Publicada em 03/04/2019 às 16h03. Atualizada em 05/04/2019 às 10h41

Laser no combate à mucosite oral

Saiba quais os principais desafios enfrentados pelos pacientes com câncer de cabeça e pescoço para aderir ao tratamento com laser, no trato da mucosite oral.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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Ao longo dos últimos cinco anos, um grupo de pesquisadoras cirurgiãs-dentistas baianas tem atuado na Unidade de Alta Complexidade em Oncologia das Obras Assistenciais Irmã Dulce (OSID). Essa equipe, composta por docentes e discentes de diferentes Instituições de Ensino Superior, tem procurado desenvolver um trabalho multidisciplinar de promoção de saúde junto a pacientes com câncer de cabeça e pescoço, oferecendo a essa população uma modalidade terapêutica que previne o desenvolvimento de inflamação em mucosa bucal decorrente do tratamento antineoplásico. Trata-se da fotobiomodulação laser, uma ferramenta ainda pouco utilizada no Sistema Único de Saúde (SUS).

"A fotobiomodulação laser pode ser usada de modo preventivo ou curativo,(...) em pacientes com câncer de cabeça e pescoço, denominada mucosite oral."

A fotobiomodulação laser pode ser usada de modo preventivo ou curativo, em especial, para a abordagem de uma condição bucal muito comum em pacientes com câncer de cabeça e pescoço, denominada mucosite oral. É uma lesão inflamatória que pode apresentar diferentes graus de severidade e que, muitas vezes, pode incapacitar o paciente no tocante à ingestão de alimentos e levá-lo à perda de peso progressiva, além de um quadro doloroso e da interrupção do tratamento oncológico. Sendo assim, a utilização do laser faz-se relevante e pode contribuir para uma significativa melhora da qualidade de vida dos pacientes.

Todavia, no estudo que vem sendo realizado junto a essas pessoas acometidas, as pesquisadoras têm observado que há grande desconhecimento por parte dos médicos, enfermeiros, pacientes e seus familiares acerca dos benefícios da terapia com laser. Na maioria dos atendimentos, torna-se essencial explicar detalhadamente à equipe de saúde e aos usuários de que forma o laser pode estimular a cicatrização de úlceras na mucosa e contribuir para uma melhora do quadro de dor, diminuindo ou eliminando esses sintomas, ambos resultantes da mucosite oral. Sendo assim, através do esclarecimento contínuo, o serviço de Odontologia tem procurado fortalecer a utilização do laser na esfera do serviço público, assim como promover ações educativas visando estimular bons hábitos de higiene oral nos pacientes oncológicos.

O protocolo de atendimento com laser preventivo adotado pela equipe multidisciplinar está vinculado aos dias de comparecimento do paciente ao serviço de radioterapia. Normalmente, os pacientes são atendidos por ordem de chegada, e a terapia com laser é realizada antes ou após o tratamento radioterápico/quimioterápico, em dias alternados. Embora os pacientes compareçam diariamente para as sessões de radioterapia, é comum o registro de faltas ao serviço de Odontologia nos dias programados para a laserterapia. Entre as razões mais comuns que os pacientes relatam, podem ser citadas as listadas a seguir:

- “Não aguardei a consulta, pois tinha outros compromissos”;

- “Não compareci porque o serviço de radioterapia foi suspenso por problemas técnicos”;

- “Tive que ficar internado na enfermaria”;

- “Não pude esperar o atendimento porque tinha consulta médica em outro local fora do hospital”;

- “Desculpe doutora, esqueci que tinha consulta marcada para o laser”;

- “Não pude esperar o atendimento porque sou do interior e o transporte tinha hora para sair”;

- “Passei muito mal após a sessão de quimioterapia”.

As justificativas descritas são as mais usuais, mas ainda existe um número considerável de indivíduos que simplesmente não relatam o motivo/razão pelo/pela qual faltou ao serviço. Outro desafio enfrentado é o efeito adverso mais comum da radioterapia administrada em pacientes com câncer de cabeça e pescoço – a radiodermite. Trata-se de uma queimadura que atinge a área irradiada, fazendo com que alguns pacientes fiquem bastante debilitados a ponto de o tratamento precisar ser interrompido para que o paciente possa se restabelecer. Dessa forma, indiretamente, a laserterapia preventiva também é afetada.

Nas Obras Assistenciais Irmã Dulce, a maioria dos pacientes atendidos é do interior do estado da Bahia e estes relatam dificuldades no seu deslocamento para a capital. É comum ouvir expressões do tipo: 

- “Faltou transporte por parte da prefeitura para chegar até aqui”; 

- “A viagem atrasou muito”; 

- “Não tinha dinheiro para o transporte”.

Entretanto, apesar de todas estas dificuldades, considera-se baixo o grau de falta de adesão à laserterapia. Em média, os pacientes faltam de duas a quatro sessões. Este fato é relevante porque a adesão dos pacientes ao protocolo do laser preventivo em dias alternados está diretamente relacionada ao êxito dessa terapia no combate à mucosite oral. Espera-se que os pacientes oncológicos se conscientizem, cada vez mais, da importância de aderir às terapias propostas, pois isso pode influenciar positiva ou negativamente, na qualidade de vida dessa população. Acreditamos que o uso da laserterapia em pacientes com câncer de cabeça e pescoço submetidos à radioquimioterapia tenderá a ser implementada em outras unidades de alta complexidade para o tratamento do câncer distribuídas pelo Brasil, a exemplo das pioneiras que foram estabelecidas nas regiões Sul e Sudeste.

Referências:

1-RelonLZ et al. Impacto da Laserterapiana qualidade de vida de pacientes oncológicos portadores de mucosite oral. Revodontol Unesp. 2017;  46(1): 19–27.

2- Melo JWADE et al. Laser Therapy in Prevention and Treatment of Oral Mucositis in PediatricOncology. Journal Nursing UFPE. 2016; 10(7):  19-27.

3- Oton- LeiteAF et al. Effect of low level laser therapy in the reduction of oral complications in patients with cancer of the and neck submitted to radiotherapy. Special Care in Dentistry. 2013; 33(6): 294–300.

4- Oberoi  S et al. Effect of prophylaction low level laser therapy on oral mucositis: A systematic review and meta-analysis. PLoS ONE. 2014; 9(9): 107418-107418.

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