Publicada em 03/01/2019 às 13h06. Atualizada em 09/01/2019 às 08h53

Intervenção psicoterapêutica: modelo de intervenção em Gestalt-Terapia

Conheça a origem dessa terapia e o que diziam seus fundadores.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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Frederick Perls, fundador da Gestalt-Terapia (link para: Transtorno de ansiedade generalizada: uma perspectiva da Gestalt-Terapia) afirmava que todos os indivíduos são capazes de sair de uma posição inerte, onde são apoiados e regulados pelo ambiente, para uma posição onde se autorregulam e se autoapoiam. O objetivo da Gestalt-Terapia é fazer com que o indivíduo emerja para essa condição, e, para que isso aconteça, é preciso uma conscientização desobstruída da hierarquia das necessidades. Indivíduos autoapoiados e autorregulados têm um claro delineamento da formação figura-fundo diante de suas necessidades.

Quanto menos perceptivo de si próprio é o indivíduo, maior será o seu empenho em se manter no controle das situações. O princípio da hierarquia das necessidades está constantemente operando em todos os indivíduos; para que a situação mais importante venha a emergir, basta que o indivíduo esteja consciente da experiência na própria experiência o tempo todo, sem tentar controlá-la.

Você não guia um carro de acordo com uma programação do tipo ‘Eu quero guiar a 65km por hora’. Você guia de acordo com a situação. Você guia a certa velocidade de noite, guia a outra velocidade quando há trânsito, guia diferente quando está cansado. Você obedece à situação. 

awareness –  ou conscientização – seria então o ponto-chave para o tratamento terapêutico de indivíduos com TAG. Cabe ao terapeuta despertar o indivíduo para o continuum de consciência, ou seja, fazer com que o indivíduo viva cada nova Gestalt na sua vida em plenitude. Dessa forma, o indivíduo viverá no aqui e agora e deixará que a sabedoria do organismo controle os seus atos. “Uma das preposições básicas da teoria da Gestalt é que todo organismo possui a capacidade de realizar um equilíbrio ótimo consigo e com o seu meio”.

"Cabe ao terapeuta despertar o indivíduo para o continuum de consciência, ou seja, fazer com que o indivíduo viva cada nova Gestalt na sua vida em plenitude."

É preciso que o terapeuta esteja atento para como o sujeito experiencia sua realidade, esforçando-se para diminuir as interrupções do ciclo de contato. Viver no presente é, por si só, um ato terapêutico, uma vez que proporciona ao indivíduo condições para satisfazer a sua hierarquia de necessidade e viver o ciclo de contato de forma contínua.

O processo terapêutico consiste em um esforço em direção à autorregulação, ou seja, é a busca da maturidade psicológica para emergir do apoio e da regulação ambiental, para o autoapoio e a autorregulação.  A chave para isso é um equilíbrio ótimo consigo e com o meio. O sujeito deve explorar o awareness, ou seja, estar consciente de seus atos o tempo todo.  Dessa forma, ele poderá fazer escolhas e organizar a sua vida de maneira autêntica, sendo o único responsável por suas escolhas. Quando a pessoa não age dessa maneira, ela faz de sua vida um ciclo vicioso de situações incompletas.

"Para restaurar a capacidade homeostática do sujeito, o terapeuta deve auxiliá-lo a quebrar bloqueios, fachadas, fingimentos e defesas deste, estimulando, assim, sua autoafirmação."

Para restaurar a capacidade homeostática do sujeito, o terapeuta deve auxiliá-lo a quebrar bloqueios, fachadas, fingimentos e defesas deste, estimulando, assim, sua autoafirmação. Para isso, pode-se trabalhar individualmente ou com grupos terapêuticos – onde se observa o discurso, tom da voz, os gestos e a linguagem corporal –, buscando compreender o que os indivíduos estão evitando e como estão se prejudicando.  O terapeuta também pode usar de exercícios para que o paciente reconheça suas próprias sensações, percepções e emoções.

Para a teoria da Gestalt-Terapia, a relação terapêutica é uma das principais ferramentas no processo terapêutico, dessa forma, o foco terapêutico sai das mãos do terapeuta para a relação terapeuta/cliente. Na prática da Gestalt-Terapia, existe disponibilidade por parte do terapeuta de caminhar junto de seu cliente, em um processo humano. Cabe ao profissional ter características, como empatia, capacidade de ouvir e prestar atenção no outro, não julgar, estar disponível para um encontro genuíno, ser curioso, criativo e observador, além de estar pronto para o inesperado, reconhecendo sua pequenez diante do outro.

Entre os principais objetivos da Gestalt-Terapia está o tornar o cliente consciente, sobre a forma como se relaciona consigo e com o mundo a sua volta e, assim, construir um caminho de maior autonomia e independência, baseando-se em seu autossuporte e contando com seus próprios recursos. No processo terapêutico, o paciente aprende a usar seus sentidos internos e externos para que possa ser autossustentado e autorresponsável. A Gestalt-Terapia enfatiza que, o que quer que aconteça, é no aqui e agora, e que a experiência é mais confiável do que a interpretação.

No caso de algumas psicopatologias, incluindo o Transtorno de Ansiedade Generalizada, sempre que necessário se faz a associação de psicoterapia com o uso de psicofarmácos, administrada pelo médico psiquiatra.  A necessidade de intervenção medicamentosa se faz necessária para que o paciente possa dispor de equilíbrio mínimo que o possibilite uma melhor interação com a psicoterapia. A interação do trabalho multidisciplinar não se mostra conflitante, pelo contrário tem apresentado resultados pragmáticos que auxiliam na remissão de sintomas.

Etiologia e intervenção farmacológica

A explicação fisiológica mais aceita para o Transtorno de Ansiedade Generalizada é a Inibição Neural Insuficiente. No cérebro de pessoas ansiosas, há uma excessiva atividade neurológica responsável pela estimulação emocional, gerando sintomas ansiosos. Essa atividade neural excessiva acontece devido a uma falha dos neurônios inibidores que deixam o cérebro em alto nível de estimulação, fazendo com que vivenciemos essa estimulação como ansiedade. O GABA é o principal neurotransmissor inibidor do sistema nervoso dos mamíferos. Ele controla outros inibidores neurais e, estando em baixo nível, é um dos principais fatores para o TAG. 

A decisão quanto à prescrição de uma droga ansiolítica para pacientes ansiosos deve ser analisada conforme o quadro estabelecido, a fim de estabelecer um plano terapêutico associando psicoterapia e drogas ansiolíticas quando necessário. A retirada do medicamento deve ser feita de forma gradual. A medicina moderna tem apresentado grande avanço no desenvolvimento de fármacos para o uso de Transtornos de Ansiedade, principalmente no Transtorno de Ansiedade Generalizada, onde, outrora, o uso de medicação era limitado aos benzodiazepínicos (BZD).  “As três principais opções de medicamentos a serem considerados nesse emprego são a buspiridona, os benzodiazepínicos e os Inibidores Seletivos da Recaptação de Serotonina (ISRSs) ”.

Os benzodiazepínicos são um tipo de ansiolítico de efeito rápido, usados principalmente em tratamentos de curto prazo ou na fase inicial de um tratamento. Têm sido utilizados em grande escala devido aos seus efeitos rápidos e de baixo custo. A buspiridona é tão eficiente quanto os benzodiazepínicos, no entanto não têm qualquer eficácia caso haja patologias associadas. Aparentemente, não acarreta risco de abuso, abstinência e dependência. Sua principal desvantagem é um início de ação demorado, levando de 2 a 3 semanas para que surjam seus primeiros efeitos. Os Inibidores Seletivos da Recaptação de Serotonina (ISRSs) são utilizados principalmente no Transtorno de Pânico e Transtorno Obsessivo-Compulsivo. No TAG, sua eficácia se dá devido à comorbidade com essas patologias.

O uso de medicação é uma realidade no tratamento dos quadros ansiosos, mas é preciso salientar a sua queda no nível de eficácia ao longo dos anos. Deve-se sempre estar ciente de que a medicação trata o sintoma, mas as raízes da ansiedade devem ser observadas, estudadas e, preferencialmente, trabalhadas durante o tratamento psicoterapêutico.

Considerações finais

O Transtorno de Ansiedade Generalizada faz parte de um grupo que constitui grande importância na saúde individual e pública. Os custos associados a essa patologia, que incluem profissionais de saúde, fármacos, afastamento de suas funções, entre outros, são um alerta para a importância da prevenção do TAG.

O TAG acarreta prejuízo significativo na vida do sujeito, contudo, conforme se verificou, vários tratamentos têm se mostrado eficazes no combate da patologia.  É importante salientar que, de acordo com a Gestalt-Terapia, a ansiedade é a tensão provocada por planejamentos e ensaios futuros; partindo dessa premissa, pode-se concluir que tentar erradicá-la apenas por métodos farmacológicos pode significar não fazer nada para compreender a situação de vida do sujeito.

Devido à linha tênue entre o normal e o patológico na ansiedade, é importante desmistificar ao senso comum o que é o TAG, com o intuito de fazer com que os sujeitos que tenham a patologia procurem auxílio médico e psicológico, e identificar sujeitos com prognóstico para TAG. Os prejuízos para o transtorno vão além dos níveis sociais: pesquisas recentes apontam um aumento na taxa de mortalidade para pacientes com transtornos crônicos de ansiedade devido a problemas cardiovasculares (link para: www.isaudebrasil.com.br/noticias/detalhe/noticia/qual-a-relacao-do-estado-psicologico-com-as-doencas-do-coracao/).  

A identificação precoce dos Transtornos de Ansiedade pode evitar uma série de repercussões negativas na vida do indivíduo, tais como evasão escolar, sintomas secundários ao transtorno, problemas psiquiátricos associados, entre outros.  

Leia também:

Referências:

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