Publicada em 07/03/2019 às 11h54. Atualizada em 07/03/2019 às 12h02

Reflexões sobre o Carnaval de 2019

O Rio Vermelho e o turismo: território de diferenças a ser protegido.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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"Se apaixonar por Salvador é coisa fácil, basta um verão na juventude e pronto! Salvador é uma cidade alegre, preta, culta, musical, ensolarada e relaxada."

O que muda quando Salvador passa a ser identificada como um dos melhores lugares para se fazer turismo no mundo? Segundo a Prefeitura Municipal de Salvador, a cidade que foi a primeira capital do Brasil, já é um dos destinos turísticos mais visitados do país por turistas de todos os cantos do mundo. Mas qual será o preço que nós moradores pagaremos por isso?

Se apaixonar por Salvador é coisa fácil, basta um verão na juventude e pronto! Salvador é uma cidade alegre, preta, culta, musical, ensolarada e relaxada. Tudo ao mesmo tempo. Uma cidade que, ao longo dos anos, se desloca em múltiplas direções e temperaturas. O movimento é marca de sua natureza. Seus moradores se acostumaram com isso. Mas, às vezes, não é fácil...

Os soteropolitanos estão acostumados aos turistas, assim como os cidadãos de grandes destinos turísticos ao mundo. Queremos os turistas, somos responsáveis por inventar narrativas sobre como a cidade acolhe diferenças. Temos orgulho de nossa terra, discursamos sobre seus encantos, ajudados por nossos mais importantes poetas. Queremos que a economia cresça, que a cidade fique mais organizada, que as desigualdades diminuam. Porém, o nosso desafio está em como acolher sem ser canibalizado. 

O bairro do Rio Vermelho, onde moro, não funciona na lógica turística. É um bairro de personalidade própria, não binária. Não é ocupado por uma única classe social, uma única cor. Não é hétero, é trans ...  é rio, de riso, de água, de percurso, de destino, de mudança..., mas também de atitude, de fé, de afirmação e resistência boêmia. Quase naturalmente se apresenta como ponto turístico, mas é um bairro feito de moradores. 

 Foto: Fernando Naiberg | Divulgação

Quinze dias antes do carnaval a cidade vai sendo ocupada por suas primeiras festas. No Rio Vermelho, não é diferente. O Red River, como é conhecido, é sempre uma festa: de segunda a segunda as ruas estão cheias de jovens, ambulantes, bares cheios de pessoas de todas as classes sociais e diferentes idades que circulam entre um acarajé e outro. Mas o carnaval é anunciado pelo tradicional e resistente Bloco dos Palhaços – em Salvador, quando algo dura mais de dois verões, já é considerado tradicional – e os Palhaços resistem há alguns anos, graças a presença dos moradores e simpatizantes e à luta persistente de seus organizadores. Trata-se de uma festa de rua na qual circulam diferentes gerações e múltiplas tribos. Pobres, pretos, ricos, héteros e trans podem tomar a mesma cerveja gelada, comprada no mesmo ambulante. Não são iguais, mas podem estar juntos. Há, na forma de ser do bairro do Rio Vermelho, uma certa proposta de compartilhar o espaço público de uma forma mais coletiva de estar no mundo, que é coroada em comemorações como essa. É um território que se pretende espaço de acolhimento de diferenças e desigualdades e faz isso com alegria e segurança.

É chegado o verão de 2019, quando, segundo o slogan da prefeitura, “O Mundo Descobriu Salvador”. Os hotéis lotados, artistas globais circulando na noite, com eles se precipitam muitas festas privadas no entorno do bairro, que se esforçam por querer reproduzir aquilo que temos na rua, numa perspectiva vã, na medida em que a natureza pública e plural da festa de rua se consolida numa história de cidadania que não cabe em um valor ou uma decoração. 

As festas de rua foram parte de uma longa tradição religiosa-profana da cultura soteropolitana que foi sendo consumida por novas lógicas urbanas. Festas como as do Bomfim e Iemanjá resistem graças aos fiéis e moradores dos bairros que afirmam ali o seu território de pertencimento e de identidade cidadã. O Rio Vermelho resiste enquanto rua, enquanto território onde se pode andar à noite, passear à tarde e circular além da festa de Iemanjá, do Bloco dos Palhaços, da baiana do acarajé, das comemorações e lamentações da esquerda, da liberdade de circulação LGBTT. 

"As festas de rua foram parte de uma longa tradição religiosa-profana da cultura soteropolitana que foi sendo consumida por novas lógicas urbanas." 

O Bloco dos Palhaços é território de resistência cidadã. Esperado com alegria pelos moradores, é pensado como uma festa pequena, alegre, na qual as pessoas se enfeitam, marcam com os amigos em casa e descem para o bloco, com os avós e netos. No percurso, espera-se encontrar abraços afetuosos, sorrisos afáveis, o filho do borracheiro, o dono da banca de coco, o doutor da universidade, o estudante gay, o abraço constrangido da filha crescida de uma amiga de infância. 

Mas este ano foi diferente, havia ali novos códigos.

Os turistas estavam lá, numa quantidade maior que o esperado, havia, inclusive, muitos turistas soteropolitanos. A festa, outrora pequena, ficou grande. O Bloco estava lindo como sempre, mas era difícil encontrar os amigos, os abraços precisavam ser rápidos, pois atrapalhava o fluxo, os olhares voltados à proteção do corpo, dos netos. Estava tudo muito cheio. Havia também novos blocos, de pessoas brancas com alguma grana que, de maneira evidente, desconheciam o bairro.

Uma mulher, de uns 50 anos, me abordou no meio do Bloco, perguntando se eu e o meu marido éramos moradores do bairro. Moradora de Salvador, ela era uma turista-estrangeira no RV, me disse, como nós parecíamos legais, diferentes (somos um casal inter-racial), que devíamos ser moradores – me senti meio exótica, observada – e ela seguiu, dizendo, num riso afetado, que ela não poderia morar no Rio Vermelho, pois, para ela, o morador do RV faz farra todos os dias e isso não era para ela. Como assim?! Do que essa mulher falava mesmo? 

Depois, em um bar de rua, esbarrei em um “segurança” ou algo do gênero, que intimidava um menino negro, vendedor de amendoim... dizendo que ele não poderia vender ali... Novamente, me perguntei: Como assim? Como vamos comer amendoim? Como aquele menino e sua família vão comprar a comida da semana?

Mas aqui e ali, dava para ver, de longe, um rosto conhecido ou outro, mas nada parecido com o menino da padaria ou o borracheiro com quem encontro de domingo a domingo. Senti o Rio Vermelho canibalizado, ameaçado em sua singularidade, na sua possibilidade de mover-se, de ser não binário.  

Como poderemos sustentar esse canibal crescimento turístico? Como pensar em sustentar paixões não racistas, inclusivas? Se o que traz os turistas é, justamente, essa composição de diferenças, porque precisamos viver a ameaça de apagamento dessa em nome de uma ordem que exclui o menino do amendoim ou o ambulante com sua latinha de cerveja? 

O RV precisa resistir como território de diferenças. Precisamos de políticas públicas de organização de território que garantam isso, em lugar de descaracterizar nosso modo de operar o cotidiano. São os turistas que precisam aprender com isso. Não podemos nos deixar canibalizar por um turismo que não reflete o nosso existir. #tamojuntos  

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