Publicada em 10/12/2018 às 15h15. Atualizada em 10/12/2018 às 15h24

Traços da personalidade de um cardiopata

Conheça o que é personalidade e como o comportamento e as emoções interferem na saúde do coração.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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Leia a versão científica do artigo na íntegra.

A palavra personalidade deriva do latim persona e é usada para qualificar o modo como os indivíduos são, agem e reagem aos estímulos. Segundo David E. Zimerman, personalidade é a “construção de um modo de ser, de como o sujeito será percebido pelos outros”. E sua estruturação se dá pela interação dos “heredoconstitucionais, as antigas experiências emocionais com os pais e as experiências traumáticas da realidade da vida adulta”. O que, na atualidade, é denominado “nature (fatores biológicos) e nurture (fatores ambientais) ”.

Diversos tipos de personalidade são investigados para melhor entendimento do adoecimento no humano. Dos diversos tipos de personalidade, as pessoas que possuem traços da personalidade Tipo A comumente estão propícias a desencadear uma doença cardíaca. Os primeiros cientistas a descreverem esse tipo de relação foram os cardiologistas Friedman e Rosenman (1974), comprovando a predisposição de pessoas com certas características para o surgimento de doenças do coração. Eles verificaram que indivíduos ambiciosos, autodisciplinados, com agressividade reprimida, competitivos, impacientes, com sentimento de urgência e hiperinvestimento profissional tendem a somatizar, culminando no adoecimento do coração.

Poderíamos citar outras características do paciente coronariano, como incapacidade de delegar aos outros autoridade e responsabilidade, controle rígido dos que o rodeiam e de si próprio, incapacidade de aceitar angústia e, consequentemente, de racionalizar as emoções, além de não conseguir ficar parado, descansar ou tirar férias, tem a necessidade primordial de ser amado e elogiado pelos outros e de colocar-se sempre em situações competitivas, buscando êxito profissional e/ou social. Os indivíduos do grupo A são, geralmente, perfeccionistas, e as características aqui citadas demonstram a conduta obsessiva dessas pessoas. Admite-se que essas características de personalidade geram suficiente estresse emocional a ponto de contribuir para o surgimento da doença coronária.

Estudos indicam que a impaciência e a irritação constantes desses sujeitos escondem o caráter agressivo dessa personalidade, que, geralmente, é reprimido ou negado, resultando em um estilo de vida que comumente fará mal para o coração. São comportamentos autodestrutivos que, além de inclinados a uma conduta de risco permanente, estimulam a liberação excessiva de substâncias que causam disfunções, como: arritmias, hipertensão arterial, necrose miocárdica, insuficiência cardíaca, entre outras.

"Estudos indicam que a impaciência e a irritação constantes desses sujeitos escondem o caráter agressivo dessa personalidade, que, geralmente, é reprimido ou negado, resultando em um estilo de vida que comumente fará mal para o coração."

Portanto, o sujeito que apresentar um estilo cientificamente denominado “tipo A de comportamento” para lidar com os acontecimentos internos/externos da sua vivência estará mais vulnerável à somatização cardíaca. Evidentemente, esse não será o único fator determinante nas cardiopatias, porém é inegável a importância desse entendimento para um planejamento terapêutico mais adequado às especificidades desse perfil.

Há também estudos que indicam que as pessoas não necessariamente precisarão estar inseridas de forma global em todas as características do tipo A de comportamento para desenvolver problemas cardíacos. Esses estudos mostram que há alguns traços que são mais nocivos, porém não concluem de forma categórica quais. A hostilidade, a raiva e a sensação de urgência de tempo (pressa) são as características mais citadas como fator marcante na propensão de doenças cardiovasculares.

Outro fator determinante são as autoexpectativas às quais as pessoas que possuem esse padrão de comportamento se impõem. Seus desempenhos são sempre comparados ao ideal e nunca à média, o que imprime uma exigência maior diante dos acontecimentos e uma tensão desproporcional diante do insucesso. Essas concepções são “irracionais porque contrariam a lógica e a razão, já que correspondem a expectativas que são impossíveis de serem satisfeitas”.

Esse conflito é, ainda, prejudicado pela sobrevalorização dessas características em âmbito social, cujo o reconhecimento torna-se objeto de desejo dos sujeitos, desprezando-se o caráter crônico e danoso desse comportamento.

Estresse

O estresse tem o objetivo de preservar o organismo, preparando o corpo para enfrentar os obstáculos das situações que pressupõem o risco. Segundo Eugênio Paes Campos (2010), “o estresse é o estado de tensão de um organismo que, de alguma forma se sente ameaçado em sua integridade”. Dessa forma, pode-se inferir que o estresse é um mecanismo de sobrevivência. Porém, quando essa carga é prolongada e excessiva, o efeito é imediato, a doença física. Todavia, o estresse não é universal e, diante de uma mesma situação, as pessoas reagem de forma diferente, caso contrário, teríamos a comprovação de que, diante de determinados estímulos estressantes, as pessoas desenvolveriam a mesma doença física, o que não é verídico.

Isto faria distinguir situações estressantes e situações percebidas como estressantes. Seriam estas últimas as que teriam valor psicológico. Sem dúvida, parece haver correlação entre quantidade de situações estressantes e a resultante percepção desse estresse. Mas parece haver um efeito moderador ou hipertrofiador que depende do próprio indivíduo em função de sua constituição, história e circunstâncias. O mesmo se aplica ao modo de reagir, de enfrentar, de se adaptar ao estresse, que aparece também influenciado por circunstâncias particulares, próprias do indivíduo.

Estudos buscam comprovar os efeitos danosos causados ao organismo sadio pela exposição excessiva a agentes estressores. Sua relação com as doenças cardiovasculares também é exaustivamente estudada e comprovada por meio desses estudos. O organismo sadio possivelmente irá responder, de forma adaptativa, a diversas emoções agradáveis e desagradáveis, as quais estará submetido ao longo da sua vida. Hans Selye denominou esse mecanismo de síndrome geral de adaptação. Quando nosso organismo encontra formas de adaptação a esse processo estressante, dizemos que houve a síndrome geral de adaptação, ou seja, nosso organismo, de forma sadia, mobilizou mecanismos de defesas que prepararam o corpo para a resolução da problemática. As doenças de adaptação seriam os sinais físicos e psicológicos de desgastes causados pelo estado de tensão permanente.

Sendo o estresse um processo que ativa respostas singulares, o momento de avaliação subjetiva será crucial para determinar se a situação é, ou não é, estressante e o dispêndio de energia e tempo, buscando restabelecer sua integridade, além de indicar o surgimento (ou não) de padecimento orgânico. Em resumo, a situação estressante envolve a “avaliação (quanto à possível ameaça à integridade, coesão e sobrevivência do organismo) e a escolha (ou decisão) do método para enfrentá-la, resultando, então, numa dada resposta.

Fases do estresse

O estresse pode ser dividido em quatro etapas: alerta, resistência, quase-exaustão e exaustão. A fase de alerta é caracterizada pela produção de adrenalina, com objetivo de manter a pessoa mais alerta para ação com a finalidade de sobrevivência. Na fase de resistência, há um aumento das taxas de cortisol e o organismo busca restabelecer sua homeostase que está vulnerável devido o prolongamento da fase I ou surgimento de novos agentes estressores. Na quase-exaustão, a tensão excedeu o limite suportável pelo organismo, há desequilíbrio e aumento da ansiedade. A fase final chama-se exaustão, é uma etapa patológica do estresse, onde há um desequilíbrio interno no qual os mecanismos de adaptação falharam. As doenças ocorrem nas duas últimas fases, devido uma diminuição das respostas imunológicas e processos fisiopatológicos.

Há doenças cardíacas diretamente relacionadas ao estresse, como a doença de Takotsubo, mais conhecida como “síndrome do coração partido”, caracterizada por mimetizar o infarto agudo do miocárdio sem a obstrução das artérias coronárias. Já o aumento da pressão arterial (PA), também correlacionado ao estresse crônico, está indiretamente ligado à patogênese cardiovascular. Nesse caso, a PA constantemente elevada irá favorecer o surgimento da hipertensão arterial que, se não for controlada, causa danos ao músculo cardíaco e diversas comorbidades. Um estudo sobre a reatividade cardiovascular, demonstrou que o estresse está intimamente relacionado às mudanças de pressão arterial ou frequência cardíaca. 

Como vimos, o estresse está diretamente relacionado às crenças individuais de cada sujeito. A tendência ao estresse crônico é equivalente à dificuldade em superar os estressores. Há estudos que correlacionam as crenças mais nocivas às características encontradas no comportamento tipo A, indicando que essas crenças são socialmente construídas e enraizadas na personalidade do indivíduo que, futuramente, terá uma predisposição para agir de forma prejudicial diante dos acontecimentos. Essa personalidade também está associada a sujeitos potencialmente mais vulneráveis ao estresse, justamente por conta da necessidade de controle e a tentativa de alcançar metas impossíveis em tempo ínfimo.

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