Publicada em 03/04/2019 às 15h46. Atualizada em 04/04/2019 às 16h18

O que você entende por “Empoderamento da Mulher”?

Saiba qual é o papel da psicologia na promoção da igualdade de direito entre os gêneros.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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Tema que vem circulando tanto em ambientes profissionais quanto em rodas de conversa informais, as garantias de direitos iguais entre gêneros chegam ao iSaúde Brasil por meio deste bate-papo com a psicóloga e professora da graduação e do programa de Mestrado Profissional em Psicologia da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública e da Universidade Federal da Bahia, Dra. Martha Moreira Cavalcante Castro. 

iSaúde Brasil – O que é empoderamento feminino?

Martha Moreira Cavalcante Castro – Eu, particularmente, não gosto muito desse nome, mas, enfim, é um conceito que está relacionado ao poder de participação das mulheres em lutas pelos seus amplos direitos, sejam eles nos campos sociais, econômicos, políticos, dentre tantos outros.

iSaúde Brasil – A Organização das Nações Unidas (ONU) firmou sete princípios do empoderamento das mulheres e um deles diz o seguinte: “Garantir a saúde, a segurança e o bem-estar de todas as mulheres e homens que trabalham na empresa”. Como a psicologia pode atuar nas organizações para auxiliar a cuidar da saúde mental das mulheres caso elas enfrentem um ambiente empresarial de desigualdade de gênero?

Martha Moreira Cavalcante Castro – Dentro de uma organização, o psicólogo estuda como se dá o comportamento humano e seus fenômenos, analisa as suas implicações no ambiente de trabalho e, a partir desse ambiente, também essa inter-relação. Dessa forma, o nosso principal objetivo dentro da organização é o desenvolvimento de ações para aumentar a qualidade de vida, mantendo sempre um excelente clima organizacional. Cuidar da saúde mental de todos os funcionários é uma de nossas tarefas, desafio constante, pois há vários fatores psicossociais relacionados ao trabalho que podem corroborar para o adoecimento das pessoas. Um desses fatores é um ambiente empresarial no qual exista desigualdade de gênero. Há muito tempo, pesquisas na área organizacional se preocupam com as desigualdades de gênero nas organizações e procuram adotar medidas preventivas e de cuidado para que essas disparidades sejam minimizadas e eliminadas.

A psicologia pode implementar diálogos que avancem na compreensão da ideologia organizacional, a fim de favorecer a produção de discursos que façam sentido na prática de um bem comum entre os homens e as mulheres. Proporcionar reflexões e inquietações dando suporte e apoio institucional a toda e qualquer dificuldade advinda de questões relacionadas ao gênero, contribuir para sensibilizar uma cultura marcada por essas diferenças, por meio de práticas psicoeducativas esclarecedoras, palestras, dinâmicas de grupo e suporte mais efetivo em áreas mais propensas a essas dificuldades, além de dar assistência e implementar medidas de cuidado, são medidas que funcionam como uma bandeira para o bom desenvolvimento do trabalho do psicólogo dentro de uma organização.

iSaúde Brasil – Nas instituições de ensino, como a Psicologia atua na promoção do empoderamento feminino?

Martha Moreira Cavalcante Castro – Para mim, uma instituição de ensino é o lugar do debate, da discussão, do pensamento crítico. Dessa forma, não só as inquietações relacionadas ao empoderamento feminino, mas todas as outras, estão no cerne das questões. 

Provocar reflexões bem fundamentadas, levando sempre em conta as mudanças advindas dos processos culturais, as conquistas obtidas ao longo da história do direito das mulheres, direito principalmente de falar, falar acerca do que não quer, daquilo que não gosta, daquilo que não concorda. Aprender a se posicionar, a se deslocar de uma forma passiva para uma ativa representa uma mudança muito significativa, e como tal, a cultura mergulha em traços lentos para que esta transformação seja seguida e representada. Disso decorre sofrimento e, muitas vezes, perdas. Nosso papel como educador, é proporcionar que esses alunos se aproximem de textos que dialoguem de forma substancial com todas as transformações, que se comprometam em pensar criticamente essas mudanças e acompanhem, sempre com o olhar atento, todos os paradigmas que estão subjacentes a esse processo. 

iSaúde Brasil – Existe uma linha de atuação psicológica que tenha foco em trabalhar com desigualdade de gênero?

Martha Moreira Cavalcante Castro – O psicólogo cuida de pessoas. Dessa forma, não estabelecemos linhas específicas para problemas específicos. Se na organização nos deparamos com um problema relacionado a gênero, o profissional atua no sentido de cuidar e resolver, dentro dos parâmetros da organização, o problema. Se na clínica acontece o mesmo, independentemente da linha teórica que seja seguida, o profissional acolhe, cuida e procura ressignificar para esta pessoa o fato, a fim de ajudá-la a lidar com a questão apresentada.

iSaúde Brasil – Como os pais podem atuar, junto com seus filhos adolescentes no processo de empoderamento feminino?

Martha Moreira Cavalcante Castro – Penso, que a melhor forma dos pais lidarem com seus filhos, no momento atual, acerca do empoderamento feminino e de tantas outras questões postas em nossa sociedade, é através de um diálogo franco, aberto e acolhedor. Sinto, como educadora, atualmente, uma grande parcela de pais muito permissivos, proporcionando poucos limites a seus filhos, com crenças muito distorcidas de que “como não tive, vou me esforçar para dar”. Isso faz com que tenham que trabalhar mais e mais, se afastando de seu cotidiano e, consequentemente, da presença ativa na vida dos filhos, tornando-se permissivos pela culpa de estarem muito tempo ausentes. Dessa forma, o que observo é que todos se tornam pouco afetivos, pois o tempo fica cada vez mais curto para “dar conta de tudo”. A meu ver, essa é uma geração que precisa ser mais cuidada, a fim de que, possam ter vínculos mais seguros no futuro. 

iSaúde Brasil – Como o psicólogo pode trabalhar a baixa autoestima de mulheres que sofrem com o machismo?

Martha Moreira Cavalcante Castro – Trabalho na abordagem cognitivo-comportamental e, ao atender uma mulher que apresenta baixa autoestima, inicialmente vou colher sua história de vida a fim de compreender quem é essa mulher, quais são as crenças que ela tem sobre si, sobre o outro, sobre o mundo, e daí já percebo se essa baixa autoestima decorre do sofrimento pontual com o machismo ou se este fato só reafirmou crenças anteriores que eclodiram a partir da baixa autoestima significativamente. Dessa forma, há todo um planejamento terapêutico para acompanhar, diagnosticar sintomas ou transtornos que possam estar presentes e tratá-los dentro dessa abordagem.

iSaúde Brasil – Quais são as atitudes que as universidades podem ter para promover o empoderamento da mulher?

Martha Moreira Cavalcante Castro – A melhor atitude é desenvolver nos componentes curriculares assuntos relacionados à temática, além de promover debates entre alunos, professores e funcionários com diversos segmentos da sociedade, com estudiosos de diferentes áreas relacionadas ao gênero, às mudanças, aos processos culturais e ao empoderamento da mulher, dentre outras questões.

iSaúde Brasil – Como ensinar a meninos e jovens que o empoderamento da mulher não é uma guerra entre os sexos, e sim uma promoção da igualdade de gênero?

Martha Moreira Cavalcante Castro – Devemos falar disso com os nossos jovens, mostrando o panorama histórico no qual se desenvolveu esse conceito, desde a década de 70 até os dias atuais, passando pelos discursos mais feministas, até chegar na compreensão do processo de construção no qual, gradativamente, as mulheres começaram a entender que elas tem sua própria identidade, que isso decorre de uma força própria para que consiga expressar ideias e opiniões, fortalecendo seu discurso para defender seus direitos com autoconfiança e ampliação de relações pessoais e sociais. 

Referências:

1.  Macêdo, Goiacira Segurado, & Macedo, Kátia Barbosa. (2004). As relações de gênero no contexto organizacional: o discurso de homens e mulheres. Revista Psicologia Organizações e Trabalho4(1), 61-90.

2.  Cavazotte, Flávia de Souza Costa et al. (2010). DESIGUALDADE DE GÊNERO NO TRABALHO: REFLEXOS NAS ATITUDES DAS MULHERES E EM SUA INTENÇÃO DE DEIXAR A EMPRESA, 45(1), 70-83.

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