Publicada em 28/06/2019 às 10h28. Atualizada em 28/06/2019 às 10h52

O que você sabe sobre Psicologia Hospitalar?

Ela é conhecida como uma das práticas da clínica ampliada. Saiba mais sobre o assunto.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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Quando uma pessoa da família adoece ou passa por um procedimento médico que requer internação, acende uma luz amarela para sua família e pessoas próximas. O ambiente hospitalar, em si mesmo, desperta um incômodo estado de alerta seja para a própria pessoa que passa por cuidados, como para aquelas que a acompanham. Cuidar do equilíbrio e da saúde mental dessas pessoas, bem como dos profissionais que também estão inseridos nesse contexto é uma das atribuições do psicólogo hospitalar. “Nosso público alvo é o paciente e sua família, pois o que percebemos é que com uma pessoa internada, todo o sistema familiar se reorganiza para cuidar dessa pessoa, o que é indicativo para nós de que esse sistema também merece atenção”. A explicação é da psicóloga hospitalar Aline Tonheiro Palmeira, concedida nesta entrevista ao iSaúde Brasil.  

iSaúde Brasil - O que é a psicologia hospitalar? Quais seus diferenciais em relação à psicologia clínica?

Aline Tonheiro Palmeira - A psicologia hospitalar situa-se em uma grande área, que é a da psicologia da saúde. Diz respeito aos cuidados psicológicos a familiares e pacientes que se encontram adoecidos, em processo de hospitalização, para tratamento clínico ou cirúrgico ou para cuidados paliativos. Podemos dizer que a psicologia hospitalar é uma área de atuação do psicólogo e que faz referência à atuação clínica na instituição hospitalar. Assim, pensamos que o psicólogo hospitalar é o profissional que realiza uma prática clínica em uma instituição e que, por isso, precisa fazer as adaptações necessárias para atender às demandas dos seus pacientes nessa instituição.  É o que chamamos de clínica ampliada: atendimento baseado na clínica tida como “tradicional" (conhecida por ocorrer no consultório, em formato de psicoterapia), mas que considera as características do seu local de atuação, como a inclusão da família no atendimento; a discussão de caso com a equipe; a ênfase em temas relacionados ao adoecimento, internação ou cirurgia; a necessidade de atender no local onde o paciente está  (geralmente na beira do leito) e no tempo possível, pois a duração do internamento geralmente define o período que conseguimos atender aquela pessoa, elementos bem diferentes do atendimento clínico no consultório.

iSaúde Brasil - Quais seus principais ambientes de atuação?

Aline Tonheiro Palmeira - Historicamente dividimos em dois principais ambientes: o hospital (atenção terciária) e o ambulatório (atenção secundária) relacionado a atividade hospitalar. Assim, podemos acompanhar gestantes que estejam fazendo pré-natal na maternidade, pacientes que façam algum tipo de acompanhamento ambulatorial médico (como preparação para cirurgia bariátrica ou transplantes), abordando as questões relativas à gestação ou ao adoecimento, por exemplo. Já na unidade hospitalar, podemos atender nas emergências, enfermarias, UTIs, unidades de hemodiálise, unidades neonatal ou pediátrica, e em situações cirúrgicas, a pedido do paciente, quando avaliada a necessidade e com a anuência da equipe cirúrgica. Não podemos esquecer também da atuação em situação de internação domiciliar. São inúmeras as possibilidades do nosso trabalho nessa instituição tão complexa.

iSaúde Brasil - Quem é o público alvo desse terapeuta?

Aline Tonheiro Palmeira - Nosso público alvo é o paciente e sua família, pois o que percebemos é que com uma pessoa internada, todo o sistema familiar se reorganiza para cuidar dessa pessoa, o que é indicativo para nós de que esse sistema também merece atenção. Mas podemos atuar junto à equipe na perspectiva da psicoeducação, ou seja, discutindo assuntos pertinentes ao crescimento da equipe no que se refere a temas psicológicos como luto, perdas, comunicação com o paciente, mas sem nos tornarmos psicoterapeutas da equipe, nem psicólogos responsáveis pelo seu treinamento, uma função clara do grupo dos recursos humanos da instituição. 

iSaúde Brasil - Como atua o psicólogo hospitalar? Qual o seu papel na unidade de saúde?

Aline Tonheiro Palmeira - Atuamos junto ao paciente e sua família, sempre atentas às questões emocionais relacionadas ao internamento e ao adoecimento, abordando temas trazidos por eles, que costuma envolver medos, fantasias, o entrelaçamento da história do adoecimento com a história de vida de cada um, expectativas relativas  à enfermidade ou ao tempo de hospitalização (podemos pensar em uma mãe que acompanha seu bebê prematuro, em uma pessoa que está realizando um ciclo de quimioterapia ou antibioticoterapia, recuperação de uma cirurgia cardíaca), entre outros. Somos um dos profissionais responsáveis pela saúde mental daqueles que estão sendo atendidos, enquanto, na maioria das vezes, a maior preocupação da equipe é com a saúde física. Assim, em equipe, estamos sempre tentando resgatar a integralidade desse sujeito, auxiliando para que esse paciente seja compreendido como sujeito, trazendo aspectos da sua vida e forma de existência e, juntamente com as necessidades impostas pela enfermidade e pelas rotinas hospitalares, pensarmos em conjunto no que podemos fazer para melhor cuidar daqueles que estão na instituição hospitalar. 

"Atuamos junto ao paciente e sua família, sempre atentas às questões emocionais relacionadas ao internamento e ao adoecimento, abordando temas trazidos por eles..."

iSaúde Brasil - Qual o papel do psicólogo hospitalar no atendimento humanizado?

Aline Tonheiro Palmeira - Todos na equipe são fundamentais nesse tipo de atendimento, que é a forma de relação com o paciente preconizada pelo SUS, mas cada um tem a sua contribuição. Nós trazemos o olhar da singularidade para cada pessoa atendida, estamos sempre atentas à história de cada paciente e de como essa história se articula com essa hospitalização. Junto à equipe, pensamos no que cada um apresenta enquanto necessidade e no que podemos fazer para que aquele período internado, longe de casa e com uma série de rotinas específicas seja o menos iatrogênico possível. Vamos pensar, junto com outros profissionais, na garantia de direitos, no conceito mais amplo de saúde, na atenção às demandas apresentadas pelos pacientes e na dignidade, temas completamente relacionados à Política Nacional de Humanização do SUS, presente no nosso país.

iSaúde Brasil - A psicologia hospitalar está presente de forma consistente nos ambientes a que se propõe? Quais barreiras essa especialidade enfrenta hoje com relação ao mercado de trabalho?

Aline Tonheiro Palmeira - A cada congresso da Sociedade Brasileira de Psicologia Hospitalar surgem mais elementos que apontam o quanto poderíamos ocupar de maneira mais consistente nossos espaços de trabalho. Um dificultador é a quantidade reduzida de psicólogos por serviços de Psicologia nos hospitais: terminamos nos concentrando nas unidades hospitalares de maior gravidade (como UTIs), pela complexidade do estado de saúde do paciente e pela necessidade de uma equipe multidisciplinar para dar suporte ao paciente e sua família. Outra dificuldade é que tem pouco tempo que as equipes se complexificaram, passando a estar presentes profissionais como psicólogos, fisioterapeutas, nutricionistas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais... então, conhecer o nosso papel e as inúmeras possibilidades para a nossa atuação ainda é um aspecto que temos trabalhado junto à equipe, para que, cada vez mais, o nosso trabalho possa ser reconhecido como importante.  No momento, estamos atravessando uma grande crise econômica e política, que atingiu a área da saúde, seja na assistência privada ou pública, reduzindo as chances de contratação,  ou seja, se já avaliávamos o cenário como insatisfatório em termos quantitativo de profissionais para atender a ampla demanda que identificamos nos hospitais, não temos visto nenhum crescimento expressivo nos últimos três anos.

iSaúde Brasil - Como se tornar um psicólogo hospitalar?

Aline Tonheiro Palmeira - A nossa graduação enquanto psicólogo generalista é o elemento fundamental para podermos atuar na área. Por isso, os currículos das inúmeras faculdades de Psicologia têm tentado contemplar a assistência desse profissional na área da saúde e da clínica ampliada. Ainda assim, muito podemos fazer ao longo da nossa formação para nos capacitar e aprimorar o nosso trabalho: estágio na área, cursos, congressos, residência em psicologia hospitalar, pós-graduação em formato de especialização, e, no momento, a pós-graduação da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública voltou-se para essa área, propondo uma linha do seu mestrado profissional em psicologia hospitalar, um investimento importante para o aprimoramento na nossa formação. É importante também estarmos sempre atualizadas, seja com publicações na área de saúde, seja na área clínica, para que possamos continuar o diálogo entre essas duas áreas tão importantes para o psicólogo e para a população.

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