Publicada em 30/01/2019 às 09h42. Atualizada em 30/01/2019 às 09h54

Verão: Desafio da Febre Amarela

Doença fatal, a febre amarela dá sinais de epidemia no Brasil e em outros países da América Latina.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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A febre amarela é uma doença infecciosa causada por um vírus e transmitida por mosquitos. Ela existe na forma urbana, quando é transmitida pelo mosquito Aedes aegypti; ou na chamada febre amarela silvestre, quando transmitida pelo Haemagogus e Sabethe. A doença provoca amarelidão do corpo (sintoma conhecido como icterícia) e hemorragia em variados graus. Apesar de ser causada por um vírus perigoso, a maioria das pessoas evolui para a cura, o que não elimina o risco de a doença ser fatal para determinados indivíduos. Os casos leves de febre amarela, sintomáticos, causam febre, cefaleia (dor de cabeça), náuseas e vômitos. Os casos graves podem levar ao surgimento de doenças cardíacas, hepáticas e renais fatais. 

Cinco países das Américas notificaram casos confirmados de febre amarela desde março do ano passado: Bolívia, Brasil, Colômbia, Guiana Francesa e Peru. Estatísticas recentes do Ministério da Saúde, de 1º de janeiro a 8 de novembro de 2018, mostram que foram registrados 1.311 casos e 450 mortes –quase o dobro do montante do mesmo período do ano anterior. 

Por conta dessas ocorrências, a Tríplice Fronteira terá um protocolo de prevenção e combate à febre amarela. O documento começou a ser desenvolvido por médicos, enfermeiros e técnicos do Brasil, do Paraguai e da Argentina durante a Oficina de Febre Amarela, apoiada pelo Grupo de Trabalho Itaipu Saúde. A reunião ocorreu no último mês de dezembro, no Centro de Treinamento da Itaipu, e contou com a presença de representantes dos Ministérios da Saúde dos três países, da Organização Pan-americana de Saúde (OPAS) e secretarias de saúde. O plano, que deverá ser concluído até o final de 2019, conterá dados sobre como identificar casos de febre amarela e evitar a proliferação da doença, além de contemplar uma campanha de vacinação. Outros temas abordados serão a metodologia de tratamento, manejo de pacientes e mecanismos de comunicação entre as três cidades limítrofes: Foz do Iguaçu, Ciudad del Este e Puerto Iguazú.

O parasitologista e pesquisador Artur Dias Lima, doutor em Biologia Parasitária pela Fundação Oswaldo Cruz – IOC/Fiocruz, alerta para o risco de aumento de casos da doença no verão: “É mais comum no verão e em épocas mais quentes, as pessoas viajarem e fazerem trilhas em áreas florestais. Isso também oferece risco de aquisição da febre amarela silvestre. Ao adquiri-la na floresta, os seres humanos, retornando para o ambiente urbano, poderiam "servir" como hospedeiros. E estes, ao serem picados pelo Aedes aegypti, poderiam transmitir a doença nas cidades”, explica o especialista.

iSaúde Brasil – Quais os tipos de febre amarela, seus sintomas e modos de transmissão?

Artur Dias Lima – O vírus da febre amarela é um só. É um arbovírus de RNA, um Flavivírus. A transmissão se dá por meio de insetos dípteros, ou seja, que têm duas asas. Existem cerca de um milhão de espécies de insetos dípteros, com apenas 155 mil conhecidos e catalogados (descritos) até o momento. Eles estão presentes em quase todas as regiões do mundo. No Brasil, em área silvestre, o vírus é transmitido por dípteros do gênero Haemagogus e Sabethes. Em área urbana, quem transmite é o Aedes aegypti, daí o risco eminente. Os casos leves de febre amarela, sintomáticos, acarretam febre, dor de cabeça, náuseas e vômitos. Os casos graves podem levar ao surgimento de doenças cardíacas, hepáticas e renais fatais. É fatal, em média, em 40% dos casos, levando à morte.

iSaúde Brasil – A febre amarela é contagiosa?

Artur Dias Lima – A doença não é contagiosa, ou seja, não há transmissão de pessoa para pessoa. É transmitida somente pela picada de mosquitos infectados com o vírus.

iSaúde Brasil – Segundo a mais recente atualização epidemiológica da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), com dados fechados em 7 de dezembro, nos últimos três anos houve uma expansão da área histórica de transmissão do vírus causador da doença no Brasil. Quais são os riscos dessa alteração? 

Artur Dias Lima – Essa alteração certamente irá expor um maior número de pessoas. Considerando que o inseto transmissor em área urbana é o Aedes aegypti, e este se encontra atualmente em quase todo território nacional, a exposição é constante e diária. Bastaria, para isso, o vírus estar circulando localmente, entre primatas e insetos vetores. A medida mais importante para prevenir a febre amarela é a imunização. Quem mora ou se desloca para as zonas de risco deve estar com as vacinas em dia e procurar se proteger de picadas de mosquitos. Apenas uma dose da vacina basta para garantir imunidade e proteção ao longo da vida. Os efeitos secundários graves dessa vacina são extremamente raros.

iSaúde Brasil – Outros dados apontam para o risco de uma epidemia na Tríplice Fronteira. Que dificuldades operacionais você veria numa situação como essa, em que a campanha de prevenção tem que ser feita em pouco tempo e por agentes de diferentes governos? 

Artur Dias Lima – No meu entendimento, houve falhas do sistema de saúde e vigilância, quanto à imunização da população brasileira em certas áreas, principalmente aquelas consideradas "não endêmicas". O Brasil produz a vacina e precisa, diante da exposição em áreas urbanas, vacinar boa parte da população. É preciso um acordo com os nossos países vizinhos para que eles também tenham sucesso quanto à imunização da sua população.

iSaúde Brasil – O Brasil tem um padrão sazonal, com maior transmissão da febre amarela entre dezembro e maio. Porém, as mortes de macacos notificadas ao longo de 2018 mostraram que a circulação do vírus da febre amarela continuou durante o período de baixa transmissão (junho a novembro). O que se pode depreender a partir desse dado?

Artur Dias Lima – No verão, com chuva e calor, tais fatores influenciam no aumento populacional do Aedes aegypti. Quanto maior o número de Aedes, maior o risco de transmissão urbana da febre amarela. Em regiões de matas, o vírus circula durante todo o ano, entre os primatas e os insetos vetores, como o Haemagogus e o Sabethes, transmissores da febre amarela silvestre. É mais comum no verão e em épocas mais quentes, as pessoas viajarem e fazerem trilhas em áreas florestais. Isso também oferece risco de aquisição da febre amarela silvestre. Ao adquiri-la na floresta, os seres humanos, retornando para o ambiente urbano, poderiam "servir" como hospedeiros. E estes, ao serem picados pelo Aedes aegypti, poderiam transmitir a doença nas cidades.

"Em Minas Gerais, por exemplo, cerca de 3,1 milhões de pessoas ainda não se vacinaram contra a febre amarela. É preciso alcançar 95% de cobertura vacinal na população."

iSaúde Brasil – A corrida por vacinas após o maior surto recente de febre amarela no Brasil, há quase dois anos, não foi suficiente para conter os riscos de expansão da doença. O que falta para o Brasil não sofrer com uma epidemia?

Artur Dias Lima – Parte da população ainda não foi vacinada e está exposta à doença. Existe risco de novas epidemias sim. Só a vacinação impediria essas novas epidemias. Em Minas Gerais, por exemplo, cerca de 3,1 milhões de pessoas ainda não se vacinaram contra a febre amarela. É preciso alcançar 95% de cobertura vacinal na população.

iSaúde Brasil – Houve uma onda de fake news associando a vacina contra a febre amarela ao problema de bebês com autismo. Existe algum fundo de verdade nisso?

Artur Dias Lima – Absurdo. Não se deve propagar nunca essas notícias falsas. Tem muita gente que acredita, por notório desconhecimento. A vacina protege e essa passou por várias fases de testes científicos ao longo de décadas. É uma vacina antiga, produzida desde a década de 30 do século passado. Testada e aprovada.

iSaúde Brasil – Existem contraindicações à vacina? Ela é oferecida gratuitamente pelo Ministério da Saúde?

Artur Dias Lima – O Brasil, através de Biomanguinhos, Fiocruz, Ministério da Saúde e SUS, é país produtor e exportador dessa vacina. No que diz respeito a contraindicações, reações adversas são muito raras. Pessoas com alergia a ovos devem ter acompanhamento médico para tomar. A vacina é produzida em ovos, daí o risco de alergias.

iSaúde Brasil – Quais são as áreas de maior risco de se adquirir a doença?

Artur Dias Lima – Áreas de florestas representam sempre risco, em todo o território brasileiro, tais como Amazônia e Mata Atlântica. Muito cuidado ao fazer trilhas ou outras atividades dentro de áreas de matas. É essencial o uso de repelentes e vestimentas adequadas para evitar picadas de insetos nesses ambientes. Em áreas urbanas, uma pessoa infectada pode contaminar o Aedes aegypti, e este infectar outras pessoas.

Nunca é demais lembrar que os primatas são vítimas do vírus. Morrem. E essas mortes servem aos humanos como sentinelas. A morte dos primatas nos "avisa" sobre a circulação do vírus. Vamos preservar os primatas não humanos.

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