Publicada em 06/05/2019 às 15h52. Atualizada em 09/05/2019 às 12h02

Você sabia que diversas doenças autoimunes apresentam manifestações orais?

Lúpus eritematoso sistêmico, síndrome de Sjögren, líquen plano, pênfigo vulgar e penfigoide são algumas delas. Saiba mais.

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Doenças autoimunes, como o próprio nome já sugere, são condições nas quais ocorre um desequilíbrio do sistema imunológico de um determinado organismo, e o mesmo começa a agredir as próprias células e tecidos. Esse grupo de doenças pode surgir por variadas causas, afetar milhares de pessoas e, por ser de caráter crônico, pode levar a morbimortalidade se o tratamento correto não for iniciado. Muitas doenças autoimunes tendem a se manifestar inicialmente na cavidade oral, por meio de sinais e sintomas clínicos que lhes são peculiares. Sendo assim, o cirurgião-dentista é uma figura importante na identificação dessas patologias, e visitas regulares a esse especialista podem proporcionar um diagnóstico precoce, favorecendo o estabelecimento de um correto tratamento de abordagem multidisciplinar. As doenças autoimunes que apresentam manifestações orais com maior frequência são o lúpus eritematoso sistêmico, síndrome de Sjögren, líquen plano, pênfigo vulgar e penfigoide.

O lúpus eritematoso sistêmico é uma doença autoimune grave e multissistêmica, ou seja, pode envolver de pele a órgãos vitais, como rins e coração. Embora sua causa ainda não seja definida, sabe-se que fatores genéticos, hormonais e ambientais podem predispor o surgimento da doença. As suas manifestações sistêmicas incluem febre, mal-estar e até mesmo o comprometimento de órgãos. O eritema malar ou borboleta é um sinal muito característico, que se manifesta em região de nariz e bochechas. Na cavidade oral, as áreas mais comumente acometidas são a mucosa jugal, o palato, a língua e o lábio inferior. As manifestações clínicas orais incluem petéquias (pontos vermelhos), que podem evoluir para lesões ulceradas dolorosas, placas brancas, lesões bolhosas e gengivite. Entretanto, a lesão em forma de disco é a mais comum, a qual se apresenta com área avermelhada bem delimitada, atrófica ou ulcerada, que, em casos mais graves, podem apresentar características típicas da síndrome de Sjögren, que será abordada mais adiante. O seu tratamento inclui a prevenção, o alívio dos sintomas e a manutenção da remissão, portanto drogas imunossupressoras e analgésicas são utilizadas. Cuidados adicionais, como a proteção contra a radiação solar com a finalidade de se evitar as manifestações cutâneas, devem ser estabelecidos. Quando a doença não envolve muitos órgãos, o seu prognóstico costuma ser favorável, porém casos mais graves podem levar à morte.  

A síndrome de Sjögren também é uma doença autoimune que atinge as glândulas exócrinas, destruindo-as, resultando, assim, na diminuição do fluxo salivar e lacrimal, com consequente sensação de boca seca (xerostomia) e de olhos menos lubrificados (xeroftalmia). Pode ser classificada como primária ou secundária, sendo considerada primária quando não há associação com outras doenças autoimunes e secundária quando apresenta essa associação, sendo que as mais recorrentes são a artrite reumatoide e o lúpus eritematoso sistêmico. A sua causa ainda não foi completamente elucidada, mas sabe-se que um aumento da produção de autoanticorpos está relacionado a essa síndrome. Estudos também têm relatado que fatores ambientais e genéticos podem estar relacionados ao seu desenvolvimento. Diferentes sinais e sintomas ligados à secreção podem se desenvolver ao mesmo tempo e em diferentes partes do corpo, no entanto as principais manifestações são encontradas na cavidade oral. As modificações na quantidade e qualidade da saliva podem levar a inúmeros problemas, como a dificuldade na fala, mastigação e deglutição, cárie dentária, inflamação na gengiva, úlceras, friabilidade da mucosa, rachaduras nos lábios, halitose e edema nas glândulas salivares. Além disso, a redução do fluxo salivar pode predispor o surgimento de doenças oportunistas como a candidíase. No tratamento, fármacos com atividades imunossupressoras podem ser necessários. A xerostomia pode ser regulada por meio de substitutos de saliva como géis ou sprays. Gomas de mascar sem a adição de açúcar podem auxiliar no alívio da sensação de boca seca, por meio do estímulo da produção salivar. Umidificadores de ar também podem ser úteis para alívio da sensação desagradável. Lágrimas artificiais são indicadas para reduzir a xeroftalmia. Vale ressaltar que é de extrema importância o acompanhamento médico e odontológico para a prevenção de complicações. 

O líquen plano é uma doença inflamatória crônica mucocutânea. O líquen plano oral apresenta etiologia desconhecida, porém estudos têm associado o seu aparecimento com o estresse e a predisposição genética. As lesões são comumente assintomáticas e de difícil remissão, mas podem apresentar queimação, desordens do paladar, xerostomia e dor. Além disso, geralmente as lesões são bilaterais e os locais mais afetados são a mucosa jugal, língua, lábios e gengiva. As manifestações clínicas orais mais encontradas são a forma reticular, erosiva e atrófica. O tipo reticular é o mais comum, apresenta finas estrias brancas, mais conhecidas como estrias de Wickham, que geralmente são assintomáticas. No erosivo, pode-se observar ulcerações com regiões avermelhadas sintomáticas. O atrófico se manifesta com áreas avermelhadas e atróficas. Não é raro encontrar mais de um tipo em associação no mesmo indivíduo. Diversas modalidades terapêuticas podem ser empregadas para o líquen oral, a exemplo dos corticosteroides e imunossupressores tópicos. Deve-se avaliar a real necessidade de um tratamento ativo, como em casos de manifestações atróficas, erosivas e sintomáticas. Vale ressaltar que as formas erosiva e atrófica podem evoluir para neoplasia maligna, caso um tratamento efetivo não seja realizado. Isso torna a doença ainda mais preocupante, com necessidade de visitas regulares ao cirurgião-dentista, para que seja realizado um diagnóstico mais rápido e um tratamento mais eficiente.

O pênfigo faz parte de um grupo de doenças autoimunes caracterizado pela presença de bolhas intraepiteliais causadas por autoanticorpos que atacam as moléculas de adesão de pele e de mucosas. Existem diversos tipos, mas o mais comum e que mais afeta a cavidade oral é o pênfigo vulgar. O penfigoide também pertence a um grupo de doenças autoimunes, porém suas bolhas estão localizadas subepiteliamente. Geralmente, os primeiros sinais do pênfigo vulgar aparecem na cavidade bucal e as regiões mais comumente afetadas são a mucosa oral, o palato mole, a língua e o lábio inferior. Inicialmente, se apresentam como bolhas friáveis que se rompem facilmente, formando erosões dolorosas e ulcerações que proporcionam a sensação de queimação. O penfigoide comumente afeta mucosas, principalmente a oral e raramente aparece em pele. Intraoralmente, a gengiva e o palato são os locais mais afetados. Primeiro formam-se várias bolhas, menos friáveis que as do pênfigo, mas que acabam por se romper, originando úlceras que podem permanecer por dias ou semanas. No entanto, a sua predileção é pela gengiva, onde desenvolve uma gengivite descamativa. Os sintomas do penfigoide incluem sensação de queimação e sangramento, com consequente comprometimento da mastigação. O tratamento básico de ambos se dá por meio do uso de corticoides. Em casos mais brandos, se faz o uso tópico. Em casos mais graves, o tratamento é sistêmico, podendo necessitar do uso de outras drogas imunossupressoras.

Muitas são as doenças autoimunes que apresentam manifestações em cavidade oral e que exercem um grande impacto na saúde bucal. Os sinais e sintomas bucais podem ser o primeiro ou até mesmo o único indício dessas patologias. O diagnóstico precoce dessas lesões é fundamental para o estabelecimento de um correto e eficaz tratamento. Isso pode proporcionar melhor prognóstico dos casos, além de melhorar a qualidade de vida e ainda aumentar a sobrevida dos pacientes acometidos, especialmente nos casos de doenças mais graves, como o lúpus, e passíveis de malignização, como o líquen plano oral. Diante do exposto, é de extrema importância que visitas periódicas ao cirurgião-dentista sejam realizadas, afim de, por meio do diagnóstico precoce, sejam minimizadas as complicações que essas doenças podem trazer.

Referências:

Ribeiro BB, et al. Importância do reconhecimento das manifestações bucais de doenças e de condições sistêmicas pelos profissionais de saúde com atribuição de diagnóstico. Odonto 2012; 20(39):61-70. 

Baglama S, et al. Oral manifestations of autoinflammatory and autoimmune diseases. Acta Dermatovenerol APA 2018;9-16.

Saccucci M, et al. Autoimmune Diseases and Their Manifestations on Oral Cavity: Diagnosis and Clinical Management. J Immunol Res2018;1-6.

Silva DRA. Doenças autoimunes e manifestações na cavidade oral. 2017. Dissertação (Mestrado em Medicina Dentária) – Faculdade de Ciências da Saúde, Universidade Fernando Pessoa, Porto.

Taborda JFP. Mecanismos das doenças da mucosa oral de causa autoimmune. 2014. Dissertação (Mestrado em Medicina Dentária) – Faculdade de Medicina Dentária, Universidade de Lisboa, Lisboa.

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