Publicada em 20/12/2018 às 14h34. Atualizada em 25/12/2018 às 20h59

Disgrafia: letra feia pode ser sinal de mais problemas

Saiba o que pode causar o problema e quando é válido o acompanhamento de um profissional.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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Uma criança que tem a letra feia e que já foi treinada por muito tempo a superar essa dificuldade sem grande sucesso, ou que permanece com os mesmos garranchos e erros ortográficos, pode não somente apresentar problemas motores ou espaciais de escrita, mas também outras condições que costumam se associar a isso. Nesses casos, é salutar investigar outras possibilidades que podem, neurologicamente e funcionalmente, influenciar de forma negativa no desenvolvimento e performance da sua escrita.

Para o ato de escrever, é necessário desenvolver requisitos funcionais e habilidades que permitam direcionar toda a percepção e energia para dar ritmo, persistência e controle inibitório às mãos, a fim de que assim a criança redija adequadamente. Para isto, é importante ter atenção seletiva e sustentada, integridade da linguagem fonoarticulatória, lexical e semântico-pragmática, boa memorização operacional, coordenação visuomotora preservada e capacidade de decodificação fonêmico-grafêmica. Tudo isso deve estar sendo operacionalizado e organizado por um bom funcionamento do sistema executivo e “regado a pitadas” de motivação e prazer. Fácil? Não! Complexo e repleto de detalhes? Sim, mas bem mais palatável e melhor administrado quando passamos a conhecer os mecanismos neurológicos e neuropsicológicos existentes na base do processamento da escrita.

A avaliação sistemática e interdisciplinar dos problemas de escrita é um dos passos mais importantes para se entender os reais motivos da persistência dessa disfunção. Pode ser falta de estímulo ou de treino? Pode ser por utilização de método didático inadequado? Sim e sim. Mas é possível que essa criança tenha problemas de coordenação visuomotora, que impedem que a mesma venha  representar a escrita da mesma forma que percebe e fazem com que ela veja as palavras num descompasso que resultará em garranchos, sobreposições de letras e alteração da escrita linear, desrespeitando linhas ou limites.

Pode ser que ela tenha um Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), e que, mesmo sem Hiperatividade, pode levá-la a problemas de atenção e falta de persistência motora, resultando em escrita com pouca atenção aos detalhes, perda de letras, “encavalamento” de palavras, disortografia, frases incompletas, alterações na disposição espacial das palavras e texto com pouco sentido, além de cansaço e dor durante o ato de escrever. Se tiver uma hiperatividade associada, tais problemas ficam ainda mais evidentes e intensos. Crianças com TEA-Autismo não persistem até o fim e costumam ter problemas sérios ao pegar no lápis, com efeitos significativos na coordenação motora para escrever, pois ora não possuem boa propriocepção na “pega”, ora não conseguem coordenar a sequência da escrita.

"A dislexia e os Transtornos Específicos de Linguagem (TEL) podem, com muita frequência, levar a problemas de escrita por refletir suas disfunções também no ato escrito. "

A dislexia e os Transtornos Específicos de Linguagem (TEL) podem, com muita frequência, levar a problemas de escrita por refletir suas disfunções também no ato escrito. Os problemas motores, de linguagem e de memória sequencial criam grandes obstáculos na persistência da atividade de escrever sem contar as trocas fonéticas e grafêmicas constantes. No tocante aos Transtornos do Desenvolvimento da Coordenação (TDC), as dificuldades de coordenação motora podem levar à caligrafia ainda pior com efeitos na organização, no esboço, no traçado e na postura adequada para a escrita.

Nem é preciso dizer, portanto, que essas condições abalam a motivação e geram grande desprazer para escrever, reduzindo, aos poucos, toda a disposição da criança para esse tipo de atividade. O professor, contudo, deve estar atento para essas situações, encaminhando-a para uma avaliação e recuperando sua autoestima com atividades secundárias ou facilitando os registros por meio de outros caminhos.

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