Publicada em 04/07/2011 às 07h13. Atualizada em 11/11/2011 às 14h49

Você quer trabalhar com saúde? Saiba que sua saúde mental também precisa de cuidados

Coordenadora do curso de Psicologia da Bahiana fala sobre o papel e a responsabilidade das Instituições de Ensino Superior na formação psicológica do estudante que vai trabalhar com saúde

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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Ao longo da vida, o profissional de saúde vai conviver com o ser humano e, consequentemente, com suas distintas formas de sofrimento. Faz-se, então, necessário discutir como preparar esse profissional para lidar com os aspectos objetivos e subjetivos que envolvem a natureza humana.

A literatura especializada afirma que cabe às instituições de ensino superior a responsabilidade de preparar o profissional de saúde. Nessa perspectiva, a graduação constitui-se como o espaço adequado para o desenvolvimento de habilidades e competências que permitam ao sujeito o equilíbrio entre as dimensões científicas, humanistas, tecnológicas e altruístas pertinentes ao exercício da ética profissional. Mas também, para assegurar o espaço onde se torna possível constituir a aprendizagem referente ao autocuidado e à qualidade de vida, pois, a possibilidade de cuidar da dor e do sofrimento do outro está diretamente ligada à possibilidade de cuidar-se.

"Pode-se afirmar que, em função da necessidade de aprender a lidar com a morte, a dor, o sofrimento, assim como pelo volume,  tempo de estudo e responsabilidade social, a experiência de formação do profissional de saúde é considerada custosa em termos de saúde mental e qualidade de vida para qualquer jovem no Brasil".

No Brasil, desde a década de 1950, a saúde mental de estudantes universitários da área de saúde vem sendo alvo de estudos sistemáticos que discutem como o percurso acadêmico desses jovens é marcado por uma série de vivências de crises relacionadas às especificidades do processo formativo. Esse processo é marcado pelo encontro com a morte e a dor, seja ela física ou mental; pelas exigências sociais e culturais referentes ao desempenho no curso e na profissão e atravessado pelas características de personalidade e condições de saúde mental em que se encontram os estudantes quando chegam à universidade – frequentemente vindos de um período de elevado estresse, que antecede à aprovação no vestibular.
 
O perfil psicológico do estudante que ingressa nos cursos de saúde no Brasil, principalmente nos cursos de medicina, é que são prioritariamente jovens entre 17 e 21anos, com bom nível cognitivo, personalidade autoexigente, vindos, principalmente, de escolas particulares. Esses fizeram uma escolha profissional precoce e vivenciam um momento marcadamente adolescente.
O ingresso no ensino superior coloca o jovem frente a uma nova realidade. Depara-se com uma estrutura educacional organizada como educação de adultos repleta de novas referências.  O descanso esperado, após a aprovação no processo seletivo, é substituído por novas exigências e novas formas de relação com a turma, o espaço físico, os livros, os professores e até a instituição de ensino. E, com freqüência, (se) decepcionam-se consigo mesmos frente à descoberta de que não sabem estudar e precisam adaptar-se à incômoda situação de aprender a “errar sozinho”.

O mundo acadêmico, no campo da saúde, demanda do jovem que ingresse rapidamente no mundo dos adultos, pois o processo de treinamento exige desse sujeito autonomia e maturidade. Entretanto, trata-se de um adolescente inserido numa cultura de imagens, informações rápidas e superficiais, protegido afetiva e emocionalmente pelos pais. Vive um momento biopsicossocial (é uma maneira de compreender o homem que leva em consideração estes três fatores, a saber, o biológico, o psicológico e o meio social no qual ele esteja inserido) que os impulsiona naturalmente para a busca da satisfação imediata de seus desejos e se deparam com uma estrutura que lhes demanda aprender a esperar e construir. 

Pode-se afirmar que, em função na necessidade de aprender a lidar com a morte, a dor, o sofrimento, assim como pelo volume e tempo de estudo e responsabilidade social, a experiência de formação do profissional de saúde é considerada custosa em termos de saúde mental e qualidade de vida para qualquer jovem no Brasil. A forma como cada um vai vivenciar essa experiência, entretanto, vai variar de acordo com as características de personalidade do estudante, mas também do suporte familiar e institucional que lhe seja oferecido.

 As situações de crise mais frequentes são identificadas no ano de ingresso, na passagem do ciclo básico para o profissionalizante e no ano de formatura.  Uma crise se precipita quando, em função de mudanças internas ou externas, ocorre um enfraquecimento das defesas psíquicas que habitualmente são utilizadas para confrontar situações de tensão ou frustração. Os sinais de estresse são os mais comuns, mas pode-se também observar quadros de ansiedade, mudanças no ritmo de sono, de alimentação, de relacionamento social e também dúvidas quanto à escolha profissional realizada. Esses sinais são mecanismos adaptativos desenvolvidos pelo sujeito em resposta às novas mudanças e podem ser de natureza mais ou menos saudável.

É então fundamental que a instituição de ensino superior - que se propõe a formar profissionais de saúde - possa responsabilizar-se pelo acolhimento desse jovem. Acolher não é garantir o espaço de cuidado oferecido pela escola no ensino médio, mas assegurar outra forma de cuidar. Criando condições para que o jovem possa, de forma gradual, apreender o mundo dos adultos e desenvolver, ao longo da graduação, estratégias de enfrentamento pessoais/atitudinais para dar conta das especificidades de escolha profissional.
 
Essa perspectiva coloca em evidência que o processo de formação do profissional de saúde não pode se restringir à aquisição de informações, mas se constitui como um complexo trabalho de desenvolvimento de competências conceituais que contempla a aquisição de conhecimento e de habilidades técnicas  e também de constituição de uma identidade pessoal e profissional que deve ser compartilhada entre estudante e instituição formadora.

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