Publicada em 03/01/2019 às 12h52. Atualizada em 09/01/2019 às 08h52

Transtorno de ansiedade generalizada: uma perspectiva da Gestalt-Terapia

Conheça a Gestalt-Terapia e como ela auxilia no tratamento da ansiedade.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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A Gestalt-Terapia é uma abordagem existencial fenomenológica fundada por Frederick Perls e Laura Perls na década de 1940. A abordagem valoriza, fundamentalmente, o que é diretamente sentido e percebido, ao invés do que é interpretado e explicado, estas, para Perls, seriam menos confiáveis.  “O objetivo é tornar os clientes conscientes do que estão fazendo (aware), como estão fazendo, como podem transformar-se e, ao mesmo tempo, aprender a aceitar-se e valorizar-se” (Yontef, 1993).

No entanto, tornar os sujeitos conscientes é uma tarefa bastante difícil, pois a maioria das pessoas interrompe a autoconscientização quase imediatamente ao contato com uma conscientização de algo desagradável. Essa fuga, ou autointerrupção impede que o indivíduo se torne consciente e possa trabalhar com a situação desagradável. A conscientização, palavra de tradução mais próxima ao conceito de awareness, trata-se da capacidade intrínseca aos indivíduos de serem autoapoiados e autorregulados pela natureza autoreguladora do organismo humano.

Nos casos de patologias ansiosas, há uma ruptura do awareness, pois as pessoas deixam de estar em contato com o que está realmente em primeiro plano para planejar atos e ações que ainda estão por acontecer. Esse indivíduo ansioso inibe o contato com o agora e deixa de assimilar fatores importantes para o seu crescimento por estar o tempo todo fazendo ensaios do que por ventura pode acontecer. Quando a ansiedade se faz presente de forma patológica, o indivíduo é incapaz de exercer espontaneamente a capacidade de eleger a ação concreta hierarquicamente mais importante, perdendo-se, dessa forma, em devaneios sobre o futuro. 

Indivíduos com Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) não estão perceptivos de sua necessidade mais importante. Perls afirma que quando temos mais de uma necessidade urgente, é porque nenhuma é realmente urgente. O autor atribui a ocorrência da situação ao fato de os sujeitos não estarem conscientes do que ele denominou de hierarquia das necessidades. Essa hierarquia é formada por várias Gestalts, que são eventos na vida dos indivíduos.  Na teoria da hierarquia de necessidades, o  sujeito  sadio  traria  para o aqui e agora a Gestalt mais urgente, a necessidade mais importante. “Se você compreender a situação em que você se encontra e deixá-la controlar suas ações, então aprenderá como lidar com a vida”.  Perls explana o conceito explicando que as necessidades dominantes emergem em primeiro plano, como figura, e as demais necessidades se instituem como o fundo.

Quando a atenção dos sujeitos está envolta em situações do passado, ele deixa de ter consciência e energia para lidar plenamente com o presente. Assim, a natureza destrutiva das situações do passado emerge no presente, impedindo a plena consciência do presente.

"Sujeitos com TAG abrem várias Gestalts no decorrer de sua existência e não as vivem em totalidade, pois partem para a próxima Gestalt antes da anterior ser fechada, gerando uma série de Gestalts inacabadas."

Sujeitos com TAG abrem várias Gestalts no decorrer de sua existência e não as vivem em totalidade, pois partem para a próxima Gestalt antes da anterior ser fechada, gerando uma série de Gestalts inacabadas. Pode-se então concluir que o ponto central para discorrer sobre ansiedade em Gestalt-Terapia é o conceito de aqui e agora. “Agora esta é a minha primeira tese. A ansiedade é a tensão entre o agora e o depois. Este lapso é um vazio geralmente preenchido com planos, previsões, expectativas razoáveis, apólices de seguro”. Para Perls, indivíduos que não conseguem viver o aqui e o agora, que sofrem com expectativas futuras, acabam acumulando excitações que não podem ser convertidas para atividades específicas; esse estado de excitação contida, engarrafada, é, segundo Perls, o que chamamos de ansiedade.

A excitação reprimida, ou engarrafada, pode integrar o fundo como gestalt aberta que, continuamente, procura a sua resolução.  Conforme Perls, “a excitação não pode ser esquecida, mas o controle deliberado pode ser esquecido e permanecer inconsciente. Isto ocorre simplesmente porque, sendo um padrão motor, depois de algum tempo a situação é aprendida”. Nesse contexto, a ansiedade é este excitamento inibido, atuante como hábito esquecido.

O transtorno se agrava quando o organismo se interrompe e se sobrecarrega com muitas situações incompletas, abertas, comprometendo o natural processo de contato com os elementos necessários ao organismo, fazendo com que o indivíduo não possa prosseguir satisfatoriamente com o processo de viver e se nutrir de forma equilibrada. O indivíduo ansioso não consegue se manter no “aqui e agora” e, assim, há um desajuste no processo de contato com o meio. O indivíduo ansioso não consegue assimilar os novos elementos que são relevantes para o seu desenvolvimento, com os quais se defronta a partir do contato (em razão de algum receio antecipado em relação aos mesmos).  Assim, para a Gestalt-terapia, a ansiedade consiste na interrupção da excitação, a contenção da mesma. 

Por meio das fronteiras, são feitos o contato e as conexões com o meio, sendo assimilados os novos elementos com os quais o indivíduo se depara. Quando há um comprometimento dos processos de contato e afastamento do meio, o mundo é vivido abaixo das potencialidades do indivíduo, ocorrendo ansiedade.  As fronteiras de contato ficam rígidas, ou perdem a sua definição, há o comprometimento do ajustamento criativo, e a awareness entra em desajuste.

Em situações de desajuste, não ocorre o reconhecimento das polaridades existentes em todo o ser humano, o indivíduo se engaja na anulação ou alienação de algumas das partes do problema. Assim, emerge a ansiedade e, consequentemente, a neurose, pois não há como ter o controle da manifestação das polaridades que o indivíduo nega.

Conforme Müller-Granzotto, “as várias tentativas de interrupção da ansiedade (ou excitamento interrompido) constituem a base daquilo que Perls denomina de ‘ajustamentos neuróticos”. Nos ajustamentos neuróticos, ocorre o bloqueio do processo de contato, e  o  indivíduo  apresenta  dificuldade em lidar com o presente de forma coerente e mais acertada, contendo suas ações no mundo. Diante da ansiedade de viver de forma completa e plena, o que incidiria em maiores riscos, esse indivíduo preserva o seu ser.

Quanto mais próximo do primeiro nível se dá a quebra do ciclo menos percepção de si mesmo há no indivíduo e pior é o seu quadro patológico. Indivíduos ansiosos não conseguem permanecer no aqui e agora, comprometendo, dessa forma, o ciclo de contato. A ansiedade é o medo da plateia, medo do que o outro vai pensar. “Se não sabemos se vamos receber aplausos ou vaias, nós hesitamos; então o coração começa a disparar e toda excitação não consegue fluir para a atividade e temos ‘medo do palco’” (Perls, 1977).

Se o indivíduo estiver no aqui e agora e deixar que sua excitação flua de forma espontânea, ele não poderá estar ansioso. Se estiver no agora terá segurança. “Assim, se você pula para fora do agora, por exemplo, para o futuro, o intervalo para o agora e o depois se enche de excitamento contido, que é experienciado como ansiedade. ” (Perls, 1977).

Leia também: 

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