Publicada em 26/07/2016 às 00h00. Atualizada em 26/07/2016 às 08h36

A Linguagem Plurissignificativa dos Sonhos

Nesta terceira e última parte do artigo sobre sonhos, Ivan dos Santos Messias, professor mestre em Cultura e Sociedade, aborda os sonhos sob a perspectiva da língua e do significante.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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“Os símbolos são significantes de um pacto que constitui significados, ou seja, eles demarcam o conjunto das significações atribuídas pela cultura na qual o homem irá inserir-se”.

“Os símbolos são significantes de um pacto que constitui significados, ou seja, eles demarcam o conjunto das significações atribuídas pela cultura na qual o homem irá inserir-se”. Cada cultura tem uma chave para abri-los. Há muitas culturas e povos diferenciados na Europa, no Brasil, nos Estados Unidos, na África e Ásia. Cada povo, cada corpo físico produz enunciados conforme seu entendimento e sua interpretação da vida. Portanto, não basta universalizar “cientificamente” a partir da experiência de Viena e dos Estados Unidos. Em cada país existem vozes identitárias diferenciadas, com métodos e chaves interpretativas próprios. Enfim, existem símbolos e sinais que só podem ser compreendidos dentro de contextos culturais, de grupos religiosos, por exemplo, que os consideram sinalizadores e tradutores de suas experiências.

O exercício onírico funda-se em linguagem desviante, criativa, meditativa – cria um novo pensar que transcende as ideologias do estado de vigília e o aprisionamento da língua. Ferdinand de Saussure, no Curso de Linguística Geral, advertia-nos sobre a incompatibilidade ou arbitrariedade entre signo linguístico e sentido (conteúdo). Essa é uma discussão antiga. Em narrativas de sono, a palavra ou significante se transmuta, movimenta-se, porque inúmeras palavras na vigília têm uma direção sinuosa, incompleta. Nelson Rodrigues, no conto “O pediatra”, mostra como o termo “miserável” é sinônimo de “excelente”. A metáfora transcreve a realidade não percebida pela tradição do pensar. Instaura nova interpretação paralela à mudança imediata que ocorre, reescrevendo, desorganizando o pensar tradicional. Enfim, a própria língua produzida pelo estado de vigília, pelo falar comum, produz uma referência paradoxal, incerta, dada a redoma do pensar e, consequentemente, das palavras em relação ao objeto que indicam. Imaginem a distância que existe entre metáforas dos sonhos e interpretação racional, consciente. Há um grande abismo e, por isso, incapacidade de interpretarmos os sonhos com nossos instrumentos na vigília. Segundo Nietzsche, “a língua está construída sobre os mais ingênuos preconceitos [...] e que o pensamento racional é um interpretar segundo um esquema”. Então, há muito esforço a ser feito, desafios, pesquisas, inclusive sobre linguagem onírica. A realidade é extensa, densa demais para caber no corpo, na história, na ciência moderna.

A linguagem onírica dribla e contorna o estado de vigília ou consciência, para instaurar o novo real anunciado pelo enunciado. A frase de efeito surge em meias palavras, incompletas (metonímicas), inversas, com a fórmula necessária para a resolução da equação, do conflito. O falar dos sonhos, além de antitético, extrapola o cotidiano e o significante, pois é emendada e figurativa, de modo que o nexo da vigília, da consciência é insuficiente para explicar o sentido da linguagem onírica. A complexidade revela uma distância entre a consciência que é nova e os sonhos, que são antigos (instintivos). Os sonhos revelam muitos sujeitos falantes. O Novo consciente entende mal o Velho onírico que tropeça na estrutura mental ideológica e conservadora do Novo ‘racional”. Há algo milenar que fala dentro de um corpo novo, sujeito recente. Aí ocorre a confusão, a distância espaço-temporal, aquilo que denominamos metáfora, abstração, códigos da linguagem, imprecisão. Como foi discutido anteriormente, nem toda linguagem onírica é simbólica ou arquetípica. Por vezes, trata diretamente dos conteúdos do estado de vigília, apresentando-lhe soluções e terapias diversas.

Não temos tido êxito em vencer as barreiras da língua, mas isso não significa que o objeto inexista. Nem sempre é possível denominá-lo precisamente, mediante eficiente método de apreensão.

Sonhar é uma experiência humana universal. Os sonhos dão estabilidade psíquica e organizam a vida social dos indivíduos que compreendem seus códigos. Embora seja um fenômeno planetário, cada comunidade tem know how e métodos próprios para ler e decodificar os labirintos da linguagem onírica de seus pares identitários. Portanto, universalizar a problemática e soluções em torno dos sonhos, a partir de experiências locais de consultórios, não é modo adequado de cientifizar uma pesquisa. Alteridade deveria ser componente científico. O Outro existe, mesmo que não o conheçamos ou discordemos do modo como vive.

"Os sonhos dão estabilidade psíquica e organizam a vida social dos indivíduos que compreendem seus códigos."

A ciência deve responder por que um corpo de sangue, secreções e sonhos é capaz de sintetizar o passado, presente e falar do futuro. O corpo precisa continuar sendo pesquisado, pois a mente possui uma vasta realidade para ser melhor conhecida sem ser tachada de metafísica, quando suas expressões forem desconhecidas. Chamemos de realidade-físico-química, oculta, silenciosa. Analisar a linguagem onírica não deve ser apenas atribuição das umbandas, maçonarias e templos místicos. As imagens mentais desenvolvidas pela mente nos mais diversos estados produzem soluções, curas, respostas para problemas individuais e coletivos de uma comunidade. São, por isso, respostas ao presente e ao futuro; anunciam uma nova existência.

Disciplinas acadêmicas como História dos Sonhos ou Fenomenologia dos Sonhos, Literatura dos Sonhos, Ciência dos Sonhos e afins seriam úteis para elucidação de muitas questões e incógnitas.

Paralelamente à nossa civilização informatizada e química existe outra “ciência”: a do transe, a dos sonhos, da Jurema – meditativa e silenciosa – mas aberta, livre para ser investigada. Tudo produzido pelos poderes inerentes ao corpo humano. Então, é importante que as psicologias utilizem olhar antropológico para melhor entender as propriedades das limitações psíquicas de um povo, de um indivíduo, sem recusa por conhecer as potencialidades do organismo humano infinito.

Referências:

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9. Good News Bible: The bible in today`s english version. New York: American Bible Society; 1976.

10. Jung C G. Psicologia e alquimia. Petrópolis, RJ: Vozes: ????. (Obras Completas de C. G. Jung, v. 12). Originalmente publicado em alemão em 1944/1994.

11. Shakespeare W. Romeu e Julieta; Macbeth, príncipe da Dinamarca; Otelo, o mouro de Veneza; Traduções de Cunha FCA, Mendes O. São Paulo: Abril Cultural; 1981.

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15. Saussure F. Curso de linguística geral. Tradução de Antônio Chelini, José Paulo Paes, Izidoro Blikstein. São Paulo: Cultrix; 2006.

16. Rodrigues N. A vida como ela é... O homem fiel e outros contos. São Paulo: Companhia das Letras; 1992.

17. Nietzsche F. Sabedoria para depois de amanhã. São Paulo: Martins Fontes; 2005.

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