Publicada em 20/11/2018 às 12h51. Atualizada em 20/11/2018 às 13h06

“Na ciência, a maconha é a grande revolução do século 21”

No último mês de outubro, o Canadá se tornou o segundo país do mundo a legalizar o uso da maconha para fins recreativos. Quais as consequências disso?

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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"A sociedade já não aguenta violência, deseja uma medicina melhor e pode estar perto de compreender que todas as substâncias devem estar no mercado legal, com bula, direitos do consumidor e controle regulatório do Estado."

No último mês de outubro, o Canadá se tornou o segundo país do mundo a legalizar o uso da maconha para fins recreativos, depois do Uruguai, que adotou a medida em 2013. Além disso, antes da abertura de pontos de venda, o governo federal comunicou que a Justiça não só perdoaria todos os indivíduos com condenações por posse de até 30 gramas de maconha, que é o novo limite legal, como também permitiria a posse de até 30 gramas, podendo cada cidadão cultivar até quatro pés de maconha em casa. Como o tema ainda é um tabu no Brasil e tende a ficar sem ter nenhum projeto de regulamentação votado nos próximos quatro anos, dado o perfil do novo Congresso Nacional e do presidente eleito, o iSaúde Brasil conversou com o neurocientista, professor titular e diretor do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Sidarta Ribeiro, um dos mais importantes pesquisadores brasileiros da área, com reconhecimento internacional, Ph.D. em Comportamento Animal, pela Universidade Rockefeller (2000), e com pós-doutorado em Neurofisiologia, pela Universidade Duke (2005). Para ele, a psiquiatria, a neurologia, a oncologia e a geriatria do século 21 passam pela assimilação da maconha e seus canabinoides. Confira.

iSaúde Brasil – Recentemente, o uso recreativo da maconha passou a ser legal no Canadá. Como você acha que essa decisão pode impactar na vida dos canadenses e do governo daquele país?

Sidarta Ribeiro – A julgar pelas experiências bem-sucedidas do Colorado e da Califórnia, nos Estados Unidos, o Canadá deve experimentar mais crescimento econômico e menos violência relacionada a esse mercado enorme, que até agora permanecia invisível e sem pagar impostos, sem controle de qualidade e sem vínculos saudáveis com a sociedade.

iSaúde Brasil – O que dizem as principais pesquisas científicas sobre os usos da maconha e dos canabinoides? Há um consenso entre os estudiosos quanto a ela trazer benefícios à saúde?

Sidarta Ribeiro – Do ponto de vista científico, a maconha é a grande revolução do século 21. Seus usos terapêuticos abrangem muitas das doenças que mais afligem o ser humano hoje em dia: câncer, epilepsia, doença de Parkinson, Mal de Alzheimer, dores neuropáticas, depressão e várias outras. Existe evidência recente, em modelos animais, de que o THC, importante constituinte da maconha, reverte os prejuízos cognitivos típicos do envelhecimento. A psiquiatria, a neurologia, a oncologia e a geriatria do século 21 passam pela maconha e seus canabinoides. Por sinal, isso é algo que países desenvolvidos, como Israel, já sabem muito bem.

iSaúde Brasil – O que faz com que muitos países, o Brasil inclusive, façam tanta distinção entre substâncias, como o álcool, a nicotina e o princípio ativo da canabis, o THC, sendo que a lei já permite o uso e o comércio das duas primeiras drogas há décadas, e elas continuam sendo apontadas como as mais prejudiciais à saúde? O que de pior o consumo da maconha pode causar a um indivíduo comum?

Sidarta Ribeiro – Uma pessoa comum que tenha consumido maconha em excesso pode experimentar sonolência excessiva e dificuldades de se lembrar do que fez há pouco. Isso pode ser angustiante, mas o efeito se reverte em poucas horas. Do ponto de vista fisiológico, a maconha tem toxicidade muito baixa, ninguém morre de overdose por causa de maconha. Para comparação, quase qualquer remédio disponível na farmácia causa overdose a partir de certa quantidade. Para as pessoas comuns, que não integram os grupos de risco da maconha, o seu consumo é muito mais seguro do que o de substâncias, como o tabaco e álcool.

iSaúde Brasil – Como ficou a questão do uso do canabidiol para doenças que causam sofrimento e convulsão? Já há legislação ou apenas medidas liminares? 

Sidarta Ribeiro – Já existe a permissão para utilizar medicamentos à base de canabidiol (CBD), assim como já existe nas farmácias um medicamento à base de CBD e THC, com o nome de Mevatyl. O problema é que esse medicamento custa mais de R$ 2,5 mil, totalmente fora do que uma pessoa de baixa renda – e mesmo de classe média – pode dispender mensalmente com um medicamento. É preciso regular o autocultivo e as cooperativas de cultivo solidário para que a maconha possa ser utilizada como fitoterápico a preço de custo.

iSaúde Brasil – Muito se fala, no Brasil, sobre a necessidade de descriminalizar as drogas, por motivos que vão desde a falência da chamada “guerra às drogas”, passando pelo imenso poderio do tráfico e pela expectativa de altos ganhos econômicos. Como o senhor vê a questão?

Sidarta Ribeiro – Existe um sistema invisível enorme por trás do narcotráfico, que, evidentemente, não tem nenhum interesse no fim da guerra às drogas. Mas, felizmente, do outro lado, existe uma sociedade ainda mais numerosa que já não aguenta violência, deseja uma medicina melhor e pode estar perto de compreender que todas as substâncias devem estar no mercado legal, com bula, direitos do consumidor e controle regulatório do Estado. É o caminho progressivamente adotado nos países mais avançados do mundo. Não precisamos “inventar a roda”.

iSaúde Brasil – No caso do Canadá, a nova legislação permite o cultivo doméstico e a posse de até 30 gramas da canabis. O senhor acha que essa também foi uma boa medida, uma vez que o Estado não estaria apenas tirando o plantio, o consumo e o porte da ilegalidade, como também entregando essa “nova” e lucrativa atividade econômica na mão dos grandes empresários?

"...o autocultivo e as cooperativas para cultivo solidário são duas ótimas maneiras de implementar as mudanças, pois permitem uma relação com a planta que não envolve lucro."

Sidarta Ribeiro – Sim, creio que o autocultivo e as cooperativas para cultivo solidário são duas ótimas maneiras de implementar as mudanças, pois permitem uma relação com a planta que não envolve lucro. Além disso, é importante garantir que o pequeno empreendedor possa participar do mercado, e não apenas as grandes empresas. Creio que o que ocorreu com as cervejas artesanais é um exemplo de como mais pessoas podem se beneficiar de um novo mercado legal, socialmente responsável e inclusivo.

iSaúde Brasi – Há, na Câmara dos Deputados, um projeto sobre a descriminalização de drogas, de autoria do deputado Jean Wyllys (PSOL/RJ), que prevê uma regulamentação do uso da planta em toda a sua cadeia produtiva. O senhor acha possível que, com a nova formação que o Congresso Nacional terá, a partir de janeiro de 2019, e sob o comando do novo presidente, o Brasil avance nessa questão?

Sidarta Ribeiro – Num primeiro momento, é evidente que não. Porém, é possível que, a médio prazo sim. As pessoas são inteligentes e aprendem com a experiência. O aumento da intensidade da guerra às drogas vai gerar tantas consequências negativas que oxalá as pessoas perceberão em breve que não existe droga demoníaca, nem droga divina: todas as substâncias podem ser remédio ou veneno, a depender da dose, modo e contexto de uso. No Brasil, temos um completo desequilíbrio nessa questão, com drogas de alto risco, como o álcool, sendo glorificadas por jogadores de futebol na TV, que as crianças assistem, enquanto outras, como a maconha, são proibidas a despeito de suas amplas propriedades terapêuticas e de seu baixo risco. Note que tanto a maconha quanto o álcool têm uso recreativo, então a discrepância na regulação dessas drogas reflete apenas a hipocrisia e os conflitos de interesse.

iSaúde Brasil – O senhor acredita que a manutenção da maconha na ilegalidade contribui para o fortalecimento do tráfico e o aumento da criminalidade?

Sidarta Ribeiro – A guerra às drogas aumenta a violência e fortalece o crime, entregando de bandeja nossos jovens para a formação criminal brutalizadora das cadeias. A medicina do século 21 está cada vez mais baseada no sistema canabinoide, é um avanço científico irreversível, não tem como segurar isso. Seria como, na década de 1950, proibir a penicilina. Não faz sentido. O uso recreativo vai na mesma direção, pois a maconha vem sendo progressivamente legalizada ou descriminalizada em diversos países. Se EUA, Canadá e vários países da Europa estão permitindo o uso recreativo da maconha e gerando receitas legais para seus países, se os próprios EUA, que inventaram a proibição, já estão desembarcando disso, porque vamos insistir numa política ineficaz e dolorosa? É como tentar apagar fogo com gasolina. Somente a legalização e regulamentação de todas as drogas, de modo isonômico segundo seus riscos reais para a saúde humana, pode realmente trazer paz.

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