Publicada em 29/11/2018 às 12h22. Atualizada em 29/11/2018 às 12h43

Espiritualidade x Ciência

Qual é o nível de evidência a respeito dos benefícios da espiritualidade? Confira a parte final dessa investigação.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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O mundo é repleto de ruído, e a função da ciência é diferenciar “sinal” de “ruído”. Como já comentamos tantas vezes, um dos piores tipos de ruído, na avaliação de causalidade, é o viés de confusão. E o viés da confusão está especialmente presente quando testamos o modo de ser de uma pessoa (behavioral studies) como determinante de desfechos clínicos prognósticos.

Se compararmos um grupo de pessoas espiritualizadas versus outro grupo de pessoas não espiritualizadas, a diferença entre esses grupos não será apenas o grau de espiritualização. Talvez o grupo espiritualizado beba menos álcool, use menos droga, se alimente melhor, coma de forma mais moderada, cuide melhor da saúde. Dessa forma, ao observar que a espiritualização se associa a melhores desfechos em saúde, devemos ter como questionamento se ela é uma relação diretamente causal ou se é mediada por variáveis de confusão. 

Uma pessoa que mantém os mesmos bons hábitos pode ter os mesmos desfechos favoráveis mesmo não sendo espiritualizada? A avaliação do impacto de comportamentos é sempre acompanhada de alto risco de viés de confusão em estudos observacionais. Historicamente, muitos desses estudos observacionais tiveram seus resultados positivos negados por ensaios clínicos (exercício, uso de vitaminas, uso de terapia de reposição hormonal). 

Portanto, não é surpresa que chegamos à conclusão de que o modelo ideal para testar a eficácia de intervenções espirituais seja o ensaio clínico randomizado. Mas que sacrilégio, falar em ensaio clínico para espiritualidade… sei que alguns pensaram assim.  Por isso que questiono: Estamos mesmo preparados para falar cientificamente de espiritualidade?

Neste momento, volto ao artigo do JAMA. Este cita entusiasticamente o Nurses’ Health Study que seguiu 74.000 mulheres, mostrando que o grupo daquelas que frequentavam cultos religiosos apresentou taxa de mortalidade menor em 26%. 

Em seguida, reforça a possível associação causal, dizendo que a análise multivariada não atenuou a força de associação. Como se essa observação resolvesse o conhecido problema de confusão residual típica desses estudos observacionais. 

Muito elucidativo é notar que, no mesmo Nurses’ Health Study (publicação de 1997), a análise multivariada também não atenuou a redução de mortalidade nas mulheres que usavam terapia de reposição hormonal (37% de redução de morte geral e 53% de redução de morte cardiovascular, mesmo depois do ajuste). Porém, hoje se sabe que este efeito protetor é falso, tendo o ensaio clínico WHI demonstrado aumento de eventos cardiovasculares. Será que não aprendemos ainda?

Portanto, essa e outras soluções dadas pelos autores do artigo para que aceitemos as evidências observacionais como robustas não passam de sofismas anticientíficos. 

Mas será que é factível realizar ensaios clínicos com intervenções espirituais? Em uma rápida revisão no PubMed, pesquisei a palavra “espiritualidade” no título, e 9.000 artigos foram detectados. Quando restringi a pesquisa a ensaios clínicos randomizados com palavra “espiritualidade” no título, ficaram 28 trabalhos que avaliam diferentes formas de intervenções espirituais, em diferentes tipos de condições clínicas.  Então, a realização de ensaios clínicos é factível em várias circunstâncias, tem sido feita e precisa ser um modelo de estudo melhor explorado. 

O que dizem os ensaios clínicos?

Avaliando a minha rápida pesquisa no PubMed, testemunhei ensaios clínicos positivos (mindfulness em enxaqueca) e outros negativos (religiosidade e depressão), não me parecendo clara a predominância numérica de nenhum dos tipos. Mas o principal achado é que esse corpo de evidência ainda é insuficiente, visto que a maioria dos estudos é de ensaios clínicos pequenos que, quando positivos, devem ser melhor interpretados como geradores de hipótese e, quando negativos, não afastam um real benefício. 

Os autores do artigo do JAMA também citam ensaios clínicos, mas, nitidamente, o artigo apresenta um único direcionamento de citação, visto que só relata trabalhos positivos. Isso pode estar sendo mediado pelo viés de confirmação de suas prováveis crenças.

Em paralelo, procurei, na Cochrane, revisões sistemáticas sobre o tema e estas concluem um baixo nível de evidência a respeito do assunto. Por  exemplo, uma revisão sobre o efeito de intervenções espirituais e religiosas para pacientes terminais conclui³:

"Nós encontramos evidências inconclusivas de que intervenções com componentes espirituais ou religiosos para adultos na fase terminal de uma doença podem ou não melhorar o bem-estar. Tais intervenções são subavaliadas."

Há várias formas de intervenções espirituais a serem testadas, assim como diferentes desfechos, variando desde aqueles relacionados à esfera de bem-estar como desfechos prognósticos. A maioria destes ensaios clínicos se refere a desfecho de bem-estar, como qualidade de vida, aceitação da finitude etc. Estes são desfechos importantes, mas devemos notar que sabemos menos ainda sobre os desfechos prognósticos. 

Naturalmente, se temos um baixo nível de evidência para a prova do conceito do benefício da espiritualidade, maior ainda é a incerteza quanto ao tamanho do efeito. 

Epílogo

Segundo Carl Sagan “ciência é não só compatível com espiritualidade, é uma profunda fonte de espiritualidade.” Louis Pauster falou “um pouco de ciência nos afasta de Deus, muito nos aproxima.”

Praticar espiritualidade é algo pessoal e não precisa de demonstração científica. Recomendar uma prática espiritual como parte de um tratamento ou definir que o sistema de saúde deve investir nessa causa é um ato profissional e necessita de comprovação científica. Que as duas coisas não se confundam, como me parece ter ocorrido no tão festejado artigo do JAMA.

Dada a importância do tema espiritualidade para a humanidade, esse deve ser tratado com imensa reverência científica. Muito temos que aprender e, para isso, precisamos reconhecer a incerteza de nosso conhecimento. Penetrar cientificamente em seus mistérios será mais fascinante do que adotar uma crença precipitada. 

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