Publicada em 11/07/2019 às 10h57. Atualizada em 11/07/2019 às 11h23

Você sabia que o HPV pode causar câncer de orofaringe?

Você sabia que o Papilomavírus Humano (HPV), conhecido por ser o causador do câncer de colo do útero, também está associado ao câncer de orofaringe?

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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O câncer de orofaringe compreende um conjunto de neoplasias malignas que acomete o palato mole, as tonsilas, a porção posterior da língua e as paredes da faringe. O carcinoma espinocelular (CEC) representa a forma mais comum do câncer de orofaringe (90%) e, entre os fatores de risco para sua ocorrência, pode-se destacar o tabagismo e o etilismo. Entretanto, tem-se observado um aumento significativo no número de casos de indivíduos que não tiveram exposição a esses fatores, o que sugere a existência de outros agentes etiológicos, como a predisposição genética, dieta e infecções virais, em particular pelo HPV.

O HPV é um vírus que pertence à família Papovaridae, com mais de 100 tipos identificados. As infecções pelo papilomavírus humano são bem disseminadas e ocorrem em qualquer parte do mundo. A transmissão ocorre pelo contato direto com a pele ou mucosa infectada, sendo a via sexual a principal forma de transmissão, seja por meio do contato genito-genital, orogenital ou manual-genital. Além disso, vale ressaltar que o contágio com o vírus pode ocorrer de forma precoce, através do trato genital da mãe para a cavidade oral da criança.

Ao infectar a mucosa ou a pele, o HPV pode estimular a formação de tumores epiteliais benignos e malignos. A progressão da fase de incubação do vírus para a fase de expressão ativa irá depender de três fatores: do grau de permissividade celular, do tipo de vírus e do estado imunológicodo hospedeiro. Quanto ao seu potencial oncogênico, os subtipos de HPV foram classificados como de baixo risco (6, 11, 42, 43 e 44) e alto risco (16, 18, 31, 33, 34, 35, 39, 45, 46, 51, 52, 56, 58, 59, 66, 68 e 70).

A associação entre o HPV e o câncer de colo de útero foi estabelecida na década de 1970. Hoje em dia, ele é encontrado em mais de 90% das pacientes com carcinoma de colo uterino. Em relação ao câncer de orofaringe, esse vírus tem sido abordado como forte agente etiológico desde a década de 1980. Syrjänen et al., em 1983, foram os primeiros a sugerir a relação entre o HPV e a carcinogênese de células escamosas orais e da orofaringe. Desde então, muitos trabalhos foram publicados na tentativa decomprovar a positividade das neoplasias malignas bucais para esse vírus. Inúmeros estudos têm demonstrado que a infecção pelo HPV pode agir de forma sinérgica com os agentes carcinogênicos já estabelecidos, a exemplo do álcool e do tabaco, devido à imunossupressão local que esses fatores causam, com aumento da predisposição do tecido à infecção viral. Dessa forma, a presença simultânea desses agentes químicos associados à presença do vírus em região de orofaringe pode aumentar a probabilidade de transformação maligna das células locais.

O mecanismo de carcinogênese do HPV ocorre por meio da produção de oncoproteínas E6 e E7. Essas duas proteínas atuam nos genes responsáveis pela supressão do tumor (p53 e pRB), inativando-os.  O vírus ainda é capaz de produzir a oncoproteína E5, que é responsável por estimular o crescimento celular epidérmico, o que influencia na transformação maligna. Atualmente, o HPV-16 e o HPV-18 são apresentados como os genótipos mais prevalentes em carcinomas da cavidade oral e orofaringe. O HPV-16 é o responsável por 25% de todos os CECs de cabeça e pescoço, sendo que a sua presença é observada em 45 a 90% dos casos de tumores de orofaringe e em torno de 24% de tumores de laringe e cavidade oral. Pepito et al. (2016), ao analisarem 82 casos de CEC em cavidade oral e orofaringe, detectaram que 25,6% dos casos eram positivos para HPV, dos quais 33,3% eram HPV-16 e 14,3% eram HPV-18. 

No que se diz respeito à incidência da infecção de acordo com o gênero, observa-se uma elevada prevalência de HPV associado ao câncer, nessa região, em homens. Quanto ao sítio mais acometido, a orofaringe apresenta maior porcentagem de casos (46,7%), em relação à cavidade oral (37,8%). O alto poder de desencadear um câncer na região de orofaringe deve-se pela facilidade que o vírus encontra de gerar papilomas nesse local. Contudo, a capacidade de malignização desses papilomas é bem menor em relação aos do trato genital.

"A prevenção contra o HPV pode ser feita através do uso de preservativos, todavia, até os dias atuais, a imunização é a melhor forma de se prevenir. Existem duas vacinas preventivas: a bivalente (...) e a quadrivalente..."

A prevenção contra o HPV pode ser feita através do uso de preservativos, todavia, até os dias atuais, a imunização é a melhor forma de se prevenir. Existem duas vacinas preventivas: a bivalente, que é específica para os tipos 16 e 18 do HPV, e a quadrivalente, com espectro que atinge os tipos 6, 11, 16 e 18 do vírus. O tratamento do HPV é feito no intuito de minimizar os sintomas manifestados, pois, mesmo após o tratamento, o vírus ainda tem capacidade de continuar presente no epitélio da mucosa, o que pode acarretar em recontaminação. Entretanto, nos casos em que se confirmou a presença do câncer de orofaringe, o tratamento compreende em remoção cirúrgica da lesão, radioterapia ou quimioterapia associada à radioterapia.

Diante desse contexto, a difusão do conhecimento por parte do cirurgião-dentista representa um papel importante na prevenção da contaminação pelo HPV. É de extrema relevância que esse profissional informe aos seus pacientes sobre os riscos em relação à contaminação do vírus na cavidade oral e orofaringe, e os conscientize sobre a necessidade da vacinação e sobre a prática do sexo seguro.

Referências:

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Castro TPPG, Bussoloti Filho I. Prevalência do papilomavírus humano (HPV) na cavidade oral e na orofaringe. Revista Brasileira de Otorrinolaringologia. 2006;72(2):272-82.

Campana IG, Goiato MC. Tumores de cabeça e pescoço: epidemiologia, fatores de risco, diagnóstico e tratamento. Revista Odontológica de Araçatuba. 2013;34(1):20-26. 

Morais EFM, Tinôco JML, Almeida GE, Neves JU, Araújo JET. Avaliação do efeito carcinogênico do papilomavírus humano em cavidade oral e orofaringe: uma revisão sistemática. RevMed Minas Gerais 2017; 26(1836):1-5.

Marques MPC, Bussoloti Filho I, Rossi LM, Andreoli MA, Cruz NO. Comparative study between biopsy and brushing sampling methods for detection of human papillomavirus in oral and oropharyngeal cavity lesions. Braz J Otorhinolaryngol. 2015;81(6):598-603.

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