Publicada em 24/08/2011 às 10h37. Atualizada em 24/08/2011 às 22h28

Psicologia X Contemporaneidade

Em entrevista exclusiva ao iSaúde Bahia, a psicóloga e psicanalista Mônica Daltro fala sobre violência, relações sociais e o papel da psicologia na sociedade contemporânea.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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Relações presenciais e virtuais. Jovens de classe média e alta cometendo delitos. Jovens das camadas menos favorecidas da sociedade entregues ao mundo das drogas. Bullying, assédio moral, corrupção nos mais altos escalões do poder público. Ao assistir qualquer noticiário hoje, seja local ou nacional, em nossa mente surge a seguinte questão: ‘o que está acontecendo com a sociedade de hoje?’
Esta semana, o iSaúde Bahia conversou com a coordenadora do curso de Psicologia da Bahiana, Mônica Daltro, psicóloga, psicanalista e mestra em Medicina e Saúde Humana, que nos ajuda a compreender a relação que construímos com nós mesmos, com nossa família, nosso trabalho e com o tempo, hoje elemento tão importante na sociedade.

iSaúde Bahia - Após aproximadamente 20 anos de democratização da internet e com a pulverização das redes sociais (Orkut, Facebook, MSN etc.), as relações interpessoais - entre amigos, familiares, colegas de escola ou trabalho, se constituem da mesma forma? O que mudou?

Mônica Daltro - Mudou tudo. Com o advento da internet, a relação das pessoas com o tempo mudou e, consequentemente, as relações sociais se modificaram. As mulheres foram trabalhar, as escolas ofereceram câmeras para os pais acompanharem os filhos de onde estiverem. Os filhos vão para as festas e, se quiserem, claro, os pais podem falar com eles e saberem onde estão. Domingo à noite abrimos o email do trabalho, para poupar o tempo na segunda e lá vamos nós misturando os espaços que antes estavam delimitados pela distância física. Precisamos agregar isso à concepção de consumo e provisoriedade que a nossa sociedade vive, onde há uma urgência pelo novo, pelo mais moderno, pelo que é mais caro, mais tecnológico. Então o Facebook chega e podemos ter rapidamente centenas de amigos juntos. Mas que concepção de amigo é essa, que acompanhamento é esse, que liberdade é essa?

"Com o advento da internet, a relação das pessoas com o tempo mudou e, consequentemente, as relações sociais se modificaram."


 
iSB - Há uma fragilidade maior nas relações construídas exclusivamente de forma virtual, ou seja, na internet?

MD - Acho que a melhor resposta que posso dar é que vivemos num mundo de possibilidades.... e isso é muito saudável. No final do século XX, se você fosse homossexual, precisava esconder isso porque era uma perversão; para dar certo na vida, você tinha que fazer faculdade, de preferência ser médico, engenheiro ou advogado. Agora podemos ser muitas coisas, de muitas formas e não falamos mais de uma identidade, mas de identidades, sem que isso se constitua numa patologia. Da mesma forma, as relações construídas virtualmente podem ser provisórias, consolidadas na base de mentiras, imagens, fantasias, mas também podem se constituir como fortes vínculos de amor ou amizade. A internet como território de possibilidade é também um mundo onde os limites são frágeis. E o limite é um elemento estruturante das subjetividades, sem limite nos resta enlouquecer. A fragilidade das relações está relacionada às possibilidades de cada sujeito de fazer escolhas, sejam elas virtuais ou presenciais.
 
iSB - Muitas pessoas falam que a automatização de serviços proporciona uma sobra de tempo para as pessoas realizarem mais coisas, no entanto o que mais ouvimos é elas alegarem que não têm tempo para si, para reflexão, para um hobby etc. e, com isso, são altos os índices de estresse na população, de forma global. O ser humano desaprendeu a administrar seu tempo, suas prioridades?

MD - A virtualização dos serviços não proporcionou o aumento do tempo. Otimizou o tempo para o trabalho. Quando você ganha um celular corporativo está sendo convidado a ficar disponível, pelo menos uma boa parte do tempo. Quantos e-mails temos? E a quantas redes sociais pertencemos? Quando observamos as diferenças geracionais parece que é mais fácil para os mais jovens que para os mais velhos e talvez em termos de manejo seja. Entretanto há uma tensão na juventude, muito estressante, os adolescentes sentam na mesa com os celulares na mão, entre uma garfada e outra, passam e recebem torpedos. Quanto tempo passamos respondendo a essas tantas demandas tecnológicas. Há um fenômeno na comunicação muito interessante, você já reparou como as pessoas passaram a ouvir rádio? E já viu a importância que as rádios dão ao trânsito? Tudo bem, queremos chegar pelo caminho mais rápido, mas há quanto tempo você não ouve música?  Há uma automação das respostas comportamentais, consequentemente, novas formas de estresse e adoecimento vão se constituindo. Vou dar um exemplo, quando a gente perde alguém ou um amor, precisamos de tempo para elaborar esse luto. Mas não dá mais tempo, então vemos que na contemporaneidade a tristeza virou doença: depressão. Porque, na vida não virtual, o corpo tem outra dimensão temporal, na qual a automação não faz efeito.
 
iSB - Outro ponto muito presente na realidade hoje e que tem tirado o sono de muita gente são os altos níveis de violência - seja dentro de escolas, no trânsito, no trabalho. Por que a sociedade está tão violenta?

MD - Para Joel Birman, um importante psicanalista, pensador da contemporaneidade, vivemos numa sociedade do espetáculo onde se pode observar a autoexaltação desmensurada da individualidade e aí podemos identificar um dos ethos da violência, na medida em que , a relação com o outro se organiza a partir de um gozo. Pode-se observar uma volatização de valores como solidariedade, respeito os quais permitem que o sujeito aceite as diferenças, as singularidades, atente para os direitos do outro, os direitos humanos, propriamente ditos. A sociedade sustentada por valores como consumo e sucesso alimenta a necessidade de gozar imediatamente "eu quero", "me dê", "morra". Não é à toa que a droga do século é o crack, cujo maior atributo está na velocidade com que chega ao sistema nervoso central.

"A sociedade sustentada por valores como consumo e sucesso alimenta a necessidade de gozar imediatamente "eu quero", "me dê", "morra". Não é à toa que a droga do século é o crack".

Por que não paramos de ouvir falar em Bullying, que se refere exatamente à impossibilidade de um de respeitar a singularidade do outro, a criança vítima de Bullying é geralmente, gorda, tímida, lenta, negra, diferente da maioria em algum ponto. Assim como o assédio moral, nas relações de trabalho, onde um não aceita o limite do outro e o oprime, violenta em nome de um resultado.

iSB - Entre os jovens, o que tem chamado a atenção é que agora também os adolescentes de classe média e alta passaram a cometer delitos como furtos, crimes de trânsito, brigas em festas etc. Isso é consequência da falta de limites dos pais e da escola ou existe um fator maior por trás disso? Por que a sociedade é mais condescendente com esses jovens do que com aqueles de classes menos favorecidas que se envolvem com roubos e tráfico de drogas?

MD - Vamos pensar no Brasil e sua economia potente, o que podemos observar? Queremos consumir, não importa que não tenhamos onde estacionar, ou mesmo nos deslocar, compramos carros.  A culpa é do governo que não oferece transporte público de qualidade - fato! Mas será que não temos algo a ver com essa falta? Os políticos são corruptos, fato, a maioria é mesmo. Mas qual é a nossa parte nisso? A nossa sociedade quer consumir, não quer limites e o jovem fica apenas mais vulnerável a essa construção social perversa. Lobato, em 2004, chamava atenção para o fato de que os jovens da aldeia global não apresentavam sonhos de transformações sociais como os nascidos nas décadas de 1960, 1970 e  diz:
“Os jovens (...) não estão interessados em deflagrar movimentos de contestação, pois acreditam muito pouco que o mundo pode mudar para melhor; são avessos à reflexão sobre o sentido da vida, do amor e da morte; a religiosidade está em baixa e o interesse pela leitura também. De modo geral são autoconfiantes (“depende de mim conseguir o que quero”) (...) não querem ser ricos, apenas desejam uma vida confortável. A vida confortável inclui viagens pelo mundo, um bom carro, um bom apartamento, casa de praia e o máximo de atualização em aparelhos eletrônicos” (LOBATO, 2004, p. 50).

"Independente da classe social, os jovens querem ter coisas, acham que os pais devem dar a eles o que querem, senão eles pegam. Não há uma lógica de consequências".


 
Independente da classe social, os jovens querem ter coisas, acham que os pais devem dar a eles o que querem, senão eles pegam. Não há uma lógica de consequências. E não podemos responsabilizar os pais sozinhos por isso, pois não criamos mais os nossos filhos sozinhos, dividimos essa criação com a internet, com a escola - que é uma instituição do século retrasado, que não sabe ainda qual o seu novo papel social - com o mundo. É claro que quanto menos limite é dado, maior a vulnerabilidade, mas o limite tem a ver com a incorporação de que toda ação provoca uma reação, que existe um preço a ser pago pelo sujeito... e, a depender do contexto, essa premissa pode se constituir como falsa ou verdadeira. Aí voltamos ao mundo das possibilidades.
 
iSB - Diante de tantas questões, como a psicologia pode atuar de forma positiva na sociedade, hoje?

MD - A psicologia é uma profissão nova e sua natureza híbrida - nascida entre o campo da saúde e das humanidades – lhe permite se colocar no mundo como um importante instrumento de leitura e transformação social. Por isso, a psicologia, antes restrita aos consultórios particulares e aos centros de atenção à doença mental, ganhou novos espaços e hoje encontra grandes desafios.
Um dos desafios da psicologia contemporânea é discutir a medicalização da existência humana. Vou dar um exemplo. Uma mulher de 60 anos descobre que seu marido está lhe traindo com uma jovem de 30 anos. Ela está na menopausa, seus filhos saíram de casa, seu trabalho começa a lhe sugerir que se aposente. Ela entristece. Alguém lhe dá um diagnóstico de depressão e em vez de uma psicoterapia lhe sugere uma medicação, pois é mais rápido. Nesse pequeno exemplo temos uma série de questões que precisam ser transformadas: quem é essa mulher? Que casamento deseja? Como vai lidar com as perdas, com o novo, com o cruel olhar que a sociedade tem sobre o envelhecimento da mulher? E em vez de construir o tempo para responder a perguntas da existência, passa, além de tudo, a ter uma doença, ampliando a sensação de fracasso e lhe desresponsabilizando pelo processo de transformação. A psicologia clínica vai trabalhar na direção de que o sujeito se ponha com maior autonomia frente a essas verdades e valores que automatizam e alienam o sujeito.

"Um dos desafios da psicologia contemporânea é discutir a medicalização da existência humana".


A patologização da existência é outro desafio. A escola é um espaço no qual a psicologia é absolutamente necessária e contraditoriamente temos um dos menores números de profissionais atuando em serviços públicos do Brasil. Mas quando um psicólogo chega num espaço escolar recebe imediatamente uma lista de nomes de crianças “problemáticas”, com famílias “problemáticas” que também esperam que num passe  de mágica o psicólogo transforme aquela dolorosa realidade da criança ou do adolescente. A função do psicólogo escolar é de favorecer uma releitura do processo ensino-aprendizagem para aquele sujeito, naquele contexto. É claro que em alguns casos precisaremos encaminhar a criança ou o jovem para uma avaliação psicológica, para um médico ou um atendimento psicopedagógico. Mas cabe ao psicólogo trabalhar com o grupo de professores, com a direção da escola, com as famílias, buscando uma leitura das subjetividades e identidades possíveis. O adolescente inserido no mundo das possibilidades da internet, na velocidade do torpedo tem que ter dificuldade de ficar 4,5 horas sentado numa sala, onde não pode nem conversar. Contudo, se ele se inquieta tem distúrbio de atenção, tem TDAH. Será? Ao medicar o garoto, tiramos a responsabilidade da escola de se reinventar. Um psicólogo escolar pode ajudar a escola a se repensar.

iSB - Como é a atuação do psicólogo nos hospitais?

MD - Os avanços da psicologia permitiram o desenvolvimento da psicologia hospitalar, e de novo chamo a atenção para o reduzido número de serviços de psicologia nos hospitais da Bahia. Embora tenhamos alguns de excelência como do Hospital Geral Roberto Santos.  A ação do psicólogo num hospital pode ser um ganho fundamental nos custos dessa instituição, pois sabemos como são reduzidos os números de leitos no Brasil e de como os fatores psicológicos interferem na reabilitação de um paciente. Aqui, a psicologia se defronta com reais situações patológicas e realiza ações de caráter clínico preventivo e assistencial. Imagine uma criança de três anos que precisa fazer uma cirurgia qualquer. Seus pais estão inseguros e ele próprio não compreende aquele contexto sem cor, onde a temperatura é baixa, e as pessoas usam roupas iguais. De repente alguém lhe leva para uma sala cheia de luzes onde existem muitas pessoas mascaradas, que lembra vilões de desenho animado, parece inevitável que ela chore, se sinta insegura e vulnerável. O psicólogo pode acolher essa família na chegada, mostrar à criança as máscaras, os espaços, transformar o espaço ameaçador num espaço de continência e a recuperação da criança pode ser fortalecida por uma ambiência positiva, que pode se seguir no pós-operatório.

iSB – Em quais outros espaços da sociedade a psicologia pode atuar auxiliando os sujeitos em suas relações?

MD - A psicologia também se faz presente nas Varas de Família, nas agremiações esportivas e nas empresas em diversos setores. Mas um novo campo que vem se apresentando para os psicólogos são nos Centros de Assistência Social, onde o psicólogo trabalha na consolidação das políticas públicas de assistência social, como no fortalecimento de cooperativas, na preparação de jovens para o primeiro emprego ou no desenvolvimento de ações de promoção à qualidade de vida de comunidades e indivíduos.

Referências:

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