Publicada em 20/09/2018 às 11h24. Atualizada em 15/10/2018 às 15h07

Vamos falar sobre suicídio?

Mais de 1 milhão de pessoas cometem suicídio por ano. Vamos entender o que está acontecendo?

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
Compartilhe

Os números são altos, o que leva a crer que o suicídio já é entendido como um problema de saúde pública. “No mundo, é a segunda causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos e, no Brasil, cresceu cerca de 20 vezes em 45 anos. Com certeza, podemos especular respostas por caminhos diferentes, desde os objetivos e “científicos” até os subjetivos e filosóficos, existenciais”, declara a psicóloga, professora do curso de Psicologia da Bahiana e fundadora do Programa de Ações e Estudos Sobre o Suicídio (Paes), Aicil Franco. Confira a entrevista.

iSaúde Brasil – Além da morte intencional, algumas atitudes são consideradas "comportamentos suicidas". Como podemos definir o perfil de um suicida?

Aicil Franco – Devemos ser cuidadosos ao definir “perfis” porque isso pode gerar estigmas e preconceitos. Então pode-se dizer, de forma bem comum, que cada caso é um caso e merece atenção personalizada. Ou seja, antes de se falar em um “perfil suicida”, deve-se examinar, cuidadosamente, o contexto da pessoa, não apenas biológica ou psicologicamente mas também do ponto de vista social, econômico, religioso, político etc. O problema é delicado porque envolve cuidados interdisciplinares e medidas preventivas que extrapolam os cuidados individuais com alguém que tenha tentado ou indique que vai tentar o suicídio. No entanto, sim, as ciências trabalham também com pessoas que apresentam comportamentos que possam destoar, parecer estranhos, ou que manifestem mudanças de hábito repentinas, que preocupam família, amigos, vizinhos, colegas de trabalho e de estudo. Existem comportamentos ou fatores que são classificados pela Organização Mundial da Saúde como “de risco” e dentre eles se encontram: tentativas anteriores, distúrbios mentais, abuso de substâncias, perdas de emprego, perdas financeiras, luto por pessoas queridas, traumas, violências, dores crônicas e doenças crônicas (inclusive o câncer, diabetes e HIV/AIDS). Hoje muito se fala, por exemplo, do aumento da prevalência dos comportamentos de automutilação no Brasil e no mundo. Este foi o tema frequente no II Congresso Brasileiro de Prevenção ao Suicídio, ocorrido, neste mês, em Vitória – ES, de onde acabamos de chegar. Pesquisas comprovam que não são os comportamentos que, necessariamente, levam ao suicídio, mas que eles podem sim agravar o risco. Entretanto, suicídios ocorrem, também, em grande número, dentre indivíduos com comportamentos considerados de baixo risco. É preciso, portanto, que se avalie tais comportamentos, ou fatores de risco, inseridos em seus respectivos contextos; que se trate as motivações pessoais que os provocam, mas também que se intervenha no contexto onde eles ocorrem.  Isso, obviamente, torna a avaliação e intervenção bastante complexas. Precisamos, ainda, de mais pesquisas nas diferentes áreas e, principalmente, de pesquisas qualitativas, não apenas as que apontem generalizações mas também as que avaliem, em profundidade, as motivações para tais comportamentos. 

iSaúde Brasil – Mais de 1 milhão de pessoas morrem por suicídio em todo o mundo, segundo a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Por que o número de suicídios está tão alto?

Aicil Franco –Fala-se hoje em uma epidemia. No mundo, é a segunda causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos e, no Brasil, cresceu cerca de 20 vezes em 45 anos. Com certeza, podemos especular respostas por caminhos diferentes, desde os objetivos e “científicos” até os subjetivos e filosóficos, existenciais.  Existe, no Brasil e em muitos lugares do mundo, um adoecimento social com sintomas crescentes, que apontam para uma deterioração de valores e das relações, tornando-os cada vez mais frágeis. Paradoxalmente, os indivíduos se tornam, cada vez mais, dependentes, tanto do outro, como de seus próprios hábitos, costumes, modismos, tecnologias etc. Observa-se uma busca frenética por aceitação e reconhecimento, que envolve fatores subjetivos, de difícil identificação. É fundamental lembrar a complexidade do ser humano afetado por situações de violência social e política. Há um imenso agravamento do sofrimento social afora as próprias questões pessoais. Mas, tudo isso talvez, ainda, não explique o porquê de os números crescerem tanto.

iSaúde Brasil – Existe alguma pesquisa ou estudo sobre as principais causas que levam uma pessoa ao suicídio?

Aicil Franco – Como já disse, precisamos ainda de mais pesquisas, tanto com os indivíduos que tentaram o suicídio e não obtiveram êxito como com os chamados vulneráveis ou enlutados pela perda de alguém através do suicídio. Sabe-se que tratar os enlutados por suicídio é também uma forma de prevenção. Existem pesquisas ainda não comprobatórias, mas com fortes indicadores, de que um suicídio em uma família ou em uma comunidade pode provocar outros. Como já disse, as razões são multifacetadas, subjetivas e de difíceis generalizações. Apesar do número crescente de estudos e publicações sobre o tema, precisamos desenvolver mais instrumentos e situações de avaliação.

iSaúde Brasil – Por que o suicídio ainda é um tabu? Como a imprensa deve abordar o tema? 

Aicil Franco – A morte ainda é tabu. Vivemos como se não fôssemos morrer. A vida idealizada e esticada por meios “plásticos” revela o quanto não conseguimos encarar a morte como inevitável. Não nos preparamos para morrer. Menos ainda, nos preparamos para aceitar que alguém deseje interromper a própria vida. Quando isso acontece, é motivo de vergonha, considerado fraqueza, e gera muita culpa nos que não conseguiram evitar. E evitar o suicídio é importante não apenas para indivíduos e famílias como também para o bem-estar de comunidades, para o sistema de cuidados com a saúde e para a sociedade como um todo (OMS, 2018).  A prevenção se faz também pela desmistificação e desestigmatização. Por vergonha, ainda muitos suicídios não são notificados oficialmente como tal e sim camuflados em “acidentes”.  Daí a campanha “Vamos falar sobre o suicídio”. Mas não basta falar. É preciso saber falar. Não se deve fazer sensacionalismos com as notícias e menos ainda publicar “receitas” ou fotos de como um evento suicida aconteceu. A mídia precisa educar e informar os seus usuários, colaborando para a eliminação dos preconceitos. Existem cartilhas nacionais e internacionais que orientam como abordar o tema. Uma delas foi publicada pelo Ministério da Saúde do Brasil no ano passado – Prevenção ao suicídio: um manual para profissionais da mídia. 

"E evitar o suicídio é importante não apenas para indivíduos e famílias como também para o bem-estar de comunidades, para o sistema de cuidados com a saúde e para a sociedade como um todo"

iSaúde Brasil – Os episódios de suicídio estão ligados à depressão ou a outros transtornos psíquicos?

Aicil Franco – Sim podem estar ligados a um desses fatores, mas não necessariamente. Como já disse, é preciso que se desvincule o episódio de suicídio da condição biológica como único fator.  Além dos fatores genéticos, das depressões e de outros transtornos, existem diversas causas para os sofrimentos psíquicos, físicos e sociais que levam ao suicídio. Segundo a OMS, 79% dos suicídios registrados ocorrem nos países de baixa ou média renda. Esse é um dado muito instigante. O indivíduo que tenta morrer e não consegue, frequentemente diz que ele não queria morrer, mas sim se livrar de um grande sofrimento e esse sofrimento pode ter as mais diferentes ordens. 

iSaúde Brasil – Muitas pessoas não sabem o que fazer quando suspeitam de que alguém quer cometer suicídio. Nesse caso, qual é a recomendação?

Aicil Franco – O isolamento e a solidão podem aumentar as chances de suicídio. A pessoa que dá indícios de que vai se matar precisa ser acolhida e ouvida. Conversar sobre o assunto e não a deixar sozinha pode ser muito importante.  Dificultar o acesso a meios que facilitem o suicídio também é necessário. Em muitas cidades, alguns locais, como pontes, por exemplo, têm alto índice de suicídio. Essas pontes precisam de telas ou grades de proteção. É uma questão de saúde pública. O desarmamento da população é outra questão. O acesso a medicações que podem matar ou outros meios devem ser monitorados e inibidos. E, se de fato se teme o risco, a pessoa deve ser encaminhada para locais de atendimentos especializados. Infelizmente, a situação pública de acolhimento e tratamentos especializados, no Brasil, é, ainda, muito precária. Essa deve ser parte importante das campanhas: a de se aumentar a rede de apoio para a prevenção ao suicídio. Entretanto, a saúde pública tem sido intensamente vilipendiada, e a epidemia de suicídio quase ignorada. Precisamos de políticas públicas mais atentas às reais demandas da população, mas também precisamos que as políticas saiam do papel; precisamos de ações, de práticas que aumentem, e logo, as chances de encaminhamentos.   Atendimento psicológico e psiquiátrico podem ser essenciais, mas eles ainda são de difícil acesso para a maioria da população. Prevenir o suicídio não deveria ser apenas tarefa dos profissionais de saúde ou dos órgãos públicos. Precisamos proliferar as redes de apoio, os agentes, os serviços comunitários e a conscientização da população. A Organização Mundial da Saúde acaba de publicar um documento que orienta sobre a implantação de redes de prevenção nas comunidades, uma iniciativa crescente em alguns países.  

iSaúde Brasil – Há mitos sobre o tema que circulam na sociedade, como, por exemplo, “Quem fala não faz”. Qual é a orientação que você pode oferecer para pessoas que seguem essas ideias e outras que lembrar?

Aicil Franco – São muitos os mitos e tabus e hoje se acha na mídia farto material de orientação sobre esse e outros mitos. A falta de informação faz com que os mitos se proliferem. A população precisa ser informada e educada.  Trata-se de uma campanha tão urgente quanto a de outras epidemias de doenças físicas, por exemplo. A pessoa que pensa em se matar, pode dar muitos sinais. Esses sinais precisam ser identificados. Falar sobre isso não aumenta a chance de a pessoa se matar, mas pode trazer alívio para a sua dor e, principalmente, abrir a possibilidade para um encaminhamento especializado. 

iSaúde Brasil – Segundo a OMS, em 2012, cerca de 9.198 homens e 2.623 mulheres se suicidaram. Considerando esse dado, em sua experiência, você acredita que exista maior probabilidade de os homens se suicidarem?

Aicil Franco – Com certeza. Esse é um dos dados que merece muito ser mais estudado. Existe também a informação de que o índice de aumento de suicídios de mulheres cresce mais rápido do que o dos homens. Alguns pesquisadores afirmam que há forte influência de fatores culturais, já que aos homens são dadas menos chances de expressão de seus afetos e emoções, além de eles serem mais impulsivos e racionais. Sabe-se que suas formas de suicídio também diferem das que são cometidas pelas mulheres. Eles se matam mais por armas de fogo e enforcamento enquanto as mulheres, mais por envenenamento. Por outro lado, as mulheres têm enfrentado mais responsabilidades do que no passado, se confrontam mais com problemas que antes não eram tão considerados, como a maternidade tardia, o desenvolvimento de carreiras, as diferenças salariais e os diversos tipos de discriminações e assédios. Esses são dados a serem melhor estudados para se compreender sua interferência, ou não, nos índices de suicídio.   

iSaúde Brasil – Falando em prevenção, como funciona o atendimento psicológico em casos cujo paciente apresenta o desejo suicida?

Aicil Franco – O atendimento psicológico precisa ser feito por profissionais experientes e que conheçam o manejo clínico adequado. Como já disse, são muitos os comportamentos e as subjetividades que podem estar envolvidos e eles precisam ser adequadamente compreendidos. Em geral, são pacientes ou clientes que trazem muito sofrimento e complexidades clínicas. Embora se afirme frequentemente que o desejo, as fantasias, ideações e até os planejamentos suicidas precisam ser acolhidos e tratados no consultório, não é simples lidar com tudo isso. A formação especializada em suicídio ainda é escassa no Brasil, e existe hoje uma proliferação de “suicidólogos”, pessoas nem sempre preparadas e que consideram que basta falar sobre o tema para prevenir. Ao contrário disso, o consistente embasamento teórico, as atualizações e supervisões, além da própria psicoterapia, são essenciais para quem deseja trabalhar nessa área. Novamente, é importante se pensar em políticas públicas que viabilizem o atendimento psicológico para além do âmbito privado e elitizado dos consultórios. Ressalta-se, ainda, a necessidade de o psicólogo trabalhar com os familiares do indivíduo que tentou ou pensa em se matar. Além disso, o atendimento psicológico, nesses casos, deverá ser paralelo ao psiquiátrico e ao de outros profissionais da área de saúde que possam garantir o acompanhamento físico, social e ocupacional. A capacitação de agentes de saúde, de agentes comunitários, de técnicos, professores e enfermeiros é uma outra demanda a ser melhor atendida.   

iSaúde Brasil – Apesar de não serem realizadas por profissionais de saúde mental, determinadas ações, como as do Centro de Valorização da Vida – CVV, funcionam?

Aicil Franco – O CVV tem 56 anos no Brasil e traz experiências de entidades similares de outros lugares do mundo. Esse tipo de serviço, voluntário e por telefone, é muito comum em outros países, com diversas ramificações, inclusive por especialidades, para alcoólicos, para depressivos e para adolescentes em over dose de drogas, por exemplo.  Apesar de voluntário, tem profissionais de diferentes especialidades ou adultos cuidadosamente treinados para a função. Segundo informa o seu site, que vale a pena ser visitado, eles realizam mais de 2 milhões de atendimentos anuais, desempenhados por aproximadamente 2.400 voluntários, localizados em 19 estados mais o Distrito Federal. Tem, de fato, um papel importante na prevenção do suicídio e, talvez, precisássemos ter outros serviços, como o CVV, o que não exclui a necessidade de acessos facilitados aos serviços presenciais psicológicos e psiquiátricos. 

iSaúde Brasil – Agora, qual mensagem você poderia deixar para os leitores?

Aicil Franco – Precisamos pensar em pelo menos 4 tipos de leitores:

1. O indivíduo que pensa em se matar: compartilhe os seus pensamentos com pessoas de sua confiança; busque ajuda especializada e busque se autoconhecer. Identifique o que lhe faz mal e se direcione pelo que lhe faz bem. Você deve achar um sentido para a sua vida, e, um profissional pode lhe ajudar. 

2. O indivíduo que perdeu alguém por suicídio: você também precisa de um espaço para falar da sua dor. O contato com as pessoas que viveram experiências parecidas tem sido relatado como o mais eficaz meio de elaboração dessa perda. Crie um grupo e busque profissionais especializados, mas não fique sozinho. 

3. O leitor leigo que nunca pensou no assunto: vamos falar sobre o suicídio; olhe em volta de você e acolha quem talvez precise de uma palavra sua; escute; solidarize-se com a dor do outro.   

4. O leitor profissional que se interessa pelo tema:  estude, especialize-se, busque muita informação e atualização. Trabalhe interdisciplinarmente. Realize a sua própria psicoterapia para tratar as suas dores e ser capaz de tratar as do outro. 

Compartilhe

Saiba Mais

     

    Redes Sociais