Publicada em 09/08/2018 às 10h39. Atualizada em 10/08/2018 às 08h27

Mais rigor científico, mais promoção da saúde

Escola Bahiana de Medicina e Saúde Publica lança Centro de Medicina Baseada em Evidências.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública lança o seu Centro de Medicina Baseada em Evidências, que vai facilitar o reconhecimento da instituição como uma entidade pautada em evidências científicas e ampliar o relacionamento institucional com outros centros mundo afora. A ideia da criação do Centro vem do fato de que um curso médico, prioritariamente, deve ser pautado em evidências científicas. A iniciativa é fruto do trabalho iniciado pelo professor do curso de Medicina Luis Cláudio Correia, há dez anos, quando começou a ministrar a disciplina Raciocínio Clínico Baseado em Evidências. Segundo Luis Claudio, que é também coordenador do novo centro, os principais objetivos são melhorar a qualidade da pesquisa científica dos cursos de medicina e de saúde em geral, assim como fazer com que o resultado da pesquisa ultrapasse os muros da academia. “A gente tem que fazer com que os nossos clientes, a sociedade em geral, entenda o que é uma decisão baseada em ciência para que esse diálogo de uma decisão compartilhada seja feito entre médico e paciente”, afirma. Nesta entrevista, ele fala também de fake news científica e da importância da pesquisa científica na promoção da saúde.

iSaúde Brasil A Baiana acaba de lançar o Centro de Medicina Baseada em Evidências. Por favor, fale um pouco sobre essa iniciativa.

"Medicina baseada em evidências é a proposta de que decisões médicas sejam norteadas por evidências científicas ou por trabalhos científicos."

Luis Cláudio Correia - Medicina baseada em evidências é a proposta de que decisões médicas sejam norteadas por evidências científicas ou por trabalhos científicos. Antes de optar por uma conduta e decidir que meu paciente, por exemplo, precisa ser operado, é importante que essa decisão seja baseada em trabalhos científicos que demonstrem a eficácia e segurança dessa cirurgia, pois não há razão em propor uma cirurgia só porque eu acho que ela é benéfica, ou propor um medicamento ou um exame somente porque eu acho que eles são respectivamente eficazes ou acurados. Eu preciso da demonstração. A gente precisa se nortear pela comprovação científica daquilo que nós “achamos”, porque é muito comum a gente achar que alguma coisa funciona quando, na verdade, não funciona. Então a medicina baseada em evidências é a medicina norteada por conceitos demonstrados cientificamente. Parece óbvio, mas, na prática clínica, é frequente a medicina baseada no “achismo”, mas, mesmo nesse “achar” sendo baseado em lógica, nem sempre a lógica prevalece. Quando a gente testa, às vezes a gente pode se surpreender. O teste a que eu estou me referindo é, justamente, o trabalho científico que vai comprovar que aquele é um caminho racional. 

iSaúde Brasil - Como e quando surgiu o conceito de medicina baseada em evidências na prática clínica? Como ele se relaciona com a biomedicina?

Luis Cláudio Correia - O pensamento de que decisões médicas devem ser norteadas por evidências existe desde quando surgiram evidências científicas em medicina, no início do século passado, quando começaram a haver os primeiros trabalhos epidemiológicos e também ensaios clínicos randomizados. Desde quando existe isso, existe a proposta de uma medicina mais científica. No entanto, o termo "medicina baseada em evidência científica" surgiu na década de 1980, cunhado por um grupo canadense da Universidade McMaster. David Sackett foi o médico que, pela primeira vez, definiu isso dessa forma. É um nome que existe a partir da década de 80 como um movimento que reforça a importância de conhecermos as evidências, analisarmos criticamente a qualidade das evidências e aplicarmos as de boa qualidade. Mas isso já era feito, simplesmente ganhou o nome com intuito de reforçar essa ideia, que foi se desenvolvendo ao longo de todo o século 20. Precisa ser mais enfatizada em contraposição a algumas coisas que existem na medicina e que são do século passado, como o raciocínio mágico, quase religioso, que acredita com “fé nas coisas”, enquanto medicina baseada em evidência traz a importância do ceticismo: “...eu tenho que ser cético, tenho que testar e só afirmar o que está comprovado”. Não é diferente para nenhuma outra área. Se eu sou físico, eu não vou afirmar alguma coisa com base apenas na minha lógica. Eu tenho que confirmar que a minha lógica é verdadeira. A própria Teoria de Einstein veio a ser confirmada depois. A mesma acontece na medicina: eu posso achar que algo é benéfico para meu paciente, mas eu preciso confirmar experimentalmente. É um paradigma científico para uma ciência que já existe aí há muito tempo. 

iSaúde Brasil - No que ele pode alterar a prática médica e/ou a pesquisa científica?

Luis Cláudio Correia - A ideia da criação do centro vem do fato de que um curso médico tem que ser pautado em evidências científicas. Nem sempre é dada a devida ênfase à essa necessidade nos cursos de Medicina e de saúde, em geral. Não é a ideia prioritária desses cursos. Portanto a gente precisa evoluir para fazer disso algo cada vez mais presente, e foi aí que eu comecei com a disciplina Raciocínio Clínico Baseado em Evidências no sexto semestre do curso de Medicina da Bahiana, há dez anos. Isso ganhou mais forma nos últimos anos: fizemos alguns simpósios e, na pós-graduação, a iniciativa “choosing wisely” (uma iniciativa pró-medicina baseada em evidências), além de criarmos um grupo de pesquisa... Tudo isso foi crescendo na Bahiana a ponto de percebermos a importância de criar um centro que vai facilitar o reconhecimento da nossa escola como uma instituição pautada em evidências e um relacionamento dela com outros centros mundo afora. 

"O centro tem alguns objetivos. Um primeiro é promover o pensamento científico no raciocínio clínico. O segundo objetivo é alfabetizar a sociedade em relação ao pensamento científico."

O centro tem alguns objetivos. Um primeiro é promover o pensamento científico no raciocínio clínico. O segundo objetivo é alfabetizar a sociedade em relação ao pensamento científico. Não podemos ficar só entre nós, profissionais de saúde, discutindo medicina baseada em evidências. A gente tem que fazer com que os nossos clientes, a sociedade em geral, entenda o que é uma decisão baseada em ciência para que esse diálogo de uma decisão compartilhada seja feito entre médico e paciente. Portanto, temos que começar a falar mais, para a população em geral, sobre o tema. Para que o paciente entenda e passe a ser mais crítico com relação ao que se passa e ao que é feito com ele, e assim a gente evolui como um todo, e não fica numa discussão entre quatro paredes voltada apenas para o meio acadêmico. 

iSaúde Brasil - Pode explicar o conceito de "tecnologias leves"?

Luis Cláudio Correia - Eu tenho usado a expressão “tecnologias leves” porque se fala muito em “ciência, tecnologia e inovação”. Quando a gente pensa em ciência, a gente pensa numa atividade produtora de tecnologias. Por exemplo: eu inventei uma nova máquina ou a ciência inventou um novo aparelho de ressonância magnética – que é uma coisa impressionante, ressonância magnética permite ver o corpo por dentro... Isso vem da ciência, vem do conhecimento científico. Mas não é só tecnologia pesada que vem do conhecimento científico. O que eu chamo de “tecnologia leve” é a tecnologia do pensar, do pensamento. E a medicina baseada em evidências científicas nos traz uma tecnologia de como pensar para tomar a melhor decisão em prol do nosso paciente – então a gente deve chamar isso também de tecnologia.

iSaúde Brasil - Fale um pouco sobre a importância da pesquisa científica na promoção da saúde e como analisa a recente polêmica do corte nas bolsas da Capes.

Luis Cláudio Correia - O conceito de medicina baseada em evidências científicas aparece de forma importante nessa questão do corte do financiamento de pesquisas por parte do Ministério da Educação, no caso das bolsas da Capes. Faz parte da atividade medicina baseada em evidências analisar criticamente a qualidade de um trabalho científico para ver se eu vou acreditar naquela informação, e também analisar criticamente a utilidade e relevância de um resultado científico. Esse resultado é relevante o suficiente para influenciar na minha conduta? Portanto, numa época de escassez de recursos (nós estamos vivendo uma crise econômica) é um momento bom para provocar a nossa reflexão em relação à qualidade e utilidade das pesquisas que consomem esses recursos. Que tal fazer menos pesquisa, e pesquisas de melhor qualidade? Evitar pesquisas de má qualidade que tragam informações duvidosas e usar nossos recursos para melhores trabalhos, com resultados úteis e relevantes para a nossa atividade? Não estou defendendo o corte de recursos, mas em um momento de escassez é uma hora de refletir se nós estamos sendo eficientes na utilização dos recursos. Existe muito trabalho financiado que resulta em estudos de má qualidade metodológica e também de pouca utilidade. É uma provocação para a gente pensar em qualidade metodológica e utilidade das pesquisas que fazemos.

iSaúde Brasil - Além do centro, está sendo lançado também um novo periódico científico, o Journal of Evidence-Based Healthcare, com convocatória para pesquisadores de todo o mundo. Qual será o diferencial do Evidence? 

Luis Cláudio Correia - A Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública tem um grupo de jornais open source que estão disponíveis para leitura e para publicação sem custos. São jornais muito sérios, com muito critério de análise dos trabalhos, revisão por pares para que eles sejam aceitos, e nós julgamos que uma boa iniciativa seria criar um jornal dedicado ao tema medicina baseada em evidências. Um jornal voltado para a integridade científica, no sentido de publicar trabalhos que fazem análise crítica em relação a outros trabalhos; no sentido de publicar trabalhos que nos tragam informações relevantes para o pensamento médico baseado em evidências. Então o Journal Evidence é uma das iniciativas do centro em prol de uma medicina mais científica e de uma pesquisa médica de melhor qualidade, mais reprodutível, com mais transparência e com mais integridade científica. Vamos publicar ainda artigos que analisam como a literatura médica se comporta e vai publicar trabalhos de qualidade para tomada de decisão médica. Esse é que é o escopo do nosso jornal.

 

 

iSaúde Brasil - Com relação à recente polêmica sobre os grupos anti-imunização, como o senhor vê o crescimento também das “fake news científicas"?

Luis Cláudio Correia - Esse problema das fake news científicas é o mais sério porque elas se embasam em artigos. São fake news embasadas em trabalhos de má qualidade cuja conclusão pode estar errada. Eu costumo dizer que há trabalho com conclusão para qualquer coisa que a gente queira afirmar, por isso é preciso diferenciar os trabalhos de boa e má qualidade. Então quando alguém gera uma fake news científica essa pessoa está citando um trabalho publicado com uma conclusão em prol da ideia que ela pretende divulgar. Só que esse trabalho pode ter um resultado falso, ter problemas metodológicos. Essa questão dos grupos anti-vacinas, isso é um escândalo. Uma das pessoas que defendem essa ideia anti-vacina publicou um trabalho na revista Lancet, associando vacina a autismo. Está lá, publicado, esse trabalho há alguns anos atrás, mas foi descoberto que houve má conduta científica na confecção desse trabalho e ele foi retirado. Então muitas vezes a fake news científicas tem o trabalho lá publicado, porém isso não quer dizer que é uma “notícia verdadeira”.

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