Publicada em 03/01/2019 às 12h45. Atualizada em 09/01/2019 às 08h51

Transtorno de ansiedade generalizada: uma visão biomédica

Quando a ansiedade vira doença. Confira a segunda parte do artigo “Ansiedade ou Transtorno da Ansiedade Generalizada?”

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
Compartilhe

"O Transtorno de Ansiedade Generalizada, ou TAG, assim reconhecido pelas áreas médicas, é a soma de dificuldades no campo individual e coletivo do indivíduo, expressas pelo organismo por meio de sintomas físicos."

Há tempos a psiquiatria moderna conta com um vasto campo de pesquisa, que demonstra o quanto problemas psicossociais afetam a saúde, transformando-se em sintomas físicos.  No campo psicológico, considera-se o conhecimento produzido pela psiquiatria e a produção bibliográfica originada nesse campo como ferramentas cruciais de apoio ao processo psicoterápico. O Transtorno de Ansiedade Generalizada, ou TAG, assim reconhecido pelas áreas médicas, é a soma de dificuldades no campo individual e coletivo do indivíduo, expressas pelo organismo por meio de sintomas físicos.

Por sua intensidade e durabilidade, o TAG se difere do simples sintoma de ansiedade.  Para o diagnóstico de tal patologia, é necessário averiguar se os sintomas ansiosos causam prejuízo social significativo ao sujeito. A ansiedade é reconhecida como patológica quando se torna desproporcional ao estímulo ao qual o sujeito é submetido (American Psychological Association [APA], 2014). “Pacientes com transtorno de ansiedade tendem a reagir de maneira excessiva ao perigo e à probabilidade de dano em determinada situação e a subestimar sua capacidade de lidar com ameaças percebidas a seu bem-estar físico e psicológico”.

Uma das maiores dificuldades para o diagnóstico de TAG é que, devido aos sintomas de ansiedade serem comuns à maioria das pessoas, o paciente tem dificuldade de perceber que seus sintomas passaram do limite saudável. Frequentemente, o transtorno é descoberto quando o paciente que padece dos sintomas de ansiedade procura um especialista para tratar sintomas secundários ao transtorno, como úlceras peptídicas, cefaleia, perturbações para dormir e náuseas, batimentos cardíacos acelerados, por exemplo.  

Os pacientes acometidos por esse transtorno ficam continuamente tensos e nervosos, com preocupações excessivas, estando sempre em estado de alerta a possíveis ameaças. Há, pelo menos, três dos seguintes sintomas somáticos: inquietação ou sensação de estar com os nervos à flor da pele, fatigabilidade, dificuldade de concentração, irritabilidade, tensão muscular e perturbação do sono. Esses sintomas devem persistir por, no mínimo, seis meses, aparecendo na maioria dos dias e causando prejuízo significativo na vida do sujeito.

Os sintomas de primeiro plano do Transtorno de Ansiedade Generalizada são variáveis. Geralmente, as principais queixas são nervosismo persistente, tremores, tensão muscular, sudorese, sensação de cabeça leve, tonturas, palpitações e desconforto epigástrico. Outros sintomas que podem estar presentes no transtorno são: sensação de boca seca, dificuldade de respirar, sensação de sufocamento, sentimento de atordoação, desrealização e despersonificação, medo de perder o controle e medo de morrer. Entre os sintomas gerais do TAG, estão presentes: ondas de calor persistentes, sensação de formigamento, tensão ou dores musculares, inquietude e incapacidade de relaxar, além da sensação de nó na garganta.

O TAG costuma ser crônico e duradouro. Com pequenos períodos de remissão dos sintomas, o transtorno pode fazer com que o paciente sofra durante anos com o estado de ansiedade elevado sem dar-se conta. Geralmente, ao chegar à clínica, o paciente não consegue identificar em que período da vida começaram os sintomas, afirmando que age daquela maneira desde sempre.  Apesar de não reconhecerem os sintomas como “excessivos”, os pacientes costumam relatar sofrimento devido à constante preocupação. Pode-se atribuir tal fato à dificuldade do paciente em concentrar-se nas suas experiências presentes, devido à emergência de fragmentos de situações inacabadas do passado.

Os sintomas em adultos e crianças podem se apresentar de forma distinta: geralmente, adultos com Transtorno de Ansiedade Generalizada têm suas preocupações voltadas a atividades cotidianas, como problemas no emprego, saúde dos familiares, finanças e questões semelhantes. No caso em que o transtorno se apresenta em crianças, suas preocupações, geralmente, estão voltadas ao desempenho escolar e à participação em atividades esportivas. Em alguns casos, essas crianças apresentam preocupações excessivas com eventos catastróficos e são indivíduos, em geral, perfeccionistas, conformistas e inseguros.

Apesar de a ansiedade ser difícil de ser reconhecida como patológica, ao contrário de indivíduos normais, indivíduos com TAG não direcionam sua ansiedade a um único problema, pois quando esse foi resolvido, toda a energia depositada nele passa para outro objeto de preocupação. Assim, os sintomas sempre estão presentes na vida do indivíduo.

"Sabe-se que o Transtorno de Ansiedade Generalizada está fortemente associado a uma diminuição marcante no desempenho de papéis na vida social, implicando em uma acentuada incapacidade de se relacionar bem."

Sabe-se que o Transtorno de Ansiedade Generalizada está fortemente associado a uma diminuição marcante no desempenho de papéis na vida social, implicando em uma acentuada incapacidade de se relacionar bem. Sintomas ansiosos são frequentemente reconhecidos em outras patologias encontradas na Classificação Internacional de Transtornos Mentais e de Comportamento, por isso é preciso estar atento ao diagnóstico diferencial. Infelizmente, poucos pacientes que chegam ao serviço médico geral de atendimento têm um diagnóstico correto do transtorno, e dos que têm, nem todos aderem ao tratamento devido ao preconceito construído no senso comum sobre as doenças da mente.

Por esse motivo, se faz necessário aumentar a abrangência de estudos psicológicos e psicossociais de compreensão do TAG, e, assim, tornar as intervenções psicológicas em indivíduos patologicamente ansiosos cada vez mais efetivas. Entende-se que a Gestalt-Terapia têm muito a contribuir com a compreensão da ansiedade, a partir de conceitos como “o aqui e agora”, “awareness”, “hierarquia de necessidade” e “ciclo do contato”, que são os conceitos chaves da teoria.

Leia também: 

Referências:

American Psychological Association. (2014). Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5. (5a ed.). Porto Alegre: Artmed.

Organização Mundial da Saúde. (1997). Classificação dos transtornos mentais e de comportamento da CID-10. Porto Alegre: Artmed.

Davidoff, L. L. (1983). Introdução a Psicologia. São Paulo: McGraw-Hill do Brasil.

Fadiman, J., & Frager, R. (1986). Teorias da Personalidade. São Paulo: Harbra.

Holmes, D. S. (1997). Psicologia dos transtornos mentais. (2ª ed.). Porto Alegre: Artmed.

Margis, R., Picon, P., Cosner, A. F., & Silveira, R. O. (2003). Relação entre estressores, estresse e ansiedade. Revista de Psiquiatria do Rio Grande do Sul, 25(Supl.1), 65-74. Recuperado de http://www.scielo.br/pdf/rprs/v25s1/a08v25s1.pdf. doi: 10.1590/S0101-81082003000400008

Mennin, D. (2004). Terapia de regulação emocional para transtornos de ansiedade generalizada. Psicologia cliníca e psicoterapia, 11(1), 17-29.

Muller-Granzotto, M. J. (2007). Fenomenologia e Gestalt- terapia. São Paulo: Summus.

Müller-Granzotto, M. J., & Müller-Granzotto, R. L. (2012). Clínicas Gestálticas: Sentido ético, político e antropológico da teoria do self. São Paulo: Summus.

Perls, F. S. (1979). Escarafunchando Fritz dentro e fora da lata de lixo. São Paulo: Summus Editorial.

Perls, F. S. (1977a). Gestalt-terapia explicada (3a ed.). São Paulo: Summus Editorial.

Perls, F. S. (1977b). Gestalt-Terapia e Potencialidades Humanas. In J. O. Stevens (Org.), Isto é Gestalt. São Paulo: Summus (Original publicado em 1975).

Perls, F. S., Hefferline, R., & Goodman, P. (1997). Gestalt- terapia. São Paulo: Summus.

Santos, L. P., & Faria, L. A. F. (2006). Ansiedade e Gestalt-terapia. Revista de Abordagem Gestáltica: Phenomenological Studies, XII(1), 267-277. Recuperado de http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=357735503027

Quevedo, J., Schmitt, R. A., & Kapczinski, F. (2008). Emergências psiquiátricas (2a ed.). Porto Alegre:Artmed.

Sadock, B. J., & Sadock, V. A. (2007). Compêndio de psiquiatria: ciência do comportamento e psiquiatria clínica (9a ed.). Porto Alegre: Artmed.

Yontef, G. M. (1993). Processo, diálogo e awareness: ensaios em Gestalt-Terapia. São Paulo: Summus Editorial.

Zinker, J. (2001). A busca da elegância em psicoterapia. São Paulo: Summus Editorial.

Zinker, J.  (2007). Processo Criativo em Gestal-Terapia. São Paulo: Summus.

Rother, E.T. (2007). Revisão sistemática x revisão narrativa. Acta Paulista de Enfermagem, 20(2), v-vi. Recuperado de http://www.scielo.br/pdf/ape/v20n2/a01v20n2.pdf. doi: 10.1590/S0103-21002007000200001

Santos, A. F. (2010). Determinantes psicossociais da capacidade adaptativa: um modelo teórico para o estresse (Tese de Doutorado). Universidade Federal da Bahia, Salvador, BA, Brasil.

Yano, L. P. (2015). Gestalt terapia e modelo biomédico: aproximação na compreensão das psicopatologias. Revista psicologias, 1(1-23). Recuperado de http://revistas.ufac.br/revista/index.php/psi/article/ view/206

Freitas, J. R. C. B. (2016). A relação terapeuta-cliente na abordagem gestáltica. Revista IGT na Rede, 13(24), 85-104. Recuperado de http://pepsic.bvsalud.org/pdf/igt/v13n24/v13n24a06.pdf 

Compartilhe

Saiba Mais

     

    Redes Sociais