Publicada em 19/06/2018 às 00h00. Atualizada em 19/06/2018 às 12h11

Futebol e corrida na areia da praia: características, benefícios e riscos

Nesta entrevista com a fisioterapeuta Ana Lúcia Barbosa Góes, confira tudo sobre a relação entre esportes e atividades físicas praticados na areia e seus impactos em nossos músculos, ossos e articulações.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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iSaúde Bahia – O futebol ou corrida na areia da praia fortalecem mais os músculos do que aqueles exercícios realizados nos gramados ou pistas? Quais músculos são os mais beneficiados nessa atividade física na areia? É melhor também para perder mais calorias?

Ana Lúcia Barbosa Góes – Depende. Quanto mais dura for a areia da praia, maior será a sobrecarga oferecida às articulações, devido ao impacto no chão, sendo que parte dele é transmitida para o corpo. Quanto mais macia for a areia, menor será o desgaste articular, porque a areia absorve parte do impacto. Em compensação, maior será a sobrecarga nos músculos, que terão que trabalhar mais, uma vez que o indivíduo “afunda” na areia. Resumindo, o futebol e a corrida, quando realizados em areia macia, podem sim ser um ótimo recurso para melhorar o desempenho muscular.

"Os músculos que mais se beneficiam com essas práticas na areia são os anteriores e posteriores de coxa e os glúteos. Mas é possível perceber melhora da força e resistência na musculatura de pernas, tronco e nos abdominais. "

Os músculos que mais se beneficiam com essas práticas na areia são os anteriores e posteriores de coxa e os glúteos. Mas é possível perceber melhora da força e resistência na musculatura de pernas, tronco e nos abdominais. E, mais do que apenas o fortalecimento de músculos específicos, a prática do futebol ou corrida trabalha o sistema muscular de forma integrada com os sistemas esquelético e neurológico, a partir de movimentos mais funcionais e coordenados.

Sim, essas atividades na areia macia exigem mais da musculatura e, consequentemente, aumentam a necessidade metabólica, fazendo com que o corpo gaste mais energia, perdendo mais calorias.

iSB – Quais são os perigos para articulações, ossos e mesmo músculos, nesse tipo de atividade?

Ana Lúcia Barbosa Góes – Se a areia da praia for mais dura, os perigos são parecidos com aqueles de correr em piso compactado (asfalto, grama, concreto), só que em menor intensidade. Devido ao impacto, podem acontecer lesões articulares em joelho e tornozelos, lesões de meniscos do joelho, canelite (que é uma condição bastante comum entre corredores), fissuras da tíbia (osso da perna), fraturas por estresse (em caso de prática de esporte intenso, sem períodos de recuperação após esforço) e fascite plantar (inflamação da fáscia do pé). 

Quando a areia da praia é macia, as lesões musculares são mais frequentes. Nos músculos, as lesões mais comuns são as contusões, estiramentos e lacerações. Contusões são compressões provocadas por golpes diretamente no músculo, muito frequentes em esportes de contato como o futebol. Estiramento muscular ou, como é mais conhecido, a contratura muscular, ocorre quando o músculo sofre uma tração durante um movimento rápido e/ou incoordenado, contrai como uma reação ao movimento, mas não consegue voltar para a posição de relaxamento, permanecendo contraído. É uma condição que pode ocorrer tanto no futebol como na corrida na areia. Lacerações são lesões da fibra muscular, também chamadas rupturas ou roturas musculares. As lacerações precisam de energia cinética de grande magnitude para ocorrer, não sendo lesões frequentes.

"Como a sobrecarga muscular é maior na areia macia, é importante ressaltar que pessoas que não estão muito acostumadas à prática dessas atividades nesse tipo de terreno podem, ainda, apresentar entorses de tornozelo e joelho."

Como a sobrecarga muscular é maior na areia macia, é importante ressaltar que pessoas que não estão muito acostumadas à prática dessas atividades nesse tipo de terreno podem, ainda, apresentar entorses de tornozelo e joelho. Quando a musculatura cansa, perde a capacidade de coordenar o movimento e de contrair com velocidade de reação adequada para proteger a articulação, podendo gerar um desequilíbrio neuromuscular e quem sofre com essa situação é a articulação, causando entorses.

iSB – Jogar futebol de areia descalço traz algum risco especial (além da possibilidade de furar o pé em algo) para músculos, ossos e articulações? E a corrida, é melhor que seja feita usando tênis?

Ana Lúcia Barbosa Góes – Descartando todas as questões relacionadas ao piso, como foram pontuadas na pergunta, tanto o futebol como a corrida deveriam ser realizados com a pessoa descalça. O corpo humano está preparado para se adequar aos mais diversos ambientes. Os pés, que são a base de sustentação do corpo, e que são as estruturas que estarão em contato direto com a areia da praia, são capazes de perceber a temperatura, a textura, a densidade, as inclinações e irregularidades da areia. A partir de todas essas informações, o cérebro é capaz de ajustar o movimento de acordo com os estímulos recebidos. Muitas vezes, o uso do tênis impede o corpo de perceber os estímulos do terreno irregular e, consequentemente, de realizar os ajustes necessários, o que pode favorecer lesões. Além disso, ainda tem a biomecânica da corrida/do futebol, em que é mais fácil acontecer a biomecânica próxima do ideal quando as pessoas estão descalças.

iSB – A areia fofa ou a mais firme (mais próxima à água) é a mais recomendada para a realização de exercícios como a corrida?

Ana Lúcia Barbosa Góes – Depende do objetivo do praticante com o exercício e de seu condicionamento prévio.

Na areia fofa, o praticante trabalha mais os músculos do glúteo, coxa, tronco, abdominais e pernas; melhora a coordenação, o controle muscular e a propriocepção (capacidade de perceber o corpo no espaço) com consequente melhora na estabilidade da articulação; gasta mais caloria do que em terrenos mais duros. No entanto, não é muito indicado para pessoas pouco condicionadas ou não acostumadas com esse terreno em função dos riscos de lesão.

A areia mais dura traz o benefício de desgastar menos a musculatura, o que é bom para quem está iniciando. A musculatura será trabalhada, mas numa escala menor. O risco maior para esse tipo de terreno seria o impacto do solo transmitido para as articulações do corpo, mas que, se comparado com o asfalto, ainda é menor na areia dura. Para que o impacto não se torne um problema, basta diminuir a intensidade do exercício.

iSB – Praias com terrenos inclinados são recomendadas?

Ana Lúcia Barbosa Góes – Se o praticante puder escolher o terreno, o melhor seria aquele mais plano possível. Terrenos inclinados provocam reações de ajustes e equilíbrio diferentes, entre uma perna e outra, e geram muitas informações para o cérebro organizar e responder com a reação adequada para cada estímulo, o que pode favorecer lesões.

No entanto, se o praticante não tiver opção e só lhe restar o terreno inclinado, minha sugestão é que ele diminua a intensidade do exercício e percorra a mesma distância na ida e na volta, para que o corpo passe pelas duas situações de desequilíbrio na mesma proporção. 

iSB – Para a recuperação de lesão em membros inferiores, qual modalidade de exercício na areia é a mais recomendada?

Ana Lúcia Barbosa Góes – Isso vai depender muito do tipo de lesão, do tempo de lesão, da estrutura lesionada (músculo, ligamento, tendão, osso), da gravidade e intensidade da lesão, da intervenção médica proposta (terapêutica conservadora ou cirúrgica) e do estadiamento da fase de reparo do tecido. Pensando em lesões musculoesqueléticas e na biomecânica, na forma como o corpo se movimenta e nas necessidades de movimento do ser humano, a primeira garantia que o fisioterapeuta deve ter é que essa pessoa seja capaz de ficar em pé sem ajuda de dispositivos para andar (órteses e muletas). A areia é uma superfície instável devido à sua irregularidade. Uma pessoa que não consiga se manter em pé em um terreno estável como o asfalto e o concreto, não deve ser submetida a um terreno irregular como a areia. É preciso garantir a segurança do cliente. Em um segundo momento, é possível promover atividades que façam a pessoa andar em diversas direções (para frente, para trás, de lado), atividades que envolvam andar com mudança de direção (propriocepção leve), evoluindo para trotes leves, sequências de agachamento e corrida leve, podendo aumentar a carga do trabalho com sprints (tiros curtos de corrida) e corridas de maior duração.

iSB – Tem alguma dica para dar sobre o alongamento e o aquecimento antes dos exercícios físicos na areia da praia?

Ana Lúcia Barbosa Góes – Existe uma discussão muito forte sobre o que fazer antes da prática de um exercício físico. Alguns defendem o alongamento de curta duração (menos de 15 segundos) e outros, contrários ao alongamento, defendem o aquecimento como a melhor forma de preparar o músculo para um exercício.

Considerando que o objetivo de um ou do outro é avisar, através de um estímulo, para o sistema muscular que uma atividade será desenvolvida em pouco tempo; e considerando que o alongamento é uma ação contrária à que se espera que o músculo realize na atividade, sou a favor do aquecimento antes dos exercícios. E esse aquecimento pode e deve ser realizado em acordo com a atividade proposta. Se a pessoa vai correr ou jogar futebol, ela pode aquecer começando com uma caminhada leve, depois mais intensa, um trote até chegar no pace (ritmo) adequado para ela. E isso não precisa durar mais do que três a cinco minutos. No caso do futebol, o aquecimento pode envolver também movimentos rotacionais de braços e pernas, agachamentos, saltos, corridas com paradas súbitas, entre outros, pois são movimentos utilizados durante a prática esportiva.

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