Publicada em 22/03/2019 às 11h13. Atualizada em 03/04/2019 às 16h41

Luto: Não somos preparados para lidar com aquilo que perdemos

Além da tristeza, que normalmente advém da perda, pode haver uma falta de vontade geral de tocar a vida. Entenda mais sobre o processo do luto.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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Na série cômica britânica “After Life – Vocês vão ter de me engolir”, que a Netflix disponibilizou neste mês de março, o personagem Tony é um jornalista cinquentão que, desconsolado com a morte da mulher, se transforma num sujeito deprimido e insuportável na tentativa inconsciente de espantar todos que querem ajudá-lo a sair do luto estendido e patológico. O luto é uma resposta que nós damos diante daquilo que perdemos e que, em alguns casos, como o retratado na ficção, às vezes, foge do controle. Além da tristeza, que normalmente advém da perda, pode haver a falta de vontade de tocar a vida de uma forma geral. “Nós não somos preparados para lidar com nenhum tipo de perda, nem a perda material, nem as perdas que advêm do processo de envelhecimento. Não somos preparados para lidar com aquilo que perdemos, nem com as dificuldades que vamos tendo com o passar do tempo. A gente não fala sobre a morte e nós vamos maquiando as situações”, alerta a especialista no assunto, a professora Martha Moreira Cavalcante Castro, psicóloga clínica e hospitalar, formada pela Universidade Federal da Bahia (1992), e professora da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública há 18 anos.

After Life - Desde 2019 - Netflix

iSaúde Brasil – A morte é um assunto muito presente na vida das pessoas, mas, ao mesmo tempo, pouco discutido. Por que a sociedade ocidental tem dificuldade de falar sobre o fim da vida e sobre a dor da perda?

Martha Castro – Há várias hipóteses sobre porque a sociedade ocidental não fala da relação do homem com a morte. Do ponto de vista da Antropologia, essa dificuldade tem muito a ver com a construção do conceito de homem na própria sociedade ocidental. É uma sociedade na qual nós temos uma perspectiva pouco reflexiva sobre a vida e sobre a morte, então não temos por hábito a construção desse conceito reflexivo do homem em si. Não cultivamos muito esse pensamento, e, em nossa cultura, falar sobre a morte é algo como se fosse um processo de “atrair uma coisa ruim”. Então vem desde a Idade Média o costume de abominar o conceito de morte, como se eu, ao não pensar sobre isso, pudesse me afastar disso. Dessa forma, de maneira análoga, falar da morte poderia me aproximar da morte, e essa aproximação me geraria um medo. Então é uma forma de negação do próprio conceito e da relação do homem com a morte.

 

Nós não somos preparados para lidar com nenhum tipo de perda, nem a perda material, nem as perdas que advêm do processo de envelhecimento. Não somos preparados para lidar com aquilo que perdemos, nem com as dificuldades que vamos tendo com o passar do tempo. A gente não fala sobre a morte e nós vamos maquiando as situações. Em nossa sociedade ocidental, as coisas são tratadas muito assim, nessa superficialidade, nessa dinâmica de distanciamento. Há um medo muito grande de lidar com a perda e com tudo aquilo que nos aproximar da perda. Temos tendência a não querer falar, não querer saber, como um mecanismo de proteção mesmo.

"O sentimento de luto é um sentimento de tristeza profundo diante de algo que a gente gosta muito e que fora perdido."

iSaúde Brasil – Como se define o sentimento de luto? 

Martha Castro – O luto é uma resposta diante daquilo que perdemos. O sentimento de luto é um sentimento de tristeza profundo diante de algo que a gente gosta muito e que fora perdido: pessoas queridas, um trabalho, um objeto significativo ou um animal de estimação. Ele é vivenciado como um processo de fechamento daquela dor da perda de algo muito importante para o indivíduo. Não está relacionado somente à perda de pessoas, mas também ao final de um relacionamento, por exemplo. Nós passamos por um processo que se inicia com um sentido profundo de tristeza, mas que pode trazer sentimentos e sensações físicas muito ruins, desde a sensação de inapetência (falta de fome) até a anedonia, que é a perda da capacidade de sentir prazer, quadro próprio dos estados de grave depressão. No entanto, esta não é a depressão, é a tristeza no luto. Aquela falta de vontade de fazer as coisas, muita dificuldade de se vincular afetivamente, uma tristeza em relação às pequenas coisas do dia a dia, então eu chamo de uma gangorra emocional: eu fico muito triste, daqui a pouco eu fico mais feliz, depois, de novo, muito triste... Isso tende a ir passando gradativamente, com o passar do tempo tende a ir diminuindo esse sentimento essa tristeza. O luto vai passando e gradativamente essas sensações físicas vão melhorando, então a pessoa vai chorando cada vez menos, se sentindo cada vez mais forte, podendo comer, interagir e voltar a sentir a sensação de normalidade.

iSaúde Brasil – Qual é a principal dificuldade que há no enfrentamento e na superação do processo de luto?

Martha Castro – Existem inúmeras dificuldades. Isso tem a ver com a forma com a qual cada um lida com a perda. Quando a situação é enfrentada de uma forma mais pontual, de frente, a tendência é superar de forma mais rápida. Depende de como a família fala sobre a morte, se existem crenças relacionadas ao processo da morte e por aí vai. Isso é muito relativo. Por exemplo, quando se trata da perda de filhos pequenos, perdas de jovens na idade muito produtiva, perda de pessoas jovens com filhos pequenos... são perdas bastante significativas e lacunas difíceis de serem compreendidas. Enfim, depende muito das circunstâncias e da maneira de enfrentamento de cada um. 

iSaúde Brasil – Existe um tempo “saudável” de luto? Como saber que o processo de luto está se tornando uma doença?

Martha Castro – A superação vai muito pelo processo de aceitação, não existe um tempo relativo, mas uma conexão gradativa com a realidade e, à medida que as pessoas vão se conectando de novo com o dia-a-dia, elas vão espaçando aquele sentimento de tristeza e vazio, que está ligado à perda, vão se conectando com outros objetos significativos na vida, como o trabalho, ou às outras pessoas que nos vinculam positivamente com o cotidiano. A tendência é, gradativamente, ir superando esse processo. Não existe um tempo saudável de luto, existe o tempo de cada um.

"A gente diz que não existe um tempo saudável de luto, existe o tempo de cada um."

iSaúde Brasil – É comum que haja sentimentos de culpa e negação naqueles que ficam? O que gera esses sentimentos?

Martha Castro – Culpa e negação é muito comum em pessoas que perdem entes queridos por suicídio ou acidentes em jovens. Aquela coisa de “eu não devia ter deixado, eu devia ter previsto”. Nas situações que envolvem suicídio, isso aparece com muita frequência. Em caso de perda de pessoas por acometimento de câncer, mais ou menos... Em casos de infecção por HIV, eu também já ouvi algo como “eu devia ter me protegido...”. Mas, geralmente, está ligado a esses fatores. Nos casos relacionados à Oncologia, há muita dificuldade de lidar, quando a família não fala sobre o processo do adoecimento ou não lida com o agravamento do processo. Aí o processo de negação tende a ser maior. Então a morte chega e é a constatação do fato de que não há mais como protelar, e que o único jeito é lidar com a situação. É preciso respeitar o tempo de cada um. É muito importante que nós, que somos da área de saúde mental compreendamos exatamente o que é o luto. 

iSaúde Brasil – No que o luto difere de uma depressão comum?

Martha Castro – Tem pessoas que tiveram depressão previamente e que, no processo de luto, isso pode vir misturado. Aí você tem que cuidar, porque a depressão tende a ter uma recidiva mais forte durante o processo do luto. Porém as pessoas que têm luto, de um modo geral, não estão depressivas, elas estão tristes. É importante que isso fique muito claro. Podemos saber que o luto não é uma doença quando vemos a pessoa acometida se vinculando com o mundo exterior, com as pessoas que ela gosta, com o trabalho. 

iSaúde Brasil – Qual é a principal etapa do luto? É possível fazer uma autodetecção desse processo?

Martha Castro – De um modo geral, não tem uma principal etapa não. Os estudos mostram que há várias fases, desde a tristeza profunda a uma dificuldade de se alimentar ou de se inserir socialmente e na própria família. A presença desse choro permanente, constante e devagarzinho vai diminuindo à medida que as pessoas vão se vinculando. Essas etapas oscilam nessa “gangorra” que eu falei inicialmente, mas elas tendem a diminuir e a irem ficando mais brandas com o passar do tempo. Antigamente, quando eu comecei a estudar o luto, há uns vinte anos, falava-se muito de o luto durar de dois meses a três anos, como uma fase esperada. Hoje se vê que cada um tem seu tempo, que tem pessoas que ficam muito bem em curto espaço de tempo e pessoas que ficam presas ao luto durante muito tempo. A esta forma damos o nome de luto patológico, que é quando a pessoa não consegue dar seguimento à vida a partir daquela perda. Quando esse luto gera um adoecimento, uma depressão ou algo que realmente é significativo e você vê que o tempo está passando, que já era para a pessoa começar a esboçar mínimas reações, como, por exemplo, se alimentar, esse é o caso de o médico psiquiatra avaliar o quadro para ver a real necessidade de tratamento. Mas, de um modo geral, esse é o último caso. Com afeto, com cuidado, uma família estruturada e acolhida, geralmente, a gente não vê uma necessidade de medicalizar o luto, a menos que se trate de um caso extremo.

iSaúde Brasil – Como a senhora começou a pesquisar esse tema?

Martha Castro – Desde 1992, estudei a morte e fiz uma primeira formação em álcool e drogas, mas, logo depois, eu comecei a estudar Oncologia, ainda recém-formada, e fundei o ambulatório de dor no Hospital das Clínicas (completamos agora, no ano passado, 20 anos de ambulatório). Logo depois, fui para o Hospital Aristides Maltez e para o Grupo de Apoio à Criança com Câncer. Sempre trabalhei com a morte, sempre gostei muito de cuidados paliativos. Já ensino na Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública há 18 anos e, há dez anos, sou professora da Universidade Federal da Bahia (UFBA), onde hoje eu coordeno um grupo de cuidados paliativos, que segue uma das minhas linhas de pesquisa, inclusive uma linha que eu direciono agora no mestrado de Psicologia da Bahiana.

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