Publicada em 21/11/2018 às 11h58. Atualizada em 23/11/2018 às 12h27

Terapia fotodinâmica: a nova promessa da Odontologia?

Saiba como os profissionais de saúde oral utilizam os lasers para tratamentos em consultório.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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O laser de alta potência tem finalidade cirúrgica, e sua atuação se dá pelo aumento de temperatura que, além de promover a ação cirúrgica, possui um importante efeito antimicrobiano."

Os lasers são utilizados cada vez mais pelos dentistas na rotina clínica do consultório. O laser de alta potência tem finalidade cirúrgica, e sua atuação se dá pelo aumento de temperatura que, além de promover a ação cirúrgica, possui um importante efeito antimicrobiano. Em contrapartida, o laser de baixa potência apresenta efeito terapêutico, que inclui a modulação do reparo tecidual, do processo de inflamação e da analgesia, por não provocar aumento de temperatura e não possuir efeito antimicrobiano associado. Desta maneira, a associação de uma fonte de luz com um agente fotossensibilizador que promova a morte microbiana é chamada de terapia fotodinâmica (PDT, do inglês, Photodynamic Therapy). A história da PDT teve o seu início no começo do século XX, em 1904, através do professor Herman Von Tappeiner, que criou o termo “ação fotodinâmica” para descrever interações entre um corante fotoativo, oxigênio e luz. Os primeiros estudos experimentais ocorreram na área médica, mais precisamente na Dermatologia, Ginecologia e Urologia. Na Odontologia, a PDT foi inicialmente preconizada para o tratamento do câncer bucal. Atualmente, o seu uso encontra-se em ascensão para o tratamento de diversas lesões orais não malignas, infecções bacterianas, virais e fúngicas.

Como se dá o mecanismo de ação da PDT?

 

De forma abrangente, pois esta terapia consiste no uso de uma substância química com propriedades fotossensibilizadoras nos tecidos biológicos, a qual é ativada pela exposição à luz, com comprimento de onda específico, e na presença de oxigênio, com o objetivo primário de promover a desinfecção de regiões contaminadas.

Sua aplicação pode ser sistêmica ou tópica, através da administração inicial deste corante, com consequente retenção seletiva no tecido-alvo do paciente. Posteriormente, ocorre a irradiação com luz laser de baixa potência, a qual é capaz de excitar o agente fotossensibilizador, estimulando a ocorrência de reações fotoquímicas, com destruição seletiva de tecidos afetados. Vale ressaltar que, para que este processo ocorra de forma efetiva, deve-se aguardar alguns minutos para realizar a irradiação após a inserção do corante.

Qual é a indicação da PDT na Odontologia?

Esta terapia tem aplicabilidade em diversas áreas da Odontologia, e pode ser empregada sem restrições em pacientes especiais, pediátricos e idosos. Além disso, pode ser dividida em terapia antimicrobiana e terapia antineoplásica. Dentre suas principais vantagens destacam-se: técnica atraumática, de fácil aplicabilidade e com baixo risco de efeito colateral, possibilidade de repetição das doses com redução da probabilidade de resistência microbiana, realização dos procedimentos em nível ambulatorial, possibilidade de tratamento simultâneo de lesões múltiplas e incipientes, regressão microbiana em curto período de tempo, alternativa terapêutica ao uso de antibióticos e antissépticos, e melhoria na qualidade de vida dos pacientes.

A Estomatologia é a especialidade odontológica que previne, diagnostica e trata as enfermidades relacionadas com a cavidade oral e todo o aparelho estomatognático. A PDT tem demonstrado resultados satisfatórios em lesões contaminadas e extremamente comuns, a exemplo do herpes labial e da candidíase. O herpes simples (HSV) é geralmente tratado com medicamentos tópicos e sistêmicos, a exemplo do Aciclovir e Valaciclovir, entretanto, nenhuma das opções medicamentosas mostrou ser completamente eficaz na eliminação dos sintomas provocados pelo vírus. Dessa maneira, a ação da PDT nas lesões provocadas pelo vírus do herpes ocorre por meio da aceleração do reparo da lesão, e os pacientes relatam uma melhora significativa na sintomatologia dolorosa e no desconforto. Além disso, seis horas após a realização da PDT, já pode ser detectada a regressão dos sinais e sintomas desta afecção. A estomatite protética representa um tipo de candidíase comum em pacientes portadores de próteses, e o tratamento convencional se baseia na prescrição de antifúngicos. Estudos têm demonstrado resultados promissores com o uso da técnica da PDT, que se assemelha à eficácia da nistatina oral, medicamento de primeira escolha para o tratamento da candidíase orofaríngea leve. As vantagens dessa terapia inovadora englobam a necessidade de poucas sessões para promover o efeito antimicrobiano desejado, além de ser uma técnica minimamente invasiva e bem tolerada pelo organismo. Já a solução de nistatina requer múltiplas aplicações e por um período prolongado, além da queixa de gosto desagradável, por parte de alguns pacientes, náuseas e vômitos. Vale ressaltar, no que diz respeito às taxas de recidiva, que ambas as terapias apresentam índices elevados, demonstrando efeito a curto prazo. Mais estudos com a PDT precisam ser realizados com diferentes protocolos na tentativa de se obter melhores resultados, e quem sabe, tornar-se o novo padrão ouro para o tratamento da estomatite protética.

A eficácia da PDT na eliminação de microrganismos patogênicos da cavidade oral promove a adequação do meio bucal com promoção de uma Odontologia preventiva e conservadora. Além dos resultados satisfatórios na Estomatologia, sua aplicação em infecções orais localizadas, de pouca profundidade e existentes na Periodontia, Endodontia e Dentística tem demonstrado resultados promissores.

Terapia fotodinâmica x Câncer bucal

O tratamento convencional do câncer compreende a cirurgia, radioterapia e quimioterapia. Apesar da alta efetividade sobre as células malignas, essas terapias não são seletivas, ou seja, promovem efeitos deletérios tanto aos tecidos malignos quanto aos tecidos sadios dos pacientes oncológicos, que podem ser agudos ou tardios. Nesses casos, a qualidade de vida dos pacientes é comprometida, com consequentes alterações psicológicas e emocionais, o que afeta diretamente a recuperação do indivíduo. Na medicina, esta terapia já vem sendo frequentemente utilizada no tratamento de lesões neoplásicas superficiais. A sua grande vantagem é a diminuição de efeitos colaterais aos tecidos sadios em comparação com as modalidades convencionais. Além disso, na perspectiva de saúde coletiva, tem despertado grande interesse pelo seu custo operacional inferior. Dessa forma, A PDT é um método recente alternativo para o tratamento do câncer bucal. Sua indicação ocorre em casos de tumores nos estágios iniciais e em lesões potencialmente malignas.

Com a finalidade de tratamento do câncer, a PDT já está aprovada para uso clínico nos Estados Unidos, Canadá, Rússia, Japão e alguns países da União Europeia. No Brasil, a técnica está liberada para utilização apenas no campo da pesquisa clínica. Em estudo realizado em 2007, dos 518 pacientes tratados com tumores iniciais em região de cabeça e pescoço, 89,1% apresentaram remissão completa após um único tratamento com a terapia fotodinâmica. Adicionalmente, houve acompanhamento, por 16 anos, em 171 pacientes, e nenhum apresentou recidiva durante esse longo período (Biel, 2007).

Um dos grandes desafios do cirurgião-dentista é o controle microbiológico nas afecções orais. Independentemente da especialidade, a redução de microrganismos é necessária para o sucesso do tratamento, e a PDT tem demonstrado resultados animadores como terapia coadjuvante, além de causar impacto mínimo em aos tecidos sadios. Apesar desses resultados promissores na Odontologia, estudos adicionais com diferentes parâmetros e com duração mais prolongada precisam ser realizados, principalmente no contexto de pacientes com câncer de boca, pois o acompanhamento a longo prazo é necessário para que se possa estabelecer completamente a efetividade dessa terapia.

Referências:

Wilson M. Lethal photosensitization of oral bacteria and its potential application in the photodynamic therapy of oral infections. PhotochemPhotobiol Sci. 2004; 3(5): 412-8.

Mesquita KSF, de Queiroz AM, Nelson-Filho P, Borsatto MC. Terapia fotodinâmica: tratamento promissor na odontologia? FOL 2013;23(2):45-52. 

Prazmo EJ, Kwasny M, Lapinski M, Mielczarek A. Photodynamic Therapy As a Promising Method Used in the Treatment of Oral Diseases. AdvClinExpMed 2016; 25 (4):799–807.

Pappas PG, Kauffman CA, Andes D, Benjamin DK Jr, Calandra TF, Edwards JE Jr. Clinical practice guide lines for the management of candidiasis: 2009 update by the Infectious Diseases Society of America. ClinInfectDis 2009;48:503–535.

Longo JPF, Lozzi SP, Azevedo RP. Câncer bucal e a terapia fotodinâmica como modalidade terapêutica. RGO – Rev. Gaúcha Odontol 2011;59:51-57.

Biel MA. Photodynamic therapy treatment of early oral and larynge alcancers. PhotochemPhotobiol. 2007;83(5):1063-8.

Eduardo CP, Bello-Silva MS, Ramalho KM, Lee EMR, Aranha ACC. A terapia fotodinâmica como benefício complementar na clínica odontológica. RevAssoc PaulCirDent 2015;69(3):226-35.

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