Publicada em 10/07/2019 às 15h48. Atualizada em 11/07/2019 às 10h52

Como funciona a orientação profissional?

Atualmente, existem centenas de cursos de graduação oferecidos pelas universidades brasileiras. Qual deles escolher?

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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Qual a profissão que paga mais? “Em que carreira terei mais sucesso? O que gosto mais de fazer? Essas são algumas perguntas que rondam o pensamento de milhares de jovens todos os anos quando é chegada a hora de ingressar na universidade. Mais do que a escolha de um curso, trata-se da escolha do futuro, da atividade que será desenvolvida por toda a vida. Muitos jovens entram em conflito nesse momento. É aí que entra a orientação profissional (OP). Segundo a psicóloga e mestre em Psicologia Social e do Trabalho, Carmem Barbosa, “a importância da OP está em conduzir o jovem a uma escolha madura e coerente com seus interesses e anseios, em prol de uma atuação profissional responsável”. Saiba mais sobre o assunto.

iSaúde Brasil – Qual a importância da orientação profissional?

Carmem Barbosa – A orientação profissional constitui um dos campos de atuação da psicologia. Chamada no passado orientação vocacional, pois tratava a profissão como um “chamado”, um “dom”, uma “vocação”, transformou-se, na atualidade, para atender outras demandas, ampliando a terminologia para orientação profissional (OP), cuja visão atual consiste em colocar o jovem em uma posição ativa e engajada no seu processo de escolha, juntamente com o profissional de psicologia-orientador profissional, empenhado, aqui, na facilitação do processo. A missão do orientador é a de ampliar o olhar do adolescente, favorecendo uma atitude reflexiva para que ele possa chegar a uma decisão pessoal e favorável. Dessa forma, a importância da OP está em conduzir o jovem a uma escolha madura e coerente com seus interesses e anseios, em prol de uma atuação profissional responsável.

iSaúde Brasil – Como a psicologia pode ajudar as pessoas na escolha da profissão?

Carmem Barbosa – Será tão simples escolher? Escolhemos a todo o momento e não paramos nunca. Para um jovem que ainda cursa o ensino médio decidir sua carreira, aquela que teoricamente o acompanhará por toda a vida, parece bem complexo e traz bastante incertezas. Além do mais, os jovens, diante de tantas estimulações, veem-se frente a infinitas possibilidades. Eles chegam aos nossos consultórios com vários interesses, por vezes até contraditórios. Quando ainda imaturos e em um momento de negação do universo adulto, não se interessam por uma profissão em específico.

O guia do estudante de 2019 traz mais de 230 profissões de nível superior. “Qual a minha”? Como escolher apenas uma e abandonar as demais? Escolher é também abrir mão e o adolescente atual traz consigo a dificuldade da exclusividade. Ele quer mais e ele pode mais, o que, por meio de um olhar mais ampliado não é algo ruim, mas precisa ser pensado e planejado.

"O guia do estudante de 2019 traz mais de 230 profissões de nível superior. “Qual a minha”?" 

O processo de orientação profissional ocorre em torno de 10 (dez) encontros, não mais uma testagem psicológica e ancora-se em três momentos norteadores:

No primeiro momento, o objetivo é levar o jovem a ampliar seu autoconhecimento, trazendo à tona aspectos mais internos de sua personalidade, ainda pouco conscientes na adolescência (“Sabendo quem sou, posso pensar no que realmente quero”).

O segundo, é mais informativo, trazendo as diversas profissões e faculdades inseridas no mundo do trabalho real (“Ampliar meu conhecimento me faz desejar e querer escolher”).

E o terceiro é aquele da viabilização da escolha real da profissão (“Hora da escolha”).

iSaúde Brasil – Dentro da psicologia clínica, quais as atividades realizadas para auxiliar um adolescente a escolher uma graduação?

Carmem Barbosa – As atividades em OP devem ser adaptadas ao público que se quer alcançar. O trabalho pode ocorrer em grupos (preferencialmente pequenos) ou individualmente em um modelo mais clínico. Nas duas modalidades podem ser utilizados: testes psicológicos, entrevistas, dinâmicas, técnicas, jogos e vivências sempre pautadas na ludicidade.  É importante falar a linguagem do jovem, considerando o mundo digital e as diferentes tecnologias. As entrevistas são fundamentais para se ter acesso ao universo do jovem, dirimindo seus anseios, suas dúvidas e dificuldades. Os testes psicológicos têm por objetivo conhecer as aptidões, os interesses e, um pouco mais profundamente, a personalidade dos adolescentes, assim como são bons norteadores do processo, mas, por si só, não o definem. Se forem utilizados, devem ser validados e aprovados pelo Conselho Federal de Psicologia (CRP). 

iSaúde Brasil  – Como é o trabalho do psicólogo com pessoas que, no meio da carreira, estão insatisfeitos e querem mudar de profissão, mas não sabem qual caminho seguir?

" Acontece, muitas vezes, de o estudante desistir do curso precipitadamente, sem, de fato, conhecer a carreira que iniciou."

Carmem Barbosa – Possivelmente, essa insatisfação é resultante de uma escolha mal fundamentada ou mesmo precipitada. Trata-se, aqui, da necessidade de uma reorientação profissional. Inicialmente, faz-se necessário que o processo de escolha seja revisitado para que se entenda como ele aconteceu. Como foi a escolha? Baseou-se em quê? Houve uma orientação? O próximo passo é direcionar o jovem para um melhor conhecimento do curso já escolhido e suas possibilidades de atuação futura. Acontece, muitas vezes, de o estudante desistir do curso precipitadamente, sem, de fato, conhecer a carreira que iniciou. Caso essas ações não surtam resultado, haverá necessidade de avaliar o perfil do estudante e novo processo de escolha deve ser iniciado. 

iSaúde Brasil – Quais os principais desafios que a psicologia encontra na atuação de orientação profissional?

Carmem Barbosa – Para pensar a OP no mundo de hoje, não se pode deixar de falar no que vem ocorrendo nos meios políticos e econômicos e da marcante influência da mídia. A globalização traz novas profissões. A cada momento, novas carreiras desaparecem e outras tantas são hipervalorizadas. A mídia lança sonhos mirabolantes, e o jovem se influencia fortemente.  Como lidar com questões que surgem para o orientador nos grupos com jovens, tais como: “qual a profissão que paga mais?”; “em que carreira terei mais sucesso?”; “quero ser famoso”;  “quero ser rico.” 

Segundo dados da Agência Brasil (2017), 37% das graduações no Brasil eram feitas nas áreas de Negócios, Administração e Direito. Em seguida, a preferência era pelo curso de pedagogia (20%). Somente 15% dos estudantes brasileiros optavam pela área de Tecnologia, Engenharia e Matemática. Podemos pensar sobre o que motivou essas escolhas e como elas foram conduzidas? Daí, podemos ressaltar o importante desafio da psicologia em conscientizar essa nova geração pela responsabilidade com a sociedade e o seu futuro e implicando-a com a transformação do mundo a partir de sua atividade.

iSaúde Brasil – Como a psicologia clínica auxilia pessoas com transtorno de ansiedade e que não conseguem decidir qual profissão seguir?

Carmem Barbosa – São, de fato, muito frequentes, nos processos de orientação profissional, os altos níveis de ansiedade. Aqui, precisamos falar da formação da identidade do jovem que é formada na relação com o outro, com as pessoas com as quais ele convive, sejam os pais, parentes, amigos, professores etc. Durante a adolescência, formam-se as facetas da identidade: a sexual, a vocacional e a profissional. Portanto, na adolescência, todos esses fatores somam-se, o que resulta em um período mais ansiógeno. Cabe ao psicólogo, orientador profissional, analisar se a ansiedade do orientando encontra-se em níveis suportáveis e gerenciáveis ou se, de fato, precisa de um encaminhamento à psicoterapia para a resolução de conflitos iminentes que podem estar impactando na sua dificuldade de escolher. O processo psicoterápico pode acontecer paralelamente à orientação ou não.

 iSaúde Brasil – Muitas pessoas fazem testes on-line sobre orientação profissional. Esses testes são confiáveis?

Carmem Barbosa – Os testes on-line instigam, aproximam os jovens das profissões e os colocam em situação de escolha, mas podemos dizer que não são confiáveis. São manipuláveis por não serem validados por meio de estudos científicos. Existem testes psicológicos que avaliam a maturidade profissional para a escolha; outros que avaliam interesses e aptidões e alguns que falam da personalidade e do tipo psicológico do jovem. Esses instrumentos podem favorecer a escolha de forma confiável, pois são reconhecidos pela psicologia.

iSaúde Brasil – Quais as inovações no ramo da psicologia para orientação profissional atualmente?

Carmem Barbosa –A orientação profissional ampliou seus horizontes, deixando de ser uma testagem ou um simples teste que definia a profissão do jovem e chega com uma nova roupagem, intitulando-se como um processo. Normalmente, ocorre em torno de 10 (dez) encontros, com jogos, testes e atividades atrativas ao jovem. O resultado tem-se mostrado mais eficaz.

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