Publicada em 14/07/2017 às 10h12. Atualizada em 20/07/2017 às 09h25

Depressão: a dor que tem nome?

Será que toda a tristeza, desânimo, angústia podem ser chamados de depressão? Entenda mais o assunto.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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"O significante “depressão” tem sido comumente usado de forma genérica na contemporaneidade para nomear os sentimentos que expressam o desacordo dos sujeitos com o ideal de felicidade e de satisfação tão valorizados socialmente."

Tristeza, desesperança, desamparo e desânimo são alguns dos sentimentos que estão presentes nos discursos dos sujeitos contemporâneos como expressão de mal-estar. A tristeza pode ser compreendida, por vezes, como sinônimo de depressão. O significante “depressão” tem sido comumente usado de forma genérica na contemporaneidade para nomear os sentimentos que expressam o desacordo dos sujeitos com o ideal de felicidade e de satisfação tão valorizados socialmente. Interessante observar que “o significante “depressão” parece ter engendrado o batalhão de sujeitos que assim qualifica seu estado d’alma quando se encontram tristes, desanimados, frustrados, impotentes ou angustiados”.

Nesse sentido, a partir do momento em que o sujeito se vê atrelado ao significante “depressão”, ele tem a ilusória sensação de que encontrou o diagnóstico para o seu mal-estar por meio de um significante que portaria o seu sofrimento expressando a sua dor.

Ao tratar dessa questão e buscando-se compreender a natureza das depressões, seria importante considerar a sua singularidade, haja vista que estados como tristeza, desânimo, inapetência para a vida, caracterizariam, por vezes, reações aos avatares da vida cotidiana, não pressupondo necessariamente estados depressivos, embora todos eles participem também do sofrimento dos sujeitos que vivenciam a depressão.

A depressão, do mesmo modo como a angústia, a ansiedade, o medo, o pânico, as fobias e as paixões, de uma forma geral, revelariam um sentimento de “mal-estar”, por vezes indizível, indicando em última instância que algo no sujeito clama por uma possibilidade de elaboração subjetiva e compreensão interna. O significado da palavra depressão teria, na sua carga semântica, a capacidade de magnificar a dor e o sofrimento. Desse modo, esse significante supostamente seria capaz de dar sentido ao nonsence e nomear o inominável.

É importante frisar que, tal como outros termos que definem diversas manifestações psicopatológicas trabalhadas pela psicanálise, o termo  depressão não  é  originário  dela,  mas  da  psiquiatria, cujo significado está baseado em uma doença orgânica.

A psiquiatria, concebida como o saber médico, considera o sofrimento psíquico como um desvio, como algo fora do padrão de normalidade, como doença e, de modo geral, concebe o sujeito como racional e consciente acerca do seu sofrimento. Utiliza referenciais biológicos para diagnosticar e nomear os fenômenos observáveis, que nessa perspectiva são classificados em categorias de CIDs (Classificação Internacional de Doenças) e DSMs (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), desconsiderando, por vezes, a subjetividade e singularidade do sujeito.

A depressão para a psiquiatria se caracterizaria por uma multiplicidade de sintomas afetivos, neurovegetativos, ideativos, cognitivos, entre outros, que serviriam para explicar seus principais elementos. As manifestações depressivas são classificadas em quadros que variam dos leves aos mais severos sendo também nomeadas como transtornos de humor e anedonia (perda da capacidade de sentir prazer), por exemplo. Vale ressaltar que o tratamento da depressão pela psiquiatria buscaria a eliminação do sintoma visando a normalização do sujeito.

"A depressão para a psiquiatria se caracterizaria por uma multiplicidade de sintomas afetivos, neurovegetativos, ideativos, cognitivos, entre outros, que serviriam para explicar seus principais elementos. "

 

Há de se considerar que o trabalho do médico na psiquiatra, por vezes, está pautado no modus operandis de uma sociedade governada pela ordem da fluidez, instantaneidade da produção e da produtividade. Dessa forma, o uso de um psicofármaco ‘cai como uma luva’ para uma sociedade que demanda atendimentos cada vez mais rápidos e que a lógica dos discursos predominantes sobre a depressão reflete sempre um ideal de saúde que obedece, por sua vez, a uma lógica consumista e mercadológica, típica da modernidade.

Diferentemente da psiquiatria, para a psicanálise, o mal-estar psíquico do sujeito não seria visto como algo que precisa ser tratado exclusivamente pela via farmacológica, pois considera que o sujeito é atravessado pelo desejo, o sujeito do inconsciente, posição diversa do sujeito da certeza, da razão e, por isso, não busca a eliminação do sintoma, pois o manejo pela via da psicanálise tem como foco o trabalho com o sujeito e como ele pode lidar com o seu sintoma.

Vale destacar que Freud não teorizou especificamente sobre a depressão como uma estrutura clínica, contudo, entendendo a concepção de sujeito pela via do inconsciente, considerou a existência de estados depressivos como observados e descritos ao longo de algumas de suas obras. Em seu tempo, descreveu manifestações depressivas como as descritas na obra Luto e Melancolia por considerar um estado passível de revelar-se em diversos sofrimentos psíquicos intrínsecos à existência humana, sinalizando que o luto e a melancolia possuiriam características semelhantes diante da perda de um objeto.

Os traços mentais distintivos são um desânimo profundamente penoso, a cessação de interesse pelo mundo externo, a perda da capacidade de amar, a inibição de toda e qualquer atividade e uma inibição dos sentimentos de autoestima (...) A perturbação da autoestima está ausente no luto, afora isso, as características são as mesmas.

Nesse contexto, o sentimento de autoestima não é perturbado pela consciência do objeto no que concerne aos estados depressivos. Ocorre nesses estados que a busca por recuperar o objeto perdido e a integridade narcísica, ocupa o tempo e o espaço do sujeito, obliterando “o prazer de viver, a capacidade de amar e de se relacionar”.

Nessa perspectiva, embora a depressão não tenha ocupado um lugar de destaque na teoria freudiana, nos dias de hoje, ela pode ser compreendida como um modo de existir, uma condição em que o homem se vê impossibilitado para encontrar outra maneira de lidar com as exigências da sociedade atual.

"Vivemos em uma era que prega a fuga do sofrimento, a segurança, o sucesso, a felicidade, a busca por saúde e por satisfação dos desejos, ao passo que favorece a produção de uma sociedade que padece com o alastre e a generalização da depressão e da sensação de vazio."

Vivemos em uma era que prega a fuga do sofrimento, a segurança, o sucesso, a felicidade, a busca por saúde e por satisfação dos desejos, ao passo que favorece a produção de uma sociedade que padece com o alastre e a generalização da depressão e da sensação de vazio. A depressão seria o sinalizador do mal-estar na contemporaneidade, um sintoma social, tendo em vista que os depressivos seriam os atuais portadores de um saber a respeito das condições contemporâneas do mal-estar e, provavelmente, estariam em desajuste com as demandas que tal sociedade imporia. Isso justificaria a atualidade das depressões e da sua expressão como um “sintoma social” possivelmente favorecendo o crescente número de diagnósticos de depressões na contemporaneidade.

 "a depressão é sintoma social porque desfaz, lenta e silenciosamente, a teia de sentidos e de crenças que sustenta e ordena a vida social desta primeira década do século XXI. Por isso mesmo, os depressivos, além de se sentirem na contramão de seu tempo, veem sua solidão agravar-se em função do desprestígio social de sua tristeza (Kehl).

O sintoma, portanto, expressaria algo da ordem do insuportável, uma dor que não consegue ser simbolizada, mas que precisa de um nome para dar concretude ao sofrimento, assim como saídas possíveis para o barrar. Para melhor compreensão do conceito de sintoma social, pode-se depreender que o sintoma seria mensagem cifrada de gozo e, por isso mesmo, seria a modalidade singular pela qual o sujeito goza. O social seria o que daria universalidade aos sujeitos a partir da vida em cultura e dos limites impostos por ela, sendo, por vezes, produtora de mal-estar por impossibilitar ao sujeito a não satisfação plena dos seus desejos.

A partir disso, ainda de acordo com a autora, o sintoma social situaria um campo que se articularia entre o universal da vida em cultura e o singular do sujeito, onde novas formas de subjetivações e novas modalidades de gozo surgiriam e ganhariam sentidos pelo discurso dominante de uma época.

Do ponto de vista psicanalítico, o sintoma permitiria, desse modo, acessar a organização simbólica que representa o sujeito, sendo, portanto, um  signo  que representaria alguma coisa. No fluxo desse pensamento, o sintoma não se reduziria a sinal de doença, uma vez que diria da singularidade do sujeito. Esse modo de conceber o sujeito é algo completamente diverso do observado hoje nos diagnósticos psiquiátricos, que nada dizem do sujeito em sua singularidade.

Assim, a abordagem psicanalítica considera que o sintoma não é apenas algo da ordem do individual, mas, sobretudo, constitutivo do funcionamento psíquico, mediante toda a complexidade social de nosso tempo. O sujeito contemporâneo constitui-se com base em uma série de referenciais produzidos pelas relações que operam dentro da sociedade. Desse modo, o discurso dos sujeitos traz em si as marcas dos referenciais construídos socialmente e das modificações ocorridas na própria subjetividade. Com isso, os olhares devem ser múltiplos para a compreensão desse sujeito, avaliando as suas crenças e identificações quando ele fala do seu sofrimento, bem como as crenças que permeiam os diagnósticos de depressão. Apesar da multiplicidade de pacientes depressivos, não se pode perder a orientação psicanalítica de considerar a singularidade do sintoma de cada um. Assim, para psicanálise, o sintoma seria uma metáfora que, por meio de significantes engendrados no discurso social dos sujeitos, poderia revelar os sentidos, os significados e as designações do sofrimento dos sujeitos, ou seja, diria de forma singular das suas dores.

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