Publicada em 17/05/2019 às 09h59. Atualizada em 17/05/2019 às 10h07

“Por uma educação libertadora, responsável pelo bom viver e pelo bem coletivo”

Quais são os principais desafios enfrentados pelos adolescentes? Confira a entrevista com a psicóloga e professora da Bahiana Milena Lisboa.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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Para a psicologia, é na adolescência, na juventude, que as pessoas, aos poucos, vão sendo apresentadas à possibilidade de exercitar suas escolhas. Na infância, geralmente, são os pais quem tomam a maior parte das decisões, então esse é um momento de ganho de autonomia e, principalmente, de liberdade de escolhas – ainda que essas sejam escolhas obviamente limitadas, supervisionadas pelos pais. Aos poucos, os jovens adolescentes vão entendendo a responsabilidade de suas opções e vão, de algum modo, assumindo as consequências. Esse é um desafio bastante importante. Quem comenta o assunto é a psicóloga Milena Lisboa, doutora em Psicologia Social, pela PUC-SP, e professora do curso de Psicologia e do Mestrado Profissional em Psicologia e Intervenções em Saúde, da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública. Na entrevista a seguir, ela fala sobre diversos aspectos da sua experiência com coordenação de oficinas terapêuticas e a importância do trabalho desenvolvido junto ao público jovem.

iSaúde Brasil – Para a psicologia, a juventude se inicia exatamente em que período da vida?

Milena Lisboa – É preciso entender o ciclo da vida como um ciclo contínuo. As divisões entre as etapas da vida são construídas. A adolescência, por exemplo, é, dentro das etapas da vida, aquela que foi construída mais recentemente. Há registros, nos séculos 17 e 18, em que não havia sequer menção à palavra “adolescência”. Mesmo a concepção de infância era diferente, muito constituída pelas tarefas do mundo adulto, que se iniciavam durante a infância. Não havia esse período posterior que a gente chama de adolescência. Passa a fazer sentido falar em adolescência a partir do momento em que se estabelece a instituição escolar, quando se protege a infância do universo do trabalho, pois, durante o período da Revolução Industrial, as crianças eram aproveitadas como mão de obra mais barata, inclusive. Ocorre que o trabalho infantil é deletério, e a infância é um período que precisa ser protegido, então era preciso haver um investimento na educação e na formulação de políticas públicas dessa fase. Isso se estendeu até os 18 anos e uma concepção de adolescência e juventude passava então a ser construída aos poucos, à medida em que a transformação no sistema educacional ia produzindo uma seriação (dentro da escola, a organização das séries por idade passa a se institucionalizar disciplinarmente). À medida que a criança ia chegando a essa fase da adolescência, ia ganhando autonomia de decisão, seu pensamento abstrato se estabelecia absolutamente, havia características que começavam a ser eleitas como peculiares a essa fase, fortalecendo assim a construção dessa concepção da adolescência e depois juventude que possuímos atualmente.

iSaúde Brasil – Em termos de cronologia, como seria mais ou menos essa divisão?

 Milena Lisboa – A juventude também é uma concepção construída e que se localiza entre os 13, 14 anos até os 28, 29 anos. A adolescência se encerra ali na passagem para os 18 anos. A juventude abarca a adolescência e se estende para além dela, até por volta dos 30 anos. Hoje se aceita que a própria fase da juventude está se expandindo mais, porque o que chamamos de fase adulta está chegando mais tarde ainda na contemporaneidade, ou seja, os jovens permanecem mais na casa dos pais, devido a diversos fatores, como a expansão das universidades, por exemplo. À medida que as universidades começaram a ampliar o acesso, entende-se então que o período da juventude se estenda por conta da formação universitária e em pós-graduação e, consequentemente, da saída tardia para o mercado de trabalho, o que pode levar os jovens a permanecerem por mais tempo na casa dos pais.

"Hoje se aceita que a própria fase da juventude está se expandindo mais, porque o que chamamos de fase adulta está chegando mais tarde ainda na contemporaneidade..."

iSaúde Brasil – Como uma fase de descobertas e tensões, quais os principais desafios que a juventude nos apresenta como indivíduos?

Milena Lisboa – Para a Psicologia, é na adolescência, na juventude, que as pessoas aos poucos vão sendo apresentadas à possibilidade de exercitar suas escolhas. Na infância, geralmente, são os pais que decidem a maior parte das escolhas, então esse é um momento de ganho de autonomia e, principalmente, de liberdade de escolhas – ainda que escolhas obviamente limitadas, supervisionadas pelos pais. Aos poucos, os jovens e adolescentes vão entendendo a responsabilidade das escolhas e vão, de algum modo, assumindo as consequências. Esse é um desafio bastante importante. Ao mesmo tempo, o campo de pensamento sobre a infância e a adolescência entende que até os 18 anos eles ainda estão em formação, desenvolvendo o pensamento complexo, começando a entender sobre ética, começando a construir uma relação com o outro, porém, ainda muito presos aos desafios da sociabilidade envolvidos na adolescência. Os grupos, a relação entre pares, a própria descoberta da sexualidade, tudo isso tem que ser protegido. Por isso, as escolhas precisam ser guiadas, ou seja, de algum modo, a gente precisa estar próximo, mas numa proximidade com respeito à autonomia dos jovens em suas escolhas e, principalmente, que eles compreendam e consigam antever as consequências, desenvolvendo uma ética que oriente o que é melhor e mais correto, o que vai produzir o melhor bem-estar para esse ou essa jovem e para as outras pessoas. Isso é o mais importante.  

iSaúde Brasil – Isso como um aprendizado para as fases futuras, como a inserção no mercado de trabalho, inclusive?

Milena Lisboa – Esse desafio acontece em diversas áreas, inclusive no campo da escolha profissional, uma primeira escolha bem difícil que pode ser determinante na vida. Então, que profissão eu faço? Eu faço uma escola técnica? Vou para o ensino superior, para o mercado de trabalho? Qual deve ser a minha profissão? Em qual área eu vou me desenvolver? Observe que essa é uma dimensão da vida bastante importante, que já aparece ali, ao final da adolescência, em torno de 17 a 18 anos de idade, no final do Ensino Médio. Também vêm aí as escolhas e os desafios relacionados à sexualidade: as primeiras experiências, até que ponto é possível se expor ou se proteger, como fazer isso de um modo que seja respeitoso consigo mesmo e com o outro. Há também as escolhas relacionadas aos pares: as amizades, com quem andar, para onde ir, e, até mesmo, escolhas mais identitárias e estéticas (que tipo de músicas eu escolho, com que tipo de roupa eu vou aos poucos me identificando, qual é o tipo de filme que me representa). Esses gostos mais pessoais também vão aparecendo e vão se fortalecendo. Isso tudo constitui dimensões importantes que, nessa fase, representam desafios que podem ter impactos bastante pronunciados na vida do adolescente, do jovem.

 

Leia a segunda parte da entrevista: O que são os “ambientes protegidos” para a adolescência e para juventude?

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