Publicada em 06/05/2019 às 15h56. Atualizada em 14/05/2019 às 15h49

Você sabia que pode pegar parasitos através do sexo?

Saiba como esses pequenos organismos podem comprometer a saúde e a qualidade de vida de um indivíduo.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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Protozoários, tênias, amebas, lombrigas – quem nunca ouviu falar desses organismos? Os parasitos que afetam os humanos são divididos, didaticamente, em três grupos: protozoários, helmintos (vermes) e ectoparasitos. Alguns deles a gente pode adquirir até por contato sexual, como a tricomoníase. Ou levar a quadros graves: o Ascaris errático pode a qualquer momento adentrar o canal colédoco ou ducto pancreático e causar uma pancreatite aguda. Recentemente, a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) publicou dados sobre doenças parasitárias nas Américas. A cada ano, 51 mil casos de leishmaniose cutânea são notificados nas Américas. Na região, 70 milhões de pessoas correm risco de contrair a doença de Chagas, 25 milhões sofrem de esquistossomose e 12,6 milhões têm filariose linfática. A longo prazo, algumas dessas doenças podem causar deficiências que afetam as perspectivas de emprego das vítimas — o que perpetua, assim, o ciclo de pobreza. A falta de água potável e saneamento básico contribuem ainda para a propagação de doenças parasitárias, como esquistossomose e fasciolose. Nesta entrevista, o parasitologista e pesquisador Artur Dias Lima, doutor em Biologia Parasitária pela Fundação Oswaldo Cruz – IOC/Fiocruz, comenta alguns aspectos que estão bem desenvolvidos na recém-lançada quarta edição do seu livro Parasitologia Básica, escrito por ele, David Pereira Neves, Welton Yudi Oda e Thelma de Filippis. Confira.

iSaúde Brasil – Quais são as formas mais comuns de parasitos que afetam os humanos?

Artur Dias Lima – Os parasitos, por definição, são organismos que sobrevivem em associação a outras espécies, das quais retiram os nutrientes para a sua sobrevivência, reprodução, transmissão e perpetuação da espécie. Os parasitos que afetam os humanos são divididos, didaticamente, em três grupos: protozoários, helmintos (vermes) e ectoparasitos. Os protozoários – a exemplo das giárdias, amebas, Trypanosoma cruzi e Toxoplasma gondii – são seres unicelulares, dotados de inúmeras estratégias para sobreviver em seus hospedeiros. Os helmintos são os vermes, animais que vivem dentro do corpo humano, a exemplo da lombriga Ascaris lumbricoides e do Schistosoma mansoni, causador da “barriga d’água”. Os ectoparasitos são artrópodes, insetos e/ou aracnídeos, representados pelos piolhos, ácaros, carrapatos, dentre outros.

Recentemente, a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) publicou dados sobre doenças parasitárias nas Américas. A cada ano, 51 mil casos de leishmaniose cutânea são notificados nas Américas. Na região, 70 milhões de pessoas correm o risco de contrair a doença de Chagas, 25 milhões sofrem de esquistossomose e 12,6 milhões têm filariose linfática. A OPAS alerta que, caso não sejam detectadas e tratadas a tempo, essas enfermidades podem gerar efeitos irreversíveis nos indivíduos infectados. A longo prazo, algumas delas podem causar deficiências que afetam as perspectivas de emprego das vítimas — o que perpetua, assim, o ciclo de pobreza. Em situações de miséria, a população fica mais exposta aos agentes patogênicos. Habitações em más condições, muito comuns no Brasil, por exemplo, facilitam a entrada de mosquitos e outros insetos vetores em casas e favorecem também a transmissão de doenças, como a malária, Chagas e leishmaniose. A falta de água potável e saneamento básico contribui ainda para a propagação de doenças parasitárias, como esquistossomose e fasciolose.

iSaúde Brasil – Os exames para detectar a sua presença são comuns e acessíveis à maioria da população?

Artur Dias Lima – Em tese, sim. Esses exames são acessíveis à maioria da população, principalmente os parasitológicos de fezes, oferecidos pelo SUS e que detectam a presença de protozoários e helmintos que habitam o nosso intestino. Testes sorológicos, que buscam diagnosticar parasitos através do exame do sangue e de fluidos corporais, também estão mais acessíveis. São exames realizados por meio de solicitação médica.

iSaúde Brasil – Que conjunto de sintomas pode indicar que a pessoa tem alguma doença parasitária?

Artur Dias Lima – As doenças parasitárias e suas consequências variam bastante de hospedeiro para hospedeiro. Na sua maioria, são assintomáticas. O fato é que, por inúmeros fatores inerentes ao hospedeiro, como a desnutrição, a idade, coinfecções e baixa imunidade levam ao surgimento da doença propriamente dita. Nessa ocasião, surgem os sintomas e o indivíduo que hospeda o parasita, agora adoentado, pode apresentar desde sintomas leves a, até mesmo, consequências mais graves; em alguns casos, a sua morte. 

iSaúde Brasil – Existem vacinas para doenças parasitárias? O tratamento, em geral, é simples ou complicado?

Artur Dias Lima – Até então, não existe disponibilidade de vacinas antiparasitárias para a população humana mundial. Se existirem, isso ainda levará um bom tempo para acontecer. Na sua maioria, são doenças negligenciadas e existem poucos investimentos das indústrias farmacêuticas nesse sentido. 

O tratamento dependerá da espécie do parasito e da doença. Para parasitos intestinais, existem medicamentos antiparasitários de amplo espectro e são bem acessíveis. Para outras doenças, existem especificidades. Na esquistossomose, é preciso diagnóstico e receita medica para tratamento através do SUS. Em alguns casos, são necessárias intervenções cirúrgicas. Em outras situações, é feito o internamento para tratamento, como no caso da leishmaniose visceral, cuja droga utilizada no tratamento é hepatotóxica (afeta o fígado).

iSaúde Brasil – Quais são as formas de transmissão?

Artur Dias Lima – Existem diferentes formas de transmissão de parasitoses aos seres humanos, dependendo da espécie do parasito: 1) ingestão de oocistos (Toxoplasma gondii), cistos (giárdia e amebas), ovos (helmintos//verminoses) ou larvas (helmintos/verminoses) em alimentos ou água contaminados; 2) através da ingestão de carne crua ou mal passada, como é o caso da toxoplasmose ou teníase/cisticercose; 3) sexual, como na tricomoníase; 4) pela picada de insetos, como as filariose; 5) tomando banho em ambientes hídricos dulciaquícolas (agua doce) com caramujos contaminados, como na esquistossomose. São inúmeras as formas de transmissão e de espécies de parasitos.

iSaúde Brasil – Sabe-se que a carne de porco pode transmitir parasitos. Quais são os mais perigosos?

Artur Dias Lima - Sim. Nesse caso, estamos falando da cisticercose. É uma doença causada pela espécie Taenia solium, adquirida através da ingestão de carne de porco crua ou malpassada, assim como também através da ingestão de ovos, acidentalmente. Uma pessoa com a Taenia solium, ou seja, com teníase, pode vir a ter a cisticercose, caso proglotes do parasito se rompam no intestino. Em se tratando de parasitos, é importante acreditar que, em algum momento, os parasitos podem oferecer perigos à saúde humana.

iSaúde Brasil – Existe algum parasito que é mortal para o organismo humano? Quais são eles?

Artur Dias Lima – Em linhas gerais, todo parasito pode ser mortal, em algum momento. O quadro anterior mostra algumas dessas possibilidades de morte humana por parasitoses. Um bom exemplo para essa preocupação é o Ascaris errático, que pode, a qualquer momento, adentrar o canal colédoco ou o ducto pancreático e causar uma pancreatite aguda. Antes disso, esse mesmo hospedeiro, outrora assintomático e com Ascaris lumbricoides no seu intestino delgado, agora está sob risco de vida em virtude de uma pancreatite. Outro exemplo seria a migração aleatória de ovos do Schistosoma mansoni na corrente sanguínea, podendo parar na medula espinhal, provocando lesões medulares, por vezes irreversíveis, deixando o indivíduo com paralítico ou paraplégico.  

iSaúde Brasil – Animais de estimação podem ter parasitos? Como descobrir se são portadores?

Artur Dias Lima – Todo cuidado é pouco. Os animais são nossos companheiros e, muitas vezes, precisam também de cuidados. Na medicina veterinária, usa-se o termo de “posse responsável”, cuidando da saúde, alimentação, moradia e segurança dos pets. Esse é o caminho! Outra questão importante trata da “saúde única” na tríade saúde animal, humana e ambiental, em sua perfeita harmonia. É preciso estar atento com essas necessidades. São muitos os parasitos que os animais domésticos podem veicular aos seres humanos, caso estejam parasitados. São exemplos a toxoplasmose, pelos gatos, seus hospedeiros definitivos. Outro exemplo, a leishmaniose visceral (calazar) pelos cães, através da picada de insetos flebotomíneos. Para descobrir se os animais de estimação são portadores de parasitoses, os médicos veterinários dispõem de toda uma estrutura necessária para diagnóstico e tratamento dessas doenças.

iSaúde Brasil – O que fazer diante desse cenário de risco de adquirirmos doenças parasitárias?

Artur Dias Lima –  Ainda é comum, na atualidade, a presença de doenças parasitárias em todas as partes do Planeta. Carências de saneamento básico e de educação sanitária, desmatamentos, urbanização desorganizada, globalização e outros importantes fatores, contribuem para essa presença. Cientes desse fato, os cuidados profiláticos e de controle são de extrema importância para evitarmos infecções parasitárias e, consequentemente, os casos mais graves e óbitos provocados por esses seres parasitos.

Referências:

David Pereira Neves, THELMA DE FILIPPIS, ARTUR DIAS-LIMA e WELTON YUDI ODA. Parasitologia Básica, 4ª Ed. 2019. 268 p.

https://nacoesunidas.org/opas-alerta-para-doencas-infecciosas-que-sao-negligenciadas-nas-americas/. Acessado em 01 de abril de 2019

Palavras Chave:

parasita biologia doenças
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