Publicada em 20/03/2019 às 10h58. Atualizada em 20/03/2019 às 11h08

Transgeneridade: fazer ou não a cirurgia?

Entenda as questões socioculturais que envolvem o transgênero no Brasil.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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Nesta segunda parte da entrevista com o pesquisador e professor de Enfermagem no Cuidado à Saúde Mental da Escola de Enfermagem da Universidade Federal da Bahia (UFBA), George Amaral, fala sobre aspectos psicossociais que levam pessoas transgênero a procurar tratamento cirúrgico de mudança de sexo. 

iSaúde Brasil - As cirurgias melhoram a vida de quem é transgênero? Por que há dissenso entre os pesquisadores sobre a cirurgia de redesignação sexual?

George Amaral - Para os indivíduos que participaram de minha pesquisa, ainda não publicada, houve melhora. Por quê? Por essas cirurgias funcionarem como uma estratégia de sobrevivência; por garantirem a aparência esperada para um homem, melhorando as interações nas quais se envolviam; por funcionarem como uma prática de produção de vida melhor. Isso garantiu a felicidade desses homens? Não! Ser um homem ou mulher trans, no Brasil, é muito difícil. Pesquisadoras, como Berenice Bento também descrevem um cenário muito difícil para as pessoas trans. Ter e manter um emprego é difícil, namorar inclui uma série de fatores com os quais as pessoas cisgênero não precisam lidar, ir até um banheiro público é um desafio hercúleo, violências outras são sofridas diariamente dentro e fora de casa. Problemas com os quais as pessoas cis nem sonham em lidar, são presença constante na vida de pessoas trans. Isso aumenta se é uma mulher trans, se é uma pessoa trans negra e por aí vai. Não dá para analisar se a vida melhora apenas a partir de um fator, quando a vida é atravessada e produzida por um enxame de outros atores humanos e não humanos. O que constatei em minha prática de pesquisa é que os grupos sociais com os quais essas pessoas interagem, solicitam agressivamente delas uma aparência que as identifique como homem ou mulher e, por isso, a maioria se submete ou mesmo deseja passar por procedimentos cirúrgicos. Talvez, se nós aceitássemos a explicação simples – “Ele disse que é homem. Pronto. É homem” – talvez, as cirurgias nem fossem demandadas, em muitos casos.

Filme: Tomboy (2010, França)

O dissenso segue esse raciocínio. Se você compreende a transgeneridade como uma entidade psiquiátrica, onde adequar o corpo às normas de gênero é a solução, a cirurgia e o uso de hormônios são os únicos tratamentos viáveis. Já se você encara a produção as identidades trans como um fenômeno encarnado em um corpo que é social, as intervenções não se limitam ao corpo, pois envolvem práticas sociais que só existem na medida em que são atuadas e fortalecidas, envolvem a produção de realidades onde as vidas trans são possíveis excedendo as normas de gênero. É possível produzir realidades onde as cirurgias não precisem ser a intervenção mais importante? Só saberemos se tentarmos. Hoje ela é a intervenção que resolve todas as questões das pessoas trans? Não é. Mas possibilita que muitas dessas pessoas sobrevivam à hostilidade que enfrentam em seus grupos sociais.

iSaúde Brasil Quais são os principais desafios para o homem transgênero e a mulher transgênero?

George Amaral - Poderem decidir sobre seus próprios corpos.

iSaúde Brasil - Como o fundamentalismo religioso afeta o andamento das pesquisas acadêmicas e das instituições que podem atender a essa população?

George Amaral - Nosso país é marcado por uma cultura religiosa que demoniza e patologiza as experiências trans, determinando diversas práticas de rechaço dentro das escolas, das famílias e de outros grupos menores de interação, além de contribuir para a estigmatização dessa população e para a baixa efetividade das ações protetivas do Estado. O que, inclusive, no poder legislativo, dificulta a elaboração e a efetividade de políticas que garantam o acesso dessas pessoas a direitos sociais e aos serviços de saúde. De forma global, uma pesquisa publicada na revista The Lancet (“Global health burden and needs of transgender populations: a review”) mostra que as pessoas trans sofrem de uma alta carga de adoecimento psíquico e físico em razão do estigma e da violência que recebem nos diversos países que foram cenário do estudo. Isso está relacionado a esses processos de exclusão das pessoas trans pelos grupos religiosos mais influentes no globo. 

iSaúde Brasil - No Brasil, o Sistema Único de Saúde mantém alguma rede de apoio e atendimento?

George Amaral - Sim. Há alguns ambulatórios e centros especializados em cirurgias que estão localizados em hospitais universitários do país, habilitados para realização de procedimentos dentro do que o Ministério da Saúde denominou de “processo transexualizador do Sistema Único de Saúde”, regulado por portarias publicadas em 2008 e 2013. Essa política está sendo implementada no contexto da Política Nacional de Saúde Integral LGBT. É um avanço importante do nosso sistema de saúde e tem como desafios: a garantia do acesso às pessoas trans, o que envolve, principalmente, a qualificação de pessoal para extinguir práticas violentas e transfóbicas; a prática do diálogo desses serviços com os saberes das pessoas trans, a fim de suplantar os prejuízos provocados pela patologização dessas identidades e a ampliação do número de serviços na composição de uma rede de atendimento, desde a atenção básica até os serviços hospitalares, além da elaboração e do fortalecimento de estratégias de cuidado e de promoção da saúde mental dos grupos de pessoas trans e de outras dissidências de gênero. 

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