Publicada em 09/01/2019 às 09h00. Atualizada em 09/01/2019 às 09h59

Por que estamos perdendo a luta contra o Aedes aegypti?

Estamos sob risco constante de surtos e epidemias por arboviroses?

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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Segundo estimativas recentes, nos últimos cinco anos, o Aedes aegypti custou R$ 2,2 bilhões à sociedade brasileira. Todos os anos, são investidas enormes quantias de recursos públicos em sua prevenção. Esse gasto, no entanto, não só não atinge resultado concreto – visto que o Brasil sofre há 32 anos com epidemias de dengue – como não cobre também os custos de tratamento das crianças com microcefalia, de reumatismo provocado pela Chikungunya, que pode durar meses, ou mesmo as mortes, pois não há preço que pague pelo nosso maior bem: a vida. Quem faz o alerta é o pesquisador Artur Dias Lima, doutor em Biologia Parasitária pela Fundação Oswaldo Cruz – IOC/Fiocruz. Nesta entrevista exclusiva ao iSaúde Brasil, ele chama atenção para os problemas relacionados ao inimigo “número 1” do Brasil e de outros 100 países. Com cerca de 5mm de tamanho, quatro linhas pareadas no dorso do tórax e patas com manchas brancas, o Aedes aegypti é extremamente urbanizado, geralmente ataca durante o dia e se prolifera dentro das casas e circunvizinhanças. É responsável por transmitir dengue, zika, chikungunya e febre amarela urbana. Essas doenças resultam em: mortes, hospitalizações, más-formações, prejuízos financeiros elevados aos cidadãos brasileiros e ao erário público, incapacidade ao trabalho e perdas de produtividade. Confira!

iSaúde Brasil – Quando a dengue foi diagnosticada no Brasil?

Artur Dias Lima – O nome dengue vem da expressão ki-dengu pepo, que, em suaíli, idioma oficial do Quênia, significa algo como “ataques de espíritos do mal”. A doença foi diagnosticada no Brasil no final do século 19. No início do século 20, houve a identificação do Aedes aegypti como transmissor da febre amarela urbana, o que alavancou a efetivação de importantes medidas de controle do mosquito no Brasil. Lembro bem quando tive dengue, em 1996. Uma coceira que beirava o insuportável, febre, manchas vermelhas por todo o corpo e dores nas articulações, de cabeça e “atrás dos olhos”: pacote completo, conhecido cientificamente como dengue clássica. Daí também a doença ter sido conhecida como “febre quebra-ossos”, pelas dores nas articulações. 

iSaúde Brasil – O Brasil completou 32 anos sucessivos de epidemias de dengue em 2018. Quais os fatores que levaram a essa repetida emergência em saúde pública? 

Artur Dias Lima – Na década de 50 do século passado, o Aedes aegypti chegou a ser erradicado do Brasil. No entanto, países vizinhos não tiveram o mesmo êxito e esse terrível mosquito foi reintroduzido em nosso país. A urbanização desorganizada, desmatamento, dificuldade de acesso de agentes em bairros considerados “perigosos”, desinformação em educação em saúde e vacina inacessível financeiramente para a maioria da população são alguns dos principais fatores que favorecem sua permanência e multiplicação. Dados recentes do IBGE mostram que 1/3 dos domicílios do Brasil não têm esgotamento sanitário. Apesar de o abastecimento de água ter apresentado melhorias nos últimos anos, nem sempre é regular, havendo, portanto, a necessidade de estocá-la em baldes, túneis, ou outros recipientes, que servem de local para a proliferação de insetos aquáticos, como o Aedes aegypti, e a também importante transmissora de doenças, a muriçoca/pernilongo Culex quinquefasciatus. No que diz respeito ao abastecimento de água, os poderes públicos precisam fiscalizar melhor as empresas prestadoras desse serviço, para que seja constante a oferta de água, evitando armazenamentos inadequados. Estamos estudando, por exemplo, Salvador, e temos observado que os bairros cuja falta de água acontece constantemente apresentam maiores índices de infestações pelo Aedes aegypti e, consequentemente, aumento de casos de arboviroses. Temos observado também que os poderes públicos e as universidades estão divulgando sempre os cuidados e as medidas de controle contra esses mosquitos, mas, realmente, isso não tem sido suficiente. 

iSaúde Brasil - Falta também colaboração por parte da população?

Artur Dias Lima – Boa parte da população ainda não colabora de forma efetiva, seja por displicência, falta de cuidado ou de condições sociais e educação em saúde adequadas. Alguns criadouros do mosquito ainda são ignorados pela maioria da população e dos poderes públicos, tais como bueiros, praças públicas, coletores de lixo, calhas, telhados e ralos em geral, que são excelentes e comprovados criadouros artificiais do Aedes aegypti. Como entomologista de formação, constantemente preocupado, estou sempre em fiscalização e observação, no condomínio e bairro onde resido e nos locais onde trabalho. O LIRAa (Levantamento Rápido de Índices de Infestação pelo Aedes aegypti) de 2018 da Bahia, por exemplo, apontou que 320 cidades, 3 em cada 4 municípios do nosso Estado, estão em situação de alerta ou risco de surtos de dengue, zika e chikungunya. É preciso formar e recrutar pessoas para com esse compromisso. Está faltando formação de entomologistas e de novos agentes de endemias, mal remunerados e, na sua maioria, desestimulados diante da sua grande importância social.

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