Publicada em 10/12/2018 às 15h28. Atualizada em 11/12/2018 às 11h06

Depressão e ansiedade podem afetar a saúde do coração?

Estudiosos já apontam a influência do transtorno depressivo no surgimento de doenças cardiovasculares. Confira!

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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A relação entre o transtorno depressivo e as doenças cardiovasculares (DVC) tem recebido significativa atenção da literatura científica devido à forte evidência de que a depressão é um fator de risco independente para o desenvolvimento de DCV e para piorar o prognóstico daqueles que já possuem a doença.

A caracterização da depressão tem como sintomatologia a presença de humor deprimido, perda de interesse em atividades antes prazerosas, fadiga, alterações do sono e do apetite, sentimentos de inutilidade e culpa, tendência ao isolamento, ideação suicida e irritabilidade. A ansiedade é definida como “uma emoção ou estado de humor negativo caracterizada por apreensão e preocupação antecipada quanto ao futuro”. As alterações que a ansiedade propicia ao organismo são divididas em quatro categorias: sintomas fisiológicos, sintomas afetivos, sintomas cognitivos e sintomas comportamentais. Os sintomas fisiológicos podem ser: aumento da frequência cardíaca (FC), sudorese, tremores e desmaio; os sintomas afetivos podem ser: impaciência, frustração, nervosismo e irritabilidade; os sintomas cognitivos falta de concentração, hipervigilância para ameaça, memória deficiente, distorções cognitivas e medo; e os sintomas comportamentais como fuga, esquiva, agitação, busca de segurança e dificuldade para falar.

Apesar de frequente, o transtorno depressivo comumente é subdiagnosticado, ou quando identificado, não há diferenciação entre a doença clínica de base e o episódio depressivo reativo. A denominada depressão reativa é uma resposta a uma determinada situação. Nesses casos, a depressão é secundária, consequência da DCV e não causa. Contudo, o transtorno depressivo maior, em indivíduos saudáveis, poderá evoluir para doenças cardiovasculares em virtude das alterações nas funções e ritmo cardíaco, alteração dos níveis hormonais (principalmente cortisol) e do sistema nervoso autônomo, ativação das plaquetas e aumento da resposta inflamatória, além de predispor os indivíduos a um estilo de vida não saudável.

Pesquisadores informam que a depressão em pacientes portadores de doença cardíaca aumenta a probabilidade de mortalidade, morbidade e má qualidade de vida. A ansiedade é citada como causa para depressão, ou seja, pacientes com histórico de ansiedade têm mais chance de apresentarem depressão. Todavia, o estudo aponta a diferença entre ansiedade-estado e ansiedade-traço, concluindo, posteriormente, que a segunda é uma condição crônica, intrínseca à personalidade e a sua constância justifica a predisposição à depressão. A ansiedade-estado caracteriza-se pela percepção subjetiva de sentimentos de tensão e apreensão acompanhados de reações do sistema nervoso autônomo em um momento particular, e a Ansiedade-traço diz respeito a uma tendência relativamente estável de perceber as situações como ameaçadoras e de reagir a elas com estado de ansiedade.

Estudando a relação entre ansiedade, depressão e qualidade de vida em 224 pacientes infartados, pesquisadores concluíram que os transtornos depressivos não são desencadeados pelo infarto agudo do miocárdio, afirmando que esses fatores já estavam presentes antes da admissão hospitalar. Porém, outros autores inferem que a relação casual varia entre os pacientes: em uns, a depressão é a doença-causa das DCVs, em outros, é consequência de uma doença cardíaca e, no restante, tanto a depressão quanto as DCVs fazem parte de um processo subjacente mais amplo. 

A simbologia do coração

O coração é um órgão oco, responsável pelo bombeamento do sangue através de vasos sanguíneos do sistema circulatório. Porém, socialmente, mistificou-se como sede das paixões, sentimentos e afetos. A própria palavra “coração” denota “lugar de sentimentos”, descaracterizando a real função do órgão. Essas atribuições sociais acarretam aos cardiopatas uma exacerbação de emoções, fantasias, medos e mecanismos de defesa próprios, podendo, por vezes, dificultar o diagnóstico, o tratamento e a reabilitação desses pacientes.

Patrícia Pereira Ruschel, em seu artigo “Quando o coração adoece”, contribui informando que as superstições socialmente arraigadas fazem com que a doença cardíaca pareça ser a mais ameaçadora, quando, na verdade, existem outras até mais graves. O efeito dessa mistificação interfere, com bastante intensidade, na forma de enfrentamento da doença, as fantasias a ela associada e a ansiedade de morte são incrementadas.

Ao longo das nossas vidas, iremos experimentar diversos tipos de emoções, tais como: raiva, medo, desesperança, tristeza, alegria, ansiedade etc. Algumas sensações atuam de modo a aumentar as respostas fisiológicas e outras, tendem a diminuir. Nesse sentido, pode-se conceber que a convicção de relacionar o coração às paixões, sentimentos e afetos, está associada com o fato de esse órgão ser o que mais facilmente percebe as respostas fisiológicas. Assim, quando um indivíduo marca um encontro romântico e isso faz com que sinta a aceleração dos batimentos cardíacos, logo vai associar a sensação (fisiológica) à paixão.

Em vista disso, é muito comum ouvir expressões atribuídas ao coração, como: “coração mole”, “coração grande”, “coração apertado”, “coração de pedra”, “meu coração está partido”, “prepare o seu coração”, “te amo do fundo do meu coração”, para citar algumas. Expressões essas que servem para simbolizar, nomear os próprios sentimentos. Logo, esse músculo terá função dual, ou seja, a própria função orgânica é de depositário de toda simbologia de afetos. As experiências do cardiopata serão intensificadas por essa função binária do órgão. Isso porque a carga de significação afetiva é tão grande que esse superinvestimento tornará o órgão mais suscetível à eclosão somática.

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