Publicada em 09/01/2019 às 09h15. Atualizada em 09/01/2019 às 10h00

Dengue: uma doença, vários vírus?

A dengue, doença famosa no verão, pode ser causada por quatro tipos de vírus. Saiba mais.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
Compartilhe

Nesta segunda parte da entrevista com o biólogo e professor da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública, Artur Dias Lima, o iSaúde Brasil traz para seus leitores mais algumas informações sobre a dengue e seu vetor de transmissão: o mosquito Aedes aegypti.

iSaúde Brasil – Qual é a diferença principal entre os tipos de vírus que causam a dengue e o que a população precisa saber sobre isso?

Artur Dias Lima – Resumidamente, existem quatro sorotipos diferentes do vírus da dengue: DENV-1, DENV-2, DENV-3 e DENV-4. Isso quer dizer que podemos adquirir dengue quatro vezes, por cada um dos sorotipos. Uma importante informação diz respeito à circulação e recirculação desses sorotipos. Se, por exemplo, uma pessoa nasceu agora ou nunca teve dengue, quer dizer que ela é vulnerável a adquirir estes vírus, quando em circulação. Quem teve um dos sorotipos, ou mais de um, desenvolveu imunidade natural. Mas corre o risco de ter casos mais graves, como a dengue hemorrágica, se tiver dengue novamente ou um outro sorotipo diferente do que já teve. Por exemplo, se teve dengue pelo DEV-1, ao ser infectada por um dos outros três sorotipos, pode ter a forma hemorrágica. Pode ser, até mesmo que, na primeira infecção, exista risco de dengue hemorrágica. Todo cuidado é pouco!

iSaúde Brasil – Desde 2009, o sorotipo 1 costumava ser o mais comum no Brasil. No início deste ano, outras estatísticas mostraram que o tipo 2 responde por 54,3% das infecções. Quais são as consequências desse fenômeno e o que pode ter causado essa mudança?

Artur Dias Lima – A recirculação dos sorotipos pode infectar, através da picada do Aedes aegypti, as pessoas que não tiveram dengue pelo sorotipo circulante e as que nasceram após essas epidemias. É comum essa mudança, em virtude das pessoas que se apresentam vulneráveis / susceptíveis, de tempos em tempos, como as descritas anteriormente. Sem contar que, conforme dito, existe, nessas mudanças de sorotipos circulantes, riscos de dengue hemorrágica.

iSaúde Brasil – O número de casos confirmados de dengue dobrou este ano em comparação com o ano passado no Estado de São Paulo. A que se poderia atribuir isso?

Artur Dias Lima – Nos últimos e recentes anos, São Paulo tem enfrentado graves crises hídricas, o que tem levado a população ao armazenamento de água de forma inadequada – “prato cheio” para o Aedes aegypti e seus criadouros. São Paulo, por outro lado, é um estado populoso, principalmente a sua capital. Toda essa magnitude é igualmente acompanhada de grandes problemas urbanos, migratórios, sociais e sanitários, o que também contribui para a proliferação de mosquitos.

iSaúde Brasil – As recomendações para evitar a proliferação do mosquito são relativamente simples. Por que, a cada ano, é preciso refazer as campanhas?

"Que tal nos espelharmos na nossa Constituição Federal, nos seus 30 anos de existência? Atenção para o artigo 6º, quanto aos direitos sociais, à educação, à saúde, à alimentação, ao trabalho, à moradia, ao transporte, ao lazer, à segurança, à previdência social, à proteção, à maternidade, à infância e à assistência aos desamparados."

Artur Dias Lima – Conscientização e compromisso seriam os termos adequados a essas recomendações. Não basta simplesmente gastar cifras milionárias com propagandas. Vejamos que as esferas governamentais, federal, estaduais e, principalmente, as municipais não fazem o “dever de casa” de forma adequada. Que tal nos espelharmos na nossa Constituição Federal, nos seus 30 anos de existência? Atenção para o artigo 6º, quanto aos direitos sociais, à educação, à saúde, à alimentação, ao trabalho, à moradia, ao transporte, ao lazer, à segurança, à previdência social, à proteção, à maternidade, à infância e à assistência aos desamparados. Quanto ao quesito moradia, este deveria obrigatoriamente incluir saneamento básico e de qualidade. Quanto à população, esta deveria cumprir o seu papel para evitar criadouros em seus domicílios e locais públicos também. Às universidades compete discutir o assunto cotidianamente, formar profissionais competentes para as soluções desses grandes problemas e para atuarem como multiplicadores em educação e saúde. Não vamos esquecer aqui de citar o Aedes albopictus, um mosquito “primo” do Aedes aegypti e que também merece cuidados quando ao seu controle.

iSaúde Brasil – Gastos com ações educativas cresceram sem corresponder a uma redução nos casos da doença. Você acha que há um erro na formulação, “uma ‘indústria’” (relacionada à publicidade) ou apenas falta de comprometimento da população?

Artur Dias Lima – Existem “culpados” em todos os segmentos, seja populacional ou governamental. Acredito que deva, sim, haver uma “indústria”, pois são milionários os gastos com empresas de publicidade e televisivas, por exemplo. Realmente, é um grande desafio essa questão. Recentemente, dialogamos sobre isso na semana em Defesa do SUS, com o tema “Economia da saúde: Arboviroses em números e custos para o SUS”. Os custos da sociedade brasileira para com as arboviroses vão além dos custos das campanhas educativas. Estão incluídas aí as internações, os impactos clínicos, os exames diagnósticos e a perda de produtividade. Nos últimos cinco anos, por exemplo, existe uma estimativa de que o Aedes aegypti custou R$ 2,2 bilhões à sociedade brasileira. E as crianças com microcefalia? O reumatismo provocado pela Chikungunya, que pode durar meses? As mortes, pois não há preço que pague pelo nosso maior bem: a vida?

iSaúde Brasil – Por que o governo nunca implantou a tecnologia do mosquito transgênico, que permite fazer com que o mosquito pare de se reproduzir? Como funciona essa intervenção genética?

Artur Dias Lima – Caríssima para os padrões financeiros atuais brasileiros. Certa ocasião, vi um dado que citava que, para tratar uma cidade pequena, de 50 mil pessoas, o custo ficaria entre R$ 2 milhões e R$ 5 milhões no primeiro ano. Em seguida, R$ 1 milhão anual para manutenção. Calcule isso para grandes cidades x população, e daria cifras bilionárias. Essa intervenção genética consta da produção de Aedes machos, geneticamente modificados. Esses machos são soltos na natureza e, quando cruzam com as fêmeas, estas passam a gerar larvas que não conseguem atingir a fase adulta. Ou seja, matam as larvas, através de uma proteína tóxica oriunda dessa transgenia, ou, como disse, intervenção genética.

Nem sempre temos acesso a essas informações para fiscalizarmos esses gastos governamentais e os desperdícios de dinheiro público. Existem outras tecnologias que precisam ser estudadas e calculados os seus impactos positivos e negativos para o controle de insetos. Armadilhas letais e o controle biológico, de custo acessível à população, podem se configurar como estratégias para combater o Aedes aegypti e outros insetos transmissores de doenças. Recentemente, vi que o aquecimento global tende a influenciar diretamente no ciclo biológico1 desses insetos. O calor acentuado e a umidade favorecem sua proliferação e dispersão, o que acarretaria numa dificuldade ainda maior de controle de insetos vetores. Mas, como disse, é algo a se pensar quanto ao custo benefício. É preciso contextualizar no princípio da economia em saúde.

iSaúde Brasil - Quais são as diferenças de sintomas entre dengue, febre amarela, gripe, zika e chikungunya?

Artur Dias Lima – Para começar, dentre estas, a gripe não é uma arbovirose. Ou seja, não é uma doença transmitida por artrópodes, em nosso caso, um inseto chamado Aedes aegypti. No quesito sintomatologia, dengue, zika e chikungunya podem ser identificadas pelos seguintes sintomas:

Dengue: febre, dor de cabeça, dor atrás dos olhos, tonturas, dores pelo corpo, dores nas articulações, moleza no corpo, manchas e erupções na pele.

Chikungunya: febre, dores intensas nas articulações, dor de cabeça, dor nos músculos e manchas vermelhas na pele, as dores nas articulações podem durar meses.

Zika: febre, dor de cabeça, dor nas articulações, dor nos músculos, manchas vermelhas na pele e cansaço físico (e mental). Em gestantes, podem ocorrer casos de microcefalia.

Febre amarela: apresenta sintomas iniciais parecidos com outras arboviroses. No ambiente urbano, o Aedes aegypti é o transmissor. Pode ser adquirida também em ambientes silvestres, através de outros insetos vetores. A maioria das pessoas melhora após estes sintomas iniciais. No entanto, cerca de 15% apresentam um breve período curto sem sintomas e podem desenvolver sintomas mais característicos como a icterícia (coloração amarelada da pele e do branco dos olhos, daí o nome), hemorragias, choque e insuficiência de múltiplos órgãos. Pode apresentar grande letalidade, chegando a atingir 5 em cada 10 pacientes. É importante salientar que é a única que tem vacina oferecida pelo SUS e é de fundamental importância se imunizar, para prevenir. 

Por fim, a gripe, uma infecção contagiosa, provocada pelo vírus Influenza e suas variantes, geralmente mais relacionada ao trato respiratório, podendo provocar febre, dores de cabeça, de garganta e dores musculares. 

Compartilhe

Saiba Mais

     

    Redes Sociais