Publicada em 14/07/2017 às 10h03. Atualizada em 18/07/2017 às 10h20

Depressão e Contemporaneidade: a recusa do sujeito frente ao palco espetacular

É a depressão um sintoma da sociedade em que vivemos?

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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A depressão configura-se como uma das modalidades de sofrimento predominantes na contemporaneidade.  Partindo da ideia freudiana acerca do sofrimento psíquico, considera-se que não se pode dissociar o mal-estar psíquico do seu contexto social, haja vista que há uma incompatibilidade entre as necessidades individuais do homem frente às exigências sociais e culturais de sua época.

Nessa perspectiva, as três fontes de sofrimento psíquico corresponderiam às questões inerentes à vida na civilização, “a prepotência da natureza, a fragilidade de nosso corpo e a insuficiência das normas que regulam os vínculos humanos na família, no Estado e na sociedade”.

Partiremos desse último ponto para refletir sobre a depressão na contemporaneidade, considerando-a como expressão de um sintoma social, destacando algumas características específicas da cultural atual que podem ser disparadoras desse fenômeno.

A evolução histórica de uma sociedade não ocorre sem deixar marcas que a caracterizam e que estão relacionadas aos modos de constituição das subjetividades individuais e coletivas que emergem nesse processo, já que “cada espécie de sociedade produz sua própria espécie de estranhos e a produz de sua própria maneira, inimitável” (BAUMAN). No caso das sociedades moderno-ocidentais, a análise do mundo moderno pode ser compreendida a partir de dois períodos distintos: A Modernidade Sólida e a Modernidade Líquida. A Modernidade Sólida seria marcada pela era do Hardware, das grandes máquinas, da lentidão da passagem do tempo e a Modernidade Líquida, estamparia a fluidez, a leveza e a instantaneidade, tão evidentes na relação tempo e espaço, como marca indubitável da ordem econômica capitalista que impera nesse período. A principal característica da era do software seria “a viagem à velocidade da luz; o espaço pode ser atravessado, literalmente, em ‘tempo nenhum’; cancela-se a diferença entre ‘longe’ e ‘aqui’”.

Durante a Modernidade Sólida, teria sido possível a construção de referenciais socioculturais que serviriam de fio condutor para a tessitura de laços sociais duradouros. Nesse sentido, os laços sociais familiares na passagem da era pré-moderna para a modernidade possuíam características marcantes como o convívio no mesmo espaço de diferentes gerações e a autoridade do pai era quase absoluta e incontestável. As transformações apresentadas pela estrutura familiar, desde então, refletem novas configurações de laços sociais que se formariam a partir da constituição de espaços de privacidade, novos arranjos familiares, entre outros aspectos que caracterizariam as mudanças ocorridas na era moderna.

"Na contemporaneidade, os ideais, as tradições, a autoridade paterna e as religiões perderam sua importância, favorecendo que os sujeitos criem maneiras diversas de se posicionar diante das solicitações e mudanças dos contextos social, econômico e cultural." 

Assim, consideremos a contemporaneidade como herdeira dos referenciais postos na Modernidade Líquida que se traduz na ideia de liquidez e de fluidez, sendo percebida no modo como as relações familiares, interpessoais, de trabalho, entre outras, são constituídas na atualidade, colocando à prova as certezas e os referenciais outrora construídos sob um modo de atadura social na Modernidade Sólida. Na contemporaneidade, os ideais, as tradições, a autoridade paterna e as religiões perderam sua importância, favorecendo que os sujeitos criem maneiras diversas de se posicionar diante das solicitações e mudanças dos contextos social, econômico e cultural. “Se o sujeito não atinge os ideais proclamados pela sociedade, nada mais lhe resta senão sua condição de exclusão, de doente”.

Nesse sentido, a cultura capitalista promoveria no sujeito a ideia de que pode ser autossuficiente e, de forma individual, enfrentar os reveses postos pela vida em sociedade.

Vivemos sob o domínio do discurso capitalista, em que os homens não se cercam mais de outros homens e sim de objetos produzidos pela tecnologia; suas relações sociais não estão centradas nos laços com outros homens, mas na manipulação de mercadorias e mensagens. Essa deterioração dos laços sociais e o empuxo ao prazer solitário, realizando a economia do desejo do Outro, estimulam a ilusão da completude não mais com um par, porém com um parceiro conectável e desconectável ao alcance das mãos.

Os aspectos da cultura contemporânea avultam a ideia de sua homogeneização ao jogo de imagens, sons e encurtamento do tempo-espaço, como aspectos intrínsecos ao que se conhece hoje como ‘sociedade do espetáculo’. Tem-se um cenário em que os sujeitos podem utilizar os objetos de consumo disponíveis no mercado capitalista e, desse modo, sustentarem a fantasia de que podem atuar satisfatoriamente no palco forjado socialmente, onde os holofotes estão voltados para si. “O que aparece é bom, o que é bom aparece.”

Com isso, aqueles que não conseguem estetizar sua existência a ponto de ganhar prestígio social, buscam a exaltação de si mediante “a melhor performance possível, o modelo desejado socialmente de imagem, os bens (tecnologias – objetos móveis e imóveis) que estão expostos nesse cenário espetacular”. Ocorre, então, que do consumo direcionado às necessidades passou-se ao consumo direcionado à tentativa da satisfação de desejos, instalando-se para o sujeito uma falsa sensação de que pode ser e ter tudo, pois na cultura do espetáculo o fracasso não tem vez e o que se busca é o gozo pleno.

Desse modo, os destinos do desejo no atual cenário contemporâneo assumem, pois, uma direção notadamente exibicionista e autocentrada, haja vista que o horizonte intersubjetivo encontra-se esvaziado e desinvestido das trocas entre os sujeitos. Nessa direção, pode-se pensar que “a era da individualidade substituiu a da subjetividade, dando a si mesmo a ilusão de uma liberdade irrestrita, de uma independência sem desejo e historicidade sem história”.

Depreende-se, com base no exposto, que, na cultura atual, o sujeito adere à promessa de prazer imediato ofertada pelo consumo, da plena liberdade de escolha diante das variadas possibilidades que se apresentam aos indivíduos, mas que, de certa forma, já são vazias de referenciais sólidos. Nesse contexto, os sujeitos podem se sentir inseguros por não saberem lidar com a ilusão de liberdade posta pelos contextos socioeconômico e cultural. Diante disso, o cenário capitalista, transitório e fluido, apresentado ao sujeito, remete a uma condição de desamparo, visto que os valores nesse cenário são rapidamente consumidos e substituídos por outros tão fluidos quanto os primeiros, gerando angústia.

"...o sujeito adere à promessa de prazer imediato ofertada pelo consumo, da plena liberdade de escolha diante das variadas possibilidades que se apresentam aos indivíduos, mas que, de certa forma, já são vazias de referenciais sólidos."

 

Isso leva a crer que, na sociedade atual, a emergência de sintomatologias, a exemplo da depressão, poderia estar relacionada às primeiras experiências vivenciadas na infância, que, via de regra, estruturam-se a partir de “um objeto externo qualquer que é buscado com a finalidade de preencher o vazio insuportável”.

É nesse sentido que Freud menciona as tentativas de os sujeitos, na vida adulta, mostrarem-se incapazes de abrir mão de uma sensação prazerosa que outrora desfrutou na infância buscando evitar desesperadamente as sensações de mal-estar, tal qual fazia nesse período, quando ainda não possuía uma representação que tornasse suportável a dor e a frustração da espera ou da negociação do objeto.

Entretanto, um homem que tenha trocado seu narcisismo para abrigar um ideal de ego elevado nem sempre foi bem-sucedido em sublimar seus instintos libidinais, haja vista que na infância haveria todo um investimento materno na criança, atendendo aos seus pedidos de satisfação e, por conseguinte, para viver na cultura os sujeitos teriam que se haver com imposições sociais frente ao seu desejo. Desse modo, é que podemos pensar que os sujeitos na atualidade buscariam sustentar a ilusão de puder preencher o que lhes ‘falta’, não reconhecendo essa como constitutiva a existência humana não entendi a que se refere a palavra essa. Assim, a cada conquista formula-se nova demanda, novo desejo, ocasionando, por vezes, insatisfações em função de os sujeitos não alcançarem a completude dos desejos e experienciando, algumas vezes, desse modo, sentimentos de desemparo, tristeza.

A organização do campo social na atualidade seria, nesse sentido, tributária dos ideais sociais, que, em última instância, são formações imaginárias, organizadoras do campo social, variando de cultura para cultura. É desse modo que se pode pensar no vazio ao qual se referem os deprimidos, tendo em vista que a sociedade atual privilegiaria a vida privada, a competitividade, a satisfação dos desejos a todo custo pela via do consumo, ratificando, desse modo, os imperativos de perfeição, beleza, juventude e de felicidade plena.

A depressão portaria, desse modo, um sofrimento psíquico vivenciado pelos sujeitos, marcado pela dificuldade de colocar a termo sua própria condição transitória, de incompletude e finitude, referenciada em um narcisismo ideal que não consegue responder aos impasses da onipotência perdida frente à exigência de performance social da cultura do espetáculo que se apresenta aos sujeitos contemporâneos. 

Nesse contexto, pode-se pensar que os sujeitos modernos sofreriam em função da busca por outros ideais, que se pautariam entre o que se é e como deveria ser, entre o que sem tem e o que se deveria ter. Dito de outro modo, os ideais dos sujeitos na atualidade se diferenciaram dos ideais dos sujeitos da época de Freud, considerando que os ideais dos sujeitos na atualidade estariam modificando-se em função da busca pela melhor performance na vida em cultura. Até aqui, seria possível depreender que os mal-estares supostamente interpretados como depressão poderiam ser uma reação subjetiva do sujeito contemporâneo frente às demandas da cultura do espetáculo e do narcisismo.

Nessa perspectiva, o sintoma, ao emergir, teria como função revelar um sujeito que se encontra à mercê de si mesmo e do seu desejo, referenciado nas vicissitudes da crença narcísica e no sofrimento diante de sua própria condição transitória. Ao lado disso e, considerando ainda que o sintoma “é estruturado como linguagem”, ele seria, em última instância, simbolicamente, um resultante que expressaria um conflito psíquico ao modo de uma solução de compromisso entre o desejo e a defesa. Assim, é na defesa contra o sofrimento que habitaria o próprio “mal-estar”.

Desse modo, percebe-se que na contemporaneidade o significante “depressão”, não raro, é usado corriqueiramente como rótulo para nomear sentimentos que dizem de mal-estares. Esses sentimentos, por vezes, fariam referência à impotência do sujeito em lidar com as dores e as incertezas do existir, evidenciando uma modalidade específica de sofrimento psíquico muito frequente e cada vez mais presente.

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