. Por que isso acontece?

Charbeu Libório – É um conceito relativamente novo e uma prática ainda pouco disseminada. Trata-se de uma reelaboração no objeto de trabalho estudo do médico uma vez que toda a formação desse profissional se direciona, prioritariamente, ao salvamento e preservação da vida.

iSaúde Brasil – Como você aborda a morte com seus pacientes e familiares?

Charbeu Libório – Depende de cada paciente. Escuta-se suas angústias diante da perda, na perspectiva de favorecer uma redistribuição do investimento afetivo, de favorecer a sua ressignificação frente ao que se supõe “para sempre perdido”.

Caso a perda funcione como fator desencadeador de diferentes transtornos, pode -se investir em acompanhamento em diferentes especialidades, a exemplo da psiquiatria.

Enfim, toda a abordagem terapêutica estará sempre centrada no paciente.

iSaúde Brasil – Por que "A morte é uma vida que vale a pena viver"?

Charbeu Libório – Essa seria uma resposta de conteúdo filosófico puro e que, dificilmente, o leigo elaboraria satisfatoriamente. A subjetividade inscrita nessa questão possibilitaria diferentes interpretações e, assim, não creio ser adequado respondê-la objetivamente.

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